JoniBaltar
Há pessoas que irrompem na nossa vida como relâmpagos: rasgam o céu da alma e deixam na pele um clarão que não se apaga. Atravessam-nos por dentro e ficam a arder no lugar onde antes só havia silêncio.
No silêncio entre dois corpos nasce um campo magnético,
onde cada gesto é promessa
e cada respiração é caminho.
A pele torna‑se horizonte,
o olhar, uma mão invisível,
e o tempo verga‑se como tecido húmido à espera de ser moldado.
Há um tremor que não é físico,
uma vertigem que não é carnal,
mas que acende o coração
como se fosse chama a acender
as constelações da alma.
E quando o silêncio desaparece,
os gemidos tornam-se linguagem.
E o ar entre nós torna‑se incenso,
lento, quente, vivo.
Uma língua feita de luz,
que só dois sabem ler.
Uma liturgia de sombra e claridade,
onde duas almas se reconhecem.
Mar de Amar
Mar em mim.
Mar comigo.
Mar sempre.
Mar que chama.
Mar que rasga.
Mar que sobe pela pele.
Mar de amar.
E eu, na estrutura do instante,
aprendo a ser horizonte.
Mar
horizonte reduzido
à pergunta que não se diz
entre ambos,
o suspiro.
O mar não fala:
escreve-me por dentro.
Estar na presença de pessoas verdadeiramente boas altera o peso da vida. A energia que emanam não muda apenas o ar: transforma também a relação entre nós e aquilo a que chamamos vida.
Homenagem ao vocalista dos TROVANTE
Fizeste parte, musical e emocional, da minha inesquecível memória geracional dos anos 80. Só quem viveu os 80's por dentro entende o que aqui escrevo. Assisti a vários concertos dos Trovante, e cada um deixou em mim uma marca que nunca se apagou.
Admirei‑te como músico, pela forma como transformavas o palco em alma; e admirei‑te como ser humano, pela serenidade, pela verdade e pela presença que oferecias a quem te escutava. Eras — és — daqueles artistas que não passam: ficam, sedimentam, acompanham.
Hoje, ao escrever‑te, percebo que a tua música não foi apenas banda sonora da minha geração, foi também uma agulha magnética silenciosa, daquelas que continuam a apontar para dentro, mesmo quando o mundo lá fora muda.
Desencarnaste deste mundo, é verdade, mas a verdade maior é que nunca deixaste realmente de estar. Há artistas que partem e há artistas que ficam, tu ficaste no lugar onde a música se transforma em memória viva, naquele território íntimo onde o tempo não apaga: apenas depura.
Até trovantemente sempre, Luís Represas.
Carrego-te como quem leva pedras e flores no mesmo fôlego.
No peso que me curva, há um rumor teu, uma memória que se acende entre as rochas, como se cada grão de pólen soubesse o teu aroma.
As flores presas à minha mochila interna respiram contigo, frágeis e obstinadas, lembrando que até o que pesa pode ser ternura.
Caminho, e o vento toca o que não ouso dizer, esse quase‑toque que vive entre o ombro e o mundo.
E no silêncio da marcha, o desejo é só isto:a beleza que insiste, mesmo quando dói, e o caminho que se torna pele quando penso em ti.
Há caminhos que só florescem porque, algures no tempo, alguém os atravessou carregando pedras que nunca foram suas.
O Estado Poesia
Os nossos corpos, em estado sólido,
começam a derreter quando as epidermes se tocam.
Passamos a líquido,
escorrendo um para o outro,
misturando temperaturas,
onde o toque é luz,
o calor é linguagem,
e o que somos se escreve no ar
como se a pele tivesse aprendido a respirar dentro da pele.
E quando evaporamos,
quando a anatomia
se desfaz em vibração
e ficamos só alma com alma,
passamos para o estado mais raro:
o estado poesia.
Onde já não somos corpo,
nem gesto,
nem pele — somos aquilo que o mundo lê
quando o silêncio grita.
O eclipse é o instante em que o universo fecha os olhos
para que nós possamos abrir os nossos. Depois do eclipse, a luz regressa sempre diferente, e nós também.
