Hermes Fernandes
Roleta Russa
Nem tudo o que é sentido faz sentido
Nem sempre a razão que tem razão
Nem tudo o que se quer é permitido
Nem sempre se dá ouvido ao coração
Se a intuição vier falar mais forte
Não custa nada a gente refletir
Pra quê brincar com a própria sorte?
Viver é mais que apenas existir
Às vezes nesta vil roleta russa
O tiro dado sai pela culatra
Daí que nem que a vaca tussa
se abandona o que se idolatra
Ou bem nos cabe a carapuça
Ou sequer sei do que se trata
A vida segue cheia de percalços
A cada curva vem nos surpreender
Melhor então seguir descalços
Dispostos sempre a aprender
Vou viver o que há pra morrer
Celebrar cada derrota
De onde minha força brota
Meu caminho hei de percorrer
Lamentar minhas vitórias
Pois são todas ilusórias
Vou morrer o que há pra viver
Vou sorrir minha tristeza
Vou driblar a vã certeza
A cada espinho que eu colher
Vou testar o quanto aguento
Desta dor não sou isento
A cada flor que esvanecer
Não me entrego ao lamento
Pois só dura um momento
Há mais pecado concentrado numa gota de presunção que num oceano de lascívia. O que precede a ruína é a soberba.
Duas coisas peço a Deus: que ele coloque as pessoas certas em meu caminho e que eu seja a pessoa certa no caminho delas.
DISTRAÍDO
Não é que eu esteja distraído
Olhando pra você assim desse jeito
É que a paisagem na janela
fica bem mais bela
quando se revela
em seu olhar
Prefiro nem saber como teria sido
Viver sem você assim perto do peito
Seria como se roubassem as cores da aquarela
E secassem toda a água do mar
Fizemos de um bote salva-vidas a nossa caravela
E de um mero salto, nosso voar...
Nosso voar ao luar
Se o sol se recusa a nascer
Se a lua inibida se esconde de nós
Chegando o entardecer
Nosso amor não nos deixará a sós
Como um farol que rasga a neblina
Pra o nosso barco ancorar
Como um gigante que se inclina
Pra uma pequena flor regar
Como um instante que nos ilumina
E faz dos dois um coração
Como escalar a mais alta colina
Pra ver o céu beijar o chão
Como se o vento soprasse a cortina
E soltasse a imaginação
Como se o tempo dobrasse a esquina
E renovasse a estação
Se venço minha timidez
Rompo o silêncio que rouba minha paz
Exponho o que sinto outra vez
E deixo todos meus temores para trás
A fé é proporcional ao
que estamos dispostos
arriscar. O amor é
proporcional ao que nos
dispomos renunciar.
O caminho mais curto para combater uma ideia sem se dar o trabalho de refutá-la é simplesmente rotulando-a.
TUDO POR VOCÊ
Veja nos meus olhos
Que eu não minto
Você vai perceber
Nada se compara
Ao que eu sinto
Mesmo que eu queira
te esquecer
Não me diga
Que não vale tentar
Nem me diga
Que não vale arriscar
Eu faço tudo,
tudo por você,
só por você
Quero te surpreender
Rasgar o roteiro
Ao teu amor me render
Me aceite como eu sou
Me aceite inteiro
Pois largo tudo por você
Não me diga
Que não vale lutar
Nem me diga
Que é melhor evitar
Eu faço tudo,
tudo por você,
só por você
Não há amor maior
que o meu amor
E nenhum outro
te amaria mais
Aonde quer que eu for,
tudo que eu viver
Só valerá se for
com você
Oh, não peça
pra não sacrificar
Nem me impeça
De querer demonstrar
Vou lutar até
conquistar o que eu quis
Darei o que quiser
Pra te fazer feliz
Eu faço tudo,
tudo por você,
só por você.
Uma mente inquieta em busca de respostas. Um corpo que almeja carinho. Um coração ávido de amor. Um espírito que aspira encontrar sentido. Uma alma que não admite morrer sem que tenha vivido.
Mesmice
Que vergonha!
Antes que o sol se ponha
Tenho que admitir
Fiz tantos planos
Ao longo dos anos
Que não incluíam estar aqui
Achei-me preparado para o que desse e viesse
Tentei me blindar contra o tédio e o estresse
Desdenhei das expectativas que punham em mim
Transformei em começo o que supunham ser fim
Julguei-me capaz de contornar qualquer aperreio
Forjei desculpas que justificassem meu devaneio
Alimentei meu ego
Deixei subnutrido meu coração
Então me vi cego
Vendado e iludido pela razão
Lá estava eu...
Cheio de si...
Imbatível...
Testando meus argumentos
Protegido pelo breu...
Eu me senti...
Insensível
Alheio aos meus fragmentos
Quer mesmo saber?
Falhei
Neguei a atenção que me foi requerida
Ocupei-me demais
Perscrutando oceanos abissais
Ignorando as riquezas da superfície
Cansado de ver sempre a mesma mesmice
Quer mesmo saber?
Flagrei-me
Ao tentar convencer-me que assim é a vida
Preocupei-me bem mais
Ao dar-me conta do quanto é fugaz
Pra se perder tempo com idiotice
Pois tempo não é coisa que se desperdice
De repente
Eis-me numa esquina
Da minha existência
Sem saber o que fazer
Nem que direção tomar
Assim, tão de repente
Não mais que de repente
Tudo se desfez enfim
Diante dos meus olhos
O que parecia ser
O raiar do dia
Trouxe a escuridão pra mim
Quando amanhecia
Quis mentir para viver
O que era de verdade
Desejei me esconder
Pra ter liberdade
Diante desta sina
a resiliência
O que me restou fazer
A não ser me conformar?
Fiz-me displicente
Nada inocente
Do que eu sonhei pra mim
Sobraram espólios
O que parecia ser
Um gesto de zelo
Fez tudo desvanecer
Virou pesadelo
Não dá mais para mentir
Pra ninguém, nem para mim
Nem sei como reagir
Só não quero pôr um fim
Sim, devo admitir
Cansei de omitir
O que sinto aqui dentro
Sim, para quê insistir
Disfarçar ou fingir
Esconder meu lamento?
Sim, cansei de dizer não
Para o meu coração
Que já bate mais lento
Sim, ainda estou aqui
E espero prosseguir
E estar sempre atento
Sim, devo me permitir
E assim conferir
Até onde aguento
Sim, possa o céu se abrir
E minha vida cobrir
De perdão e alento
O que é maior, um grão de areia ou uma estrela? Um grão de areia é capaz de refletir o brilho de uma estrela. Enquanto o astro mantém-se alheio à sua ínfima existência.
O TEMPO
Tempo
Tão pouco
Insuficiente
Nem louco
tampouco
consciente
Sou confesso réu
Cortejando a insanidade
Pois tão cruel
é ser refém da realidade
Um espesso véu
é que esconde a eternidade
Pressa
Pressão
Sensação que me atravessa
Que sucumbe à promessa
de ficar um pouco mais
Se num lapso
o tempo entrasse em colapso
E o fim enfim virasse início
Então assim teria paz
Sacrifício
Em vão se evita o desperdício
Ignorando o precipício
Em busca do que satisfaz
Sagrado
Torna eterno o segundo
Faz do raso, o profundo
Segue impoluto e voraz
Paradoxo
Acelera quando em sua companhia
Longe de ser ortodoxo
Seu fluxo beira à heresia
Tempo é flecha
Não bumerangue
Abre e fecha
Mesmo que se zangue
Num piscar de olhos
Só sobraram os espólios
O que é deixou de ser
O porvir deixou saudade
O que resta a perder
além da oportunidade?
SERMÃO DO VALE
Infelizes os de espírito altivo, que se estribam em suas posses materiais adquiridas com a exploração e opressão dos mais pobres. Suas riquezas se apodrecerão. Sua soberba se desvanecerá.
Infeliz é quem não se condói da dor alheia, porque não haverá quem se condoa de sua própria dor.
Infelizes são os que fazem questão de tudo, pois a sepultura será sua única herança.
Infeliz quem se apetece da injustiça, pois nunca se dará por satisfeito.
Infelizes os intolerantes, pois a intolerância os alcançará.
Infelizes os que sonegam misericórdia aos misericordiosos.
Infelizes os de coração sujo, pois sua maldade os impedirá de ver a Deus em seus semelhantes.
Infelizes os que atiçam uns contra os outros, pois terminarão seus dias sem ninguém que os defenda nem quem almeje sua companhia.
Infelizes os que promovem o sofrimento de outros por causa de seus próprios interesses, porque lhes restará um mundo em escombros.
Infelizes são vocês quando difamam e perseguem e, mentindo, espalham todo o mal contra os outros por causa da inveja, da ganância e da vaidade.
A FÚRIA DO AMOR
A FÚRIA DO AMOR – 13/01/2018
Ah, o amor...
O amor não se porta inconvenientemente... não expõe ninguém ao constrangimento, nem fere seus escrúpulos.
O amor não busca os seus próprios interesses... não impõe sua agenda particular em detrimento do bem comum.
O amor não se irrita... não perde a compostura.
O amor não suspeita mal... ainda que tudo indique haver culpa no cartório.
O amor jamais diz "bem feito!", pois não se alegra com a injustiça, mas com a verdade, mesmo que esta nos desaponte.
O amor tudo sofre... até a maior decepção.
O amor tudo crê... mesmo quando há tantas dúvidas e perguntas sem resposta.
O amor tudo espera... ainda que o tempo pareça esgotar-se.
O amor tudo suporta, tudo releva, tudo perdoa... inclusive a mais dura e cruel verdade.
O amor jamais se acaba...
Ele pode mudar de estado assim como a água, esfriando até congelar, ou aquecendo até evaporar, mas jamais deixa de existir. Ele pode até fluir discretamente sob o solo, infiltrando-se pelas paredes ou jorrar com força feito um chafariz; ele pode açoitar as rochas feito ondas ou gotejar serenamente como uma garoa, mas jamais deixa de fluir. Como um rio, ele contorna obstáculos e segue até desaguar no mar, seu destino. Não ouse represa-lo, pois com o tempo, sua fúria irrompe os diques, inundando tudo à sua volta sem nem mesmo respeitar os limites do seu próprio leito.
Senhor, que eu esteja entre os que somam, e não os que somem. Entre os que amam, e não os que difamam. Entre os que perdoam e não os que se vingam. Entre os que promovem a paz e não os que sabotam sua obra.
A gratidão desaparece quando
o bem recebido é visto como
uma obrigação, um dever cumprido,
e não um gesto despretensioso de amor.
