Hermes Fernandes
Ambidestro
Desnudo minh’alma
devagar, peça a peça
Ninguém sequer nota
Meu escudo é o trauma
de ter vida destra
e alma canhota
Nem tudo me acalma
Nem me interessa
Me aponte uma rota
Iludo a palma
da mão que tem pressa
e a outra boicota
Ao espelho sem pose
Somente reflexo
Imagem reversa
Se a lente der close
Verá quão complexo
é o ser que dispersa
Sob várias camadas
Sob a superfície
Esconde-se o magma
Energias domadas
Um vulcão na planície
Onde o ser não estagna
Meu prazer será
ultrapassar meu dever
Vou extravasar, porque
não há o que esconder
Jogo da vida
A banca está aberta
para quem quer apostar
Se falha ou acerta
só sabe quem pagar
O futuro está em jogo
roletas a girar
Depois de aceso o fogo
quem pode apagar?
Os dados viciados
garantem a ilusão
os mesmos resultados
eis a conspiração!
Rebeldes contra o mal
Que rompem com o jogo desleal
Vamos nos rebelar
e toda injustiça denunciar
Prudência não faz mal
Quem vence é quem luta até o final
Não é questão de sorte
nem jogo de azar
Nem sempre é o forte
que entra pra ganhar
Se a regra agora é esta
as fichas vou lançar
O que me espera é festa
O futuro certo está
Ideal
Não é por fama ou por aplauso,
Nem pela luz do holofote
Se o escândalo eu causo
Ou soberba que eu arrote
Que esta chama, que este alvo
Se me apague, alguém sabote
Que milagre ou prodígio,
Vai impor o meu querer?
Não busco posse ou prestígio,
Nem prazer, ou o poder
Mas...
Um ideal pelo qual morrer
Um amor para o qual viver
Ao oprimido estendo a mão
Às injustiças eu cerro o punho
Ao desterrado, pedaço de chão
Ao desesperado, meu testemunho
Saio às ruas para proclamar
Que um novo tempo já se insinua
No horizonte a esperança a raiar
Que a distância entre nós diminua
E o que a mão esquerda fizer
A direita não saiba jamais
Que eu sofra a perda que vier
Mas não desista, nem olhe pra trás
O Seu amor hei de manifestar
No sacrifício pelo semelhante
Com o Seu perdão quero aterrar
o precipício que houver adiante
Quero ser voz para o mudo
para o mais fraco, hei de ser um escudo
Quero ser luz no escuro
Faz de mim seta que aponte o futuro
Avalanche
Não repare minha voz estar fanha
Se algo me engasga e embarga
Nem me encare, pois o trauma me acanha
O que era doce me rasga e amarga
Quero expor o que quer que eu tenha
Dar à luz, pois minh’alma está prenha
Sensatez naquele que sonha
cede a vez à dor e a vergonha
Não importa o que se proponha
Travesseiro perdeu sua fronha
Se quer me encontrar, então venha
Se vai me acessar, eis a senha
Mas para conter a avalanche
O perdão em vez da revanche
Se custou pra montar, não desmanche
Se já está limpo, não manche
Perdoe-me se te insulto
Se exponho o que estava oculto
Do que vale se tudo te estranha
Se nem tua superfície arranha
Só há cura se a ferida é exposta
Se o amor for além da aposta
Diário de bordo
Querido diário de bordo
Acabei de embarcar
Que a viagem seja tranquila
Tão serena quanto o mar
Já até me aconcheguei
Vou dormir até o cais
Neste barco sou o rei
Não perturbem minha paz
Querido diário de bordo
Sinto o barco balançar
E por pouco não acordo
Vamos ver onde vai dar
Se for só uma marola
fico quieto em meu canto
Meu timão Deus quem controla
Pra que todo este espanto?
Ouço gritos no convés
Corre-corre pela nau
Da cabeça até os pés
Eu me cubro integral
Deve ser um pesadelo
Logo, logo vai passar
Quer por medo ou desmazelo
Me recuso a aceitar
Querido diário de bordo
Alguém bate à minha porta
Quem sou eu? Já nem recordo
E quem é que se importa?
Ei amigo, por que dorme?
Todos fazem sua prece
A tormenta está enorme
É melhor que se apresse
Por acaso você sabe
a razão desta má sorte?
Tanta água aqui não cabe
Não há barco que suporte
Sou rebelde e infiel
Não devia estar aqui
Do juízo sou o réu
A Deus desobedeci
Não me poupem, por favor
É melhor lançar-me ao mar
Não duvidem, o furor
certamente acalmará
Quero ser um homem honrado
Não descartem a esperança
Depois que eu for lançado
Virá logo a bonança
Ao ouvir meu argumento
tão estranho, tão insano
Sem remorso ou lamento
me lançaram no oceano
O meu corpo cai inerte
e chega ao fundo do abismo
Lanço na morte o meu flerte
Lá se vai meu otimismo
Pelo menos ninguém mais
vai pagar pelo meu ato
Se eu sofrer, sofro em paz
É mais justo e sensato
O que foi que aconteceu?
Onde é que fui parar?
Este cheiro, este breu
No inferno devo estar
Oh Senhor, ouve minha prece
Recebi o que merece
todo que te aborrece
e a tua Lei desobedece
Oh Senhor, ouve minha voz
Eis-me aflito, arrependido
Meu castigo é atroz
Porém, justo e merecido
Quero a chance de seguir
O caminho que traçaste
Que eu alcance no porvir
Tudo o que Tu planejaste
Querido diário de bordo
Uma luz à frente raia
De alegria me transbordo
Vomitado nesta praia
O que foi que me engoliu
Parecia meu castigo
Era a graça que sorriu
e me pôs em seu abrigo
Nenhum mandamento é tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo quanto o que nos ordena amar o próximo. Há vários tipos de proximidade: geográfica, cultural, étnica, religiosa, e sobretudo, a temporal. Neste caso, amar o próximo é amar o que vem depois de nós. É preparar-lhe caminho para que desfrute o melhor da vida.
Duvido, logo insisto
Quem me vê
Pensa que sou só certezas
Que tenho respostas
para toda e qualquer questão
Quem assim me vê
Não imagina as represas
Paredes impostas
Destinadas à implosão
Certezas são estacas
Dúvidas são remos
Que nos fazem navegar
Oceanos extremos
Certezas são âncoras
Dúvidas são velas
Certezas são portas
Dúvidas, janelas
Certezas, palácios
Dúvidas, caravelas
Certezas confortam
Dúvidas confrontam
Certezas tranquilizam
Dúvidas desafiam
Certezas, sonhos
Dúvidas, insônia
Certezas, caverna
Dúvidas, ar puro
Certeza hiberna
Dúvida veraneia
Certeza inspira
Dúvida suspira
Certezas, alicerces
Dúvidas, terraço
Certezas, arco-íris
Dúvidas, mormaço
Certezas, ouro
Dúvidas, aço
Certezas, tempo
Dúvidas, espaço
Certezas, memória
Dúvidas, lapso
Certezas, história
Dúvidas, colapso
Certezas, lago
Dúvidas, correnteza
Certezas, assoalho
Dúvidas, telhado
Certezas, sinfonia
Dúvidas, bossa-nova
Certezas, ironia
Dúvidas, sarcasmo
Certezas, distração
Dúvidas, atenção
Certezas, exclamação
Dúvidas, interrogação
Certezas, ponto final
Dúvidas, reticências
Certezas, dogma
Dúvidas, ciência
Certezas, satisfação
Dúvidas, desejo
Certezas, rotina
Dúvidas, imaginação
Só os que firmemente creem
Podem expor suas dúvidas
Pois onde há tanta certeza
Não resta espaço para surpresa
Não confunda dúvida com incredulidade
Nem fé com ansiedade
Quem tem dúvida, quer saber
Para errar menos, acertar mais
Sem acanho - Por Hermes C. Fernandes
Uma sensação teima em me perseguir
Tal chama que queima sem se extinguir
Chamem do que quiserem chamar
Isso não altera o que está no coração
Mesmo que venham a se lamentar
Devo admitir minha inadequação
Viver num mundo que não é o seu
Gritar bem alto em sala vazia
E só ouvir o eco de sua própria voz
E por um segundo ver que se esqueceu
De dar o salto que sempre queria
Não ser mais boneco do destino atroz
Talvez seja esta a minha sina
Sentir-me estranho no próprio ninho
Quem sabe a vida é quem nos ensina
Que é sem acanho que se acha o caminho
Só deveriam dizer "AMÉM" no culto que se presta a Cristo, os que estivessem dispostos a atenderem ao Seu apelo: AMEM!
Acho que errei na dose - Por Hermes C. Fernandes
Quando te encontrei, parecia hipnose
Não via outra coisa senão você
Acho mesmo que errei na dose
Pois meu dia recusou-se a anoitecer
O amor contagiou-me feito virose
Que remédio poderia me curar?
Não percebe o quanto errei a dose?
Estou doente de tanto te amar
Você é a causa da minha neurose
Seu colo o divã onde o ser se desnuda
Seja linho, seja lã, seja viscose
Nada impede que minh’alma se iluda
O que espero é que haja simbiose
Não te peço mais que eu possa oferecer
Mas paixão não se pega por osmose
Tem que se abrir, se entregar, tem que querer
Quando velhos e já cheios de artrose
Vou te amar sem pressa, por lazer
Deste amor quero morrer de overdose
De mãos dadas assistir ao entardecer
Conto de Enfado (Perdido)
Não há placas na floresta
Que me apontem uma trilha
Já nem sei quanto me resta
Alguns metros ou uma milha
No meu barco há uma fresta
Estou preso numa ilha
O que antes era festa
Revelou-se armadilha
Ora o meu ser protesta
Ou se engaja na guerrilha
Se o pavor se manifesta
Não me escondo na escotilha
Que fortuna indigesta!
A lanterna está sem pilha!
Se tem uma, me empresta
Luz que é luz se compartilha
O meu coração detesta
Freio que perde a pastilha
Gente séria e modesta
Não se exalta, nem se humilha
Toda árvore no apogeu
sempre aponta para o alto
Não há rastro de pneu,
Nem sinais ou mesmo asfalto
Paraquedas de ateu
Não me servem neste salto
A ferida me doeu
Inútil é gritar bem alto
Do meu grito ouço o eco
Pois sou gente, não boneco
Se acerto ou se peco
Minha paz que hipoteco
Extraíram meu sorriso
Do molar até o siso
Me deixaram duro e liso
Deixaram o chão, levaram o piso
Só me acho, se perdido
Minha alma não se espanta
Não me poupo, fui ferido
Pela mão que me acalanta
Já não caio neste conto
Nem no canto da sereia
Que diante do confronto
Sem ter pernas, esperneia
Pois o raio nunca cai
duas vezes na areia
Presa fácil, nunca mais
Eu rompi com sua teia
Hoje volto a sorrir,
Mesmo que quase banguela
Meu caminho vou seguir
Pra tristeza não dou trela
Restam os dentes da frente
os caninos e os incisivos
Só caminho com gente decente
Mais que fichas em arquivos
Confiança quando se quebra,
De uma vez se esfacela
Nem tudo se celebra
É meia-noite, Cinderela!
Apenas, ame.
Se há quem contra ti trame,
ame.
Se houver quem te difame,
ame.
Se te expõem ao vil vexame,
ame.
Se não há quem por ti clame,
ame.
Se te cercam de arame,
ame.
Se submetem-te a exame,
ame.
Não procure quem te aclame,
apenas, ame.
Tão-somente, perdoe
Se há quem de ti destoe,
perdoe.
Se há quem de ti caçoe,
perdoe.
Se há quem te atraiçoe,
perdoe.
Se há quem sempre te magoe,
perdoe.
Se há quem te amaldiçoe,
tão-somente, perdoe.
Como lidar com o preconceito? Se você já foi vítima, sabe como dói. Então, não vitimize ninguém. Não pague com a mesma moeda para não retroalimentar o ciclo. E jamais reforce o esteriótipo adotando um comportamento correspondente às expectativas que o preconceito lhe impõe. Surpreenda seus algozes. Trate-os com amor.
Moisaico - Por Hermes C.Fernandes em 11-06-2014
Peça a peça vou montando meu mosaico.
Onde o novo se mistura ao arcaico.
Numa busca pelo que faça sentido.
Algo que talvez não seja exprimido
Pelos lábios...
Algo que jamais venha ser esquecido
Pelos sábios...
Pelos tolos...
Pelos loucos...
Sonhadores
Por poetas...
Por profetas...
Visionários...
Uma imagem vejo, uma silhueta
Não a identifico, não tem etiqueta.
Falta uma peça no quebra-cabeça
Busco em toda parte antes que anoiteça
Finalmente encontro uma peça avulsa
Ela não se encaixa, a si mesmo expulsa
Algo errado...
Penso em aparar um pouco as arestas
E forçar passagem por outras frestas
Mas não adianta querer dar um jeito
Não terá no fim o desejado efeito
Algo errado...
Inadequado...
Fora de lugar...
De repente algo chama minha atenção
Uma peça que parece destoar
Nem usando toda imaginação
Dá pra encaixá-la no mesmo lugar
Como pude deixar isso acontecer?
E a harmonia almejada se perder
Vejo o formato da peça em questão
Perfeitamente se encaixa n’outro vão
E a outra que por pouco deformei
Eis o seu lugar, finalmente encontrei
Entre aspas - Um poema
Para quê tantas asneiras
Se inventaram as “aspas”?
Uns comem pelas beiras
Outros se fartam de raspas
Desqualificam o oponente
Expondo-o ao ridículo
Vale é o escândalo recente
Não importa o seu currículo
Quem nos deu procuração
Pra pensar pelos demais?
Se quiser dar sua opinião
Tem que provar ser capaz
Basta dizer o que pensa
E as pedras lhe atingirão
Porém sua recompensa
Vai além de se ter a razão
Se deles recebe sentença
de Deus vem seu galardão
Ser autêntico tem um preço
Quem se dispõe a pagar?
Se agrado ou se aborreço
Ou se vão me difamar
No meu rumo permaneço
Sei aonde vou chegar
Não me tratem pelo título
Entre aspas ou colchetes
Isso é só mais um capítulo
Falem grosso ou em falsetes
Só me nego andar em círculo
iludido entre verbetes
Por Hermes C. Fernandes em 26/06/2014
A diferença entre ser econômico e ser avarento? Simples. O avarento só é econômico com o que é dele, mas é pródigo com o que é dos outros.
Há que se ter mais coragem para dizer o que sente do que para dizer o que pensa, para expor uma emoção do que para expressar uma opinião.
Tem que ser muito homem para ter a coragem de expor seus sentimentos sem temer ser ridicularizado. Afinal de contas, homem tem que ser corajoso! Há que se ter mais coragem para dizer o que sente do que para dizer o que pensa, para expor uma emoção do que para expressar uma opinião.
Tem que ser muito homem para admitir sua fragilidade e suas limitações.
Tem que ser muito homem para conter seus desejos e paixões e direcioná-las a uma única mulher.
Tem que ser muito homem para reconhecer seus erros e pedir perdão.
Tem que ser muito homem para jamais trair uma amizade, mesmo que o amigo não lhe seja tão leal.
Tem que ser muito homem para manter sua palavra e cumprir o que prometeu, mesmo que lhe custe um grande prejuízo.
Tem que ser muito homem para correr qualquer risco a fim de fazer feliz a quem se ama.
Tem que ser muito homem para não esmorecer diante das lutas e não se render ao desânimo.
Tem que ser muito homem para manter acesa a chama da esperança mesmo em meio à mais devastadora tempestade.
Tem que ser muito homem para levar a vida com leveza e rir de si mesmo sem perder a ternura.
Tem que ser muito homem para se calar reverentemente diante de um espetáculo da natureza como um pôr-do-sol ou o canto de um passarinho.
Tem que ser muito homem para romper com os grilhões da mesmice e surpreender os que o julgavam previsível.
Tem que ser muito homem para ser firme em suas convicções, mas vulnerável em suas emoções.
Homem que é homem chama para si a responsabilidade, sem jamais deixar de ser menino, franzindo a testa ante as injustiças, mas mantendo nos olhos a pureza da ingenuidade.
