Às Vezes

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Antes, as frases eram fortes, às vezes tristes, mas carregadas de verdade e profundidade, hoje, tornaram-se raridade. Vejo uma enxurrada de palavras feitas apenas para agradar, para ecoar no vazio de mentes que pouco pensam, palavras que satisfazem apenas meia dúzia de analfabetos funcionais. A escrita que outrora feriu, que fez refletir e transformar, hoje se curva à mediocridade, à busca fácil pelo aplauso imediato. Parece que a profundidade se tornou inconveniente, e a verdade, um luxo que poucos se permitem escrever ou ler.

Posso parecer e por vezes sou, um amontoado de estilhaços, contudo, enquanto percorro a estrada tortuosa, recolho cada caco, cada fragmento que deixei cair, colando-os aos poucos até me refazer. Sei que a inteireza plena talvez não mais me pertença, mas nada do que um dia foi meu ficará pelo caminho.

Caí tantas vezes que aprendi a medir a altura do chão. Levantei com precisão, passo a passo. Hoje caminho sem medo do vão.

Sou entulho empilhado, fragmentos sem forma. Às vezes, tapo buracos, nivelando terrenos alheios. Às vezes, sou relíquia de um tempo em que servia a algo maior. Mas o outrora passou, e em mim só restam vestígios.

Nem sempre a vitória tem aplausos, às vezes, tem apenas silêncio e paz.

Às vezes, a resposta de Deus é o silêncio que te amadurece.

Às vezes, ser forte é apenas continuar respirando.

Às vezes, a vitória é apenas não ter desistido.

Eu morri em mim várias vezes até nascer em Deus.

Já desisti tantas vezes que aprendi o gosto amargo do fim, até perceber que, no fundo, eu já havia desistido até de desistir.

Às vezes Deus quebra pra consertar.

Às vezes o que parece castigo é cuidado disfarçado.

Já caí tantas vezes que aprendi a voar.

Às vezes, a cura vem disfarçada de fim.

Às vezes, o milagre é simplesmente continuar.

Já vivi o fim tantas vezes que aprendi a recomeçar sem medo, a transformar minhas quedas em lições, minhas cicatrizes em histórias, e cada despedida em impulso para seguir. Hoje, sei que todo fim carrega em si a semente de um novo começo e meu coração, embora marcado, continua a se lançar na vida com coragem.

Às vezes, a cura está em aceitar que o que doeu também ensinou.

Às vezes o recomeço é só continuar, um passo, uma prece, um fôlego.

Deus me mostrou que o que parece perda é, muitas vezes, proteção. Perdas aparentes são cortinas que nos protegem do que não nos pertence, a fé revela o que era escudo.

Às vezes, a alma cansada só quer existir sem ser cobrada. Existir sem cobrança é recuperar o direito de ser inteiro antes da demanda alheia.