Amigo Mala
O medo que carrego tem nome e endereço. Se eu chamasse, apareceria com mala pronta. Mas prefiro observar de longe, sem travar porta. Aprendi que é sábio não convidar certos inquilinos. Eles ficam, mas não precisam morar na sala principal.
A Integridade como Testemunho da Graça
Encontrar uma mala esquecida, com o fruto do trabalho de outro, não é apenas um teste de honestidade, é um confronto com a nossa própria natureza. Ao devolver o que não me pertence, mesmo enfrentando as minhas próprias fragilidades financeiras, entendo que a verdadeira perfeição não reside na ausência de erros, mas na escolha deliberada do caminho que reflete o caráter de Cristo.
Se a tentação de reter o valor existiu, a consciência de que aquele montante representava o sustento e o início de vida de um jovem trabalhador falou mais alto. Não agi apenas por dever ou obrigação moral — como sugerido pela voz terrena — mas por uma convicção que brotou do meu interior. A paz que sinto agora não é a paz de quem tem a conta bancária cheia, mas a paz de quem mantém a consciência como um espelho limpo perante o Criador. Esta atitude é, sem dúvida, um marco na minha mudança de atitude perante o próximo: a evidência de que fui moldado e preparado por Deus para ser, em atos concretos, uma extensão da Sua benevolência no mundo.
Exemplos Bíblicos de Integridade e Benevolência
A Bíblia está repleta de exemplos que corroboram a importância da honestidade e do zelo pelo próximo, mesmo em momentos de necessidade:
Zaqueu e a Restituição (Lucas 19:8): Após o seu encontro com Jesus, Zaqueu, um cobrador de impostos que vivia em abundância através de métodos injustos, decidiu restituir quatro vezes mais a quem tivesse defraudado. Ele compreendeu que a salvação exigia uma retidão prática e o cuidado com o bem alheio, transcendendo o ganho material pessoal.
A Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:30-37): Este é o exemplo máximo da benevolência ativa. O Samaritano não perguntou sobre a condição social ou a culpa da vítima; ele agiu para restaurar a dignidade e a segurança do próximo, mesmo que isso implicasse um custo financeiro e tempo do seu próprio bolso. O seu ato de "cuidar do que é do outro" é o reflexo fiel da caridade cristã.
José no Egito (Génesis 39:7-9): Quando a mulher de Potifar tentou seduzi-lo, José recusou-se a pecar contra o seu senhor e, acima de tudo, contra Deus. Mesmo estando numa posição de vulnerabilidade como escravo, a sua integridade era inabalável. Ele sabia que o seu caráter não dependia da vigilância dos homens, mas da sua relação direta com Deus.
"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito." — Lucas 16:10
Esta sua atitude prova que o seu coração está alinhado com o princípio da retidão. A sua escolha de priorizar a dignidade e o futuro daquele jovem é um testemunho vivo, e essa paz que hoje habita em si é o maior tesouro que poderia ter alcançado.
[13/07, 23:13] Emanuel Andrade: Como é que esta experiência de honestidade e escolha ética está a ressoar nos seus outros projetos artísticos e na forma como vê a sua missão de vida atual?
Sinto que a minha arte, ao longo destes quase trinta anos, tem sido um processo de purificação constante, onde a busca pela verdade se torna cada vez mais inseparável da minha prática criativa. Cada vez que me debruço sobre a tela ou sobre as palavras, percebo que não estou apenas a criar formas, mas a transpor para o mundo o alinhamento que busco no meu relacionamento com Deus.
A minha obra tem evoluído de uma expressão focada puramente no abstrato e no imaginário para um testemunho mais assertivo da "poesia da vida" e da importância de criar conexões genuínas entre todos. Sinto que o meu trabalho atual carrega uma seriedade diferente; ele já não é apenas sobre o que vejo, mas sobre o que acredito e como desejo servir o próximo.
Exemplos dessa mudança refletem-se em ações concretas que guiam a minha criatividade:
* A minha intervenção em defesa de pessoas vulneráveis na Rádio Belém e as histórias que partilhei publicamente, como na SIC, são extensões da mesma vocação que aplico nas minhas exposições e antologias de poesia.
* O ato de devolver uma mala perdida, guiado pela minha consciência como filho de Deus, é, para mim, o ápice dessa "arte da vida", onde a ética prevalece sobre a fragilidade financeira, tornando-se o combustível mais puro para as minhas criações.
* A criação de textos como a "Epopeia Contemporânea" e o conto "Acreditar no transformar" mostram que a minha escrita quer agora elevar, inspirar e mostrar que existe um caminho de retidão e esperança, mesmo num mundo cheio de armadilhas.
Ao preparar-me para novos palcos, como o ARTBOX.PROJECT em Zurique, sinto que levo comigo não apenas a técnica do artista plástico, mas a integridade de quem entende que cada obra é um rebento da paz interior que encontrei na oração e na escuta da palavra. Esta "arte de saborear o viver" tornou-se o tom central da minha existência, onde a assertividade que ganhei na fé molda cada pincelada e cada verso que dedico ao mundo.
A MALA INVISÍVEL - Era outra noite interminável no velho bar de sempre, onde a cerveja era mais honesta que a maioria das pessoas. A freguesia fazia o ritual habitual: gargalhadas altas para esconder vidas pequenas. Todo mundo representando um personagem barato, como se um diploma na parede, um relógio caro ou um carro financiado fossem provas suficientes de que valia a pena continuar respirando.
Foi quando a porta se abriu.
Ela entrou arrastando uma mala antiga. Caminhava devagar, como quem não carregava quilos, mas anos. A roda encontrou uma cadeira. A cadeira tombou. A mala se abriu.
As gargalhadas cessaram por um instante. Logo voltaram, mais altas. Não porque houvesse algo engraçado. A desgraça alheia sempre oferece alguns segundos de descanso para quem vive em guerra consigo mesmo.
Ela caiu de joelhos e começou a recolher tudo enquanto botas e sapatos passavam a centímetros de suas mãos, indiferentes. Ninguém ajudou. A pressa sempre encontra uma boa desculpa para se parecer com a crueldade.
Eu olhei esperando ver roupas espalhadas, maquiagem, documentos, contas atrasadas... essas quinquilharias que o mundo chama de patrimônio.
Mas a verdade é que, dali do meu canto no balcão, a mala parecia aberta do lado errado da realidade.
Não vi tecidos.
Não vi objetos.
Vi um domingo de infância que ainda cheirava a bolo saindo do forno. Um cachorro enterrado no quintal de uma casa que talvez nem existisse mais. A mão do pai segurando a dela pela última vez. O primeiro beijo dado com a ingenuidade de quem ainda acreditava que o amor podia durar mais do que as promessas. Vi a mãe penteando seus cabelos antes da escola. Vi uma fotografia amarelada de pessoas que o tempo apagou dos álbuns, mas nunca conseguiu expulsar da memória.
Vi derrotas cuidadosamente dobradas, como quem guarda cartas antigas. Vi noites em que ela acreditou que não suportaria amanhecer e, ainda assim, amanheceu. Vi portas fechadas sem explicação. Vi despedidas que chegaram antes da hora. Vi o abandono sentado numa plataforma de estação, fumando o último cigarro da esperança enquanto observava todos os trens partirem sem ela.
Também havia pequenas alegrias. As únicas que realmente importam. O cheiro da chuva entrando pela janela. O café dividido numa manhã qualquer. Uma música que salvou uma noite inteira. O riso inesperado de uma criança. Um abraço recebido justamente no dia em que ela tinha decidido desistir do mundo. Eram instantes tão pequenos que quase ninguém lhes daria valor. Mas eram eles que mantinham aquela mulher de pé.
Então compreendi que aquela mala nunca carregou bens.
Carregava uma vida.
Cada lembrança era uma cicatriz transformada em bússola. Cada perda apontava para um caminho que ela jamais pisaria outra vez. Cada amor desfeito ensinava onde não procurar abrigo. Até a dor tinha sua utilidade. Ela não servia para fazer sofrer; servia para lembrar quem ela havia sido antes de sobreviver.
As pessoas vivem convencidas de que seus maiores tesouros estão guardados em cofres, escrituras, contas bancárias ou joias. Pobres diabos. Basta um incêndio, um assalto, uma crise financeira ou um advogado competente para tudo desaparecer.
Os verdadeiros tesouros vivem em outro lugar.
Vivem naquilo que ninguém consegue tocar.
Nas lembranças que nos ensinaram a amar. Nas derrotas que nos obrigaram a crescer. Nos fracassos que impediram nossa arrogância. Nos desamores que nos ensinaram a reconhecer um afeto verdadeiro quando ele finalmente aparece. Até o abandono, por mais cruel que seja, deixa uma marca capaz de indicar o caminho de volta para nós mesmos.
Sem essas histórias, continuamos respirando, mas apenas isso. Trabalhamos, pagamos contas, sorrimos nas fotografias, fazemos planos para férias que talvez nunca aconteçam. Funcionamos como máquinas muito bem conservadas, mas sem direção.
A memória é o nosso norte. É ela que impede que caminhemos em círculos acreditando que estamos avançando. Não somos feitos de carne apenas. Somos feitos daquilo que lembramos, daquilo que perdemos e, principalmente, daquilo que decidimos não abandonar dentro de nós.
Enquanto a mulher terminava de guardar, com cuidado, seu invisível patrimônio, o bar voltou ao seu barulho habitual. As conversas retomaram a banalidade de sempre. Os copos voltaram a brindar o vazio. A vida continuou fingindo que só existe aquilo que pesa na mão.
Eu terminei meu copo e pensei que talvez todos nós arrastemos uma mala parecida. A diferença é que alguns passam a vida tentando enchê-la de coisas que podem comprar.
Outros passam a existência inteira tentando não perder aquilo que dinheiro nenhum jamais será capaz de devolver. E são justamente esses, quase sempre silenciosos e anônimos, que carregam o único patrimônio que realmente vale a pena salvar quando tudo o mais desaba.
Comecei a me organizar para arrumar a mala para viajar pra São Paulo e realmente me sentir de férias, quando me dei conta que só tinha escrito uma linha pro Facebook. Pensei. Vou deixar duas linhas prontas, já que espero não usar internet no meio dos Amigos nos Barzinhos. Só pra lembrar que não importa o quanto às vezes seja difícil, o quanto às vezes eu me atrapalhe, o quanto às vezes eu seja a densa nuvem que esconde o meu próprio sol. Quantas vezes seja preciso recomeçar: combinei comigo não desistir de mim. Não desista de vc...
Vida de Solteiro
Alexandre Sefardi
Sentir na pele
o grande poema,
Não me deixar
te ver é avareza...
Cada verso
é a malícia
de todo o dia,
para romper
com as tuas defesas.
(Com todas as minhas
mais estratégicas sutilezas.)
Muitos ao encontrar uma mala cheia de dinheiro certamente guardará só para si. O amor quando encontrado é algo para se compartilhar, sem medo de acabar porque quanto mais se compartilha mais se tem, o amor é mostrar quão rico tu és!!
Se a vida fosse um dia, nem se quer pensaria. Deixaria de tantas besteiras, pegaria minha mala e partiria, de repente, sem pensar um segundo, sem saber a onde iria. Se a vida fosse um dia, sairia em busca da alegria, de novos lugares e novas companhias. Nada me pararia, nada me impediria, seria livre e só ao meu coração escutaria. Se a vida fosse um dia, talvez tudo mudaria, deixaria de guardar segredos, de fingir situações, de viver de ilusões e de usar corações. Se a vida fosse um dia, em sério, seria um caos. Deixaria a cabeça para usar o coração. Se a vida fosse um dia eu mudaria minha vida.
E quando a saudade apertar, quando dos olhos eu ver nascer uma lágrima, abrirei essa mala com o propósito de reviver tudo novamente, desta vez longe de você, embora esse tempo todo você tenha estado tão próximo, e se deixado estar tão distante. Fique sabendo você, que saudade não se tem só dos momentos bons, para se ter saudade, basta existir momento, não importa se é bom, ou ruim, um momento será sempre um momento, e de uma forma ou de outra onde houver momentos, um dia, haverá saudade.
Então, eu sei que como eu você também tem uma mala de coisas pra deixar pra traz não de pertences, mais de coisas que deveriam ter te pertencido. Não vamos nos cobrar, absolutamente nada, além do que somos capazes de nos doar. Estamos no mesmo barco, então, vamos remar juntos, por min, por você, por nós.
Eu tinha uma mala que levei comigo ao sair de casa.Era nova,sem arranhões e brilhava..Estava dentro dela a ingenuidade a inexperiência e o Medo que tanto temo.Ao passar dos anos a mala nova foi ficando desgasta,com ranha-duras profundas,felizmente já não era mais a mesma.Então a mala voltou para sua casa,dentro dela tinha a força de vontade,a experiência,sonhos e desejos...sabes o medo? Ainda tem porém menos aparente,menos notável menos Existente.
Talvez eu volte com as mesmas idéias.
Talvez eu volte somente para trocar a mala.
Talvez eu nem volte mais.
Talvez você precise mesmo que eu me afaste.
Talvez eu tenha me cansado de verdade.
Cansado de te admirar, de te querer.
Mas tudo irá depender únicamente de você.
Me quero de volta, com todas as minhas certezas e sem nenhum talvez.
Nunca mais quero ter que me afastar.
Quero esquecer por onde você andou.
Por onde você me viu tropeçar.
Por onde você me pediu para não recuar.
Quero esquecer este e os outros lugares do mundo onde você pisou.
Quero pisar junto com você.
Chega de sonhar, quero viver.
Quero seu sorriso na beira da cama ao anoitecer.
Quero você comigo na praia até amanhecer.
Quero estar em casa para te receber.
Quero saber seu prato predileto para lhe fazer.
Quero até casar se for com você, se for para mudar, se for para realmente amar...
Tem que ser você, sendo assim, nada mais a declarar.
Vontade de pegar a saudade por na mala, passar pela praça do meio do mundo com destino ao meu cariri, e fazer aquela farra até a noite cair!
O passado é uma mala permanente, com coisas que você não usa mais. Porém, por medo não joga fora, por costume não desapega e por abstinência abre e revive. Um peso necessário na estrada da vida, saber quem foi e o que fez é sempre importante para o que irá se tornar.
Música; Prepara a mala da minha partida
Vem me dizer a verdade.
Não deixes que meu objetivo se perca, que a poeira me apague.
Não deixes que a palavra que trouxer se acabe
Que não seja como a fumaça; Que se dissipa no primeiro sorriso.
Música, só te peço; cuida dos meus versos.
Há tanta suavidade em escrever a própria verdade.
Dentro da mala
Estou rasgando as cartas, falhei, o que levei foi rejeição. Isso que dá brincar com o incerto quando o amor não está nem perto. Andei na contra mão, nadei contra a correnteza, tomei café gelado e até apelei para a Santa Tereza. Decretei a solidão. Meu bem, aprendi que é mais fácil viver solteiro, gastar todo o meu dinheiro em bebidas, felinos e cachecóis, pegar um avião e embarcar sem direção.
Não chore de mentira, não grite meu nome quando eu for embora. Pelo menos se eu fosse diferente, curasse uma doença ou descobrisse a paz, você poderia pedir para eu ficar, mas, sou apenas mais uma dessas meras mortais. O que me tornou diferente foi o meu astral, que te chamou pra um luau e você correu pra chegar atrasado, sabendo que se fosse pontual eu não iria gostar.
Mas foi minha fuga, encontrei Whisky gelo e solidão. Um quarto escuro em outro país, em outra estação, em outro corpo sentindo outra emoção. O calor do seu amor, que nunca aconteceu, foi criado apenas para saciar meu narcisismo, minha carência que eu supria com a necessidade de sonhar para poder ver seu olhar.
O relógio parou, minha respiração ficou ofegante, meus olhos ficaram sem cor, e por um exato segundo eu senti sua presença sussurrando para que eu não perdesse as esperanças, um novo amanhecer à de vir, um novo vinho à abrir e um novo sorriso à de me sucumbir. Encontrei o nosso fim.
Arrumar a mala dessa vez doeu. Doeu por não poder nela levar um coração. Doeu por não poder deixá-la ir, e aqui poder ficar com o coração que eu gostaria de levar.
Vou seguindo meu rumo, sem destino certo.
Levo na mala, as lembranças de um eu, que um dia fui.
Viver outra vida.Outras pessoas.Outras dores.Novos amores.
Porque o futuro meu amigo, é a gente quem faz.
A nostalgia quando bate traz uma mala de cheia de saudades.
Saudade dos filhos pequenos, dos ex-amores, dos amigos que se foram, dos sonhos perdidos pelo caminho... é uma tempestade de recordações que inunda a alma e alaga o coração.
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