33 anos

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⁠"O cansaço chega silencioso e se curva, sob o peso dos anos. Mas é no silêncio desse cansaço que a alma do guerreiro, finalmente, aprende a escutar o tempo."

*5 Anos do Ravi*

Cinco voltas o sol já deu
Desde que o Ravi apareceu
Cinco vezes mais travessura
Cinco vezes mais ternura

Tem energia de cometa
Sorriso que desmonta dieta
Corre, pula, faz bagunça
E a casa inteira balança

Que tenha bolo, brigadeiro
Presente, abraço verdadeiro
E que o fim da festa seja só
O começo de mais um sonho bom

Parabéns pro Ravi!
Que a vida seja quintal grande
Pra caber toda a alegria que é só dele.
(Saul Beleza)

*"Muitos e muitos anos"*
Quando a pessoa esteve tanto tempo na sua vida
o corpo até esquece que ela não tá mais aqui.
A mão procura no lugar errado.
A música toca e o peito responde antes da cabeça.
A cidade inteira vira lembrança.

E o pior é que não é só saudade de quem a pessoa era.
É saudade de quem você era com ela.
De todos os anos que viraram rotina, risada, briga boba, silêncio confortável.

Dói porque foi longo.
Dói porque foi raiz.
E raiz quando arranca, leva um pedaço da terra junto.
(Saul Beleza)

Como nós seríamos nos anos 80...
Eu de jaqueta jeans,
cabelos longos e bagunçado,
te esperando no orelhão com uma ficha no bolso.
Você de vestido florido,
fita no cabelo,
chegando atrasada só pra me ver ansioso.
A gente dançando coladinho ao som de rádio FM,
sem celular,
sem pressa,
sem medo do amanhã.
Eu te levaria pra casa de Brasília bege placa IT 6711,
com uma fita cassete gravada só com nossas músicas de amor, a gente se beijando em casa sinal fechado,
e te dando um garra no portão
como se o mundo fosse acabar ali.

*- Saul Beleza*

"Estamos passando por uma experiência espiritual que leva em média 100 anos para aprender como chegar ao céu, e há quem não consiga."

Depois de quase quatro anos longe das redes sociais, percebi o quanto existe paz em ser "low profile".
Aprendi a proteger minha mente, meu coração e a escolher melhor aquilo e a quem dou acesso à minha vida. Mas, ao voltar, neste ano, sinto como se estivesse reencontrando sensações e sentimentos que, durante muito tempo, ficaram para trás.
Essa experiência me fez perceber o quanto o ambiente em que estamos, e pessoas que convivemos podem influenciar a nossa paz.
Hoje, entendo que não preciso absorver tudo, acompanhar tudo ou estar próxima de pessoas que não compartilham dos mesmos valores que eu. Me afastar também é uma forma de cuidar de mim.
Gosto da tranquilidade de pensar por mim mesma, de estar perto de quem amo e de preservar aquilo em que acredito.Nem tudo merece acesso à minha vida, e nem tudo precisa ocupar espaço dentro de mim.
E, se voltar me fez perceber o quanto eu estava em paz longe de tudo isso, talvez seja hora de priorizar novamente aquilo que faz bem à minha alma.

O Eco dos Anos


No limiar da meia-noite, o calendário curva-se novamente,
dissolvendo um ano em fumaça fina que escapa entre os dedos.
Não é o tempo que foge; é o eco que persiste.
Gestos repetidos como versos de poema gasto,
pensamentos sulcados na alma,
conversas nascidas velhas, pesadas pelo não dito.


Somos espelhos rachados.
Nelas reflete o mesmo espírito:
felicidade oca em dias cinzentos,
palavra de dicionário que evade a pele.
Buscamos reflexos polidos, amores distantes,
palavras que enchem o silêncio sem tocá-lo.


Num descuido ou graça súbita,
abrimos a porta da casa interior.
Ali, o caos negado: silêncios empilhados como móveis quebrados,
sorrisos mofados no escuro,
danças paradas no meio do giro.


As máscaras fundiram-se à carne.
Não sabemos onde acaba a encenação
e começa o real.
Avarentos com o coração, sabotamo-lo
por uma longevidade ilusória,
adiando o encontro essencial
como se a morte negociasse prazos.


Vivemos à espera — do fim do dia, do brinde vazio,
da distração que cala a voz insistente:
a vida não avisa o fim.


Quando a poeira baixa,
o novo ciclo surge não como promessa,
mas pergunta austera:
será possível, num lampejo lúcido,
acolher os cômodos vazios da alma?


Nesta virada, dispense jantares fartos e sorrisos falsos.
Chame-me apenas — para saber se estou bem.
Chame para a reciprocidade nua,
para aprender, devagar, empatia, generosidade, resiliência —
e as palavras que brotam no caminho, sem performance.


Voltemos ao templo que somos:
casa de sentimentos em pedra antiga e luz trêmula.
Com mãos lentas, sem julgamento,
varramos o ressentimento cristalizado,
lavamos janelas embaçadas,
deixamos o vento renovar.


Que nossas verdades ecoem no outro,
vulnerabilidade vire ponte de mãos estendidas.
Não reerga o edifício todo.
Entreabra uma janela,
deixe a luz cortar a poeira,
lembre: dançar é possível
entre escombros, peito partido,
eco persistente.


Que o templo seja morada, não prisão.
Ao limpá-lo, na poeira e luz tímida,
encontremos o espaço onde a reciprocidade inspire


Que os anos traga não felicidade premiada,
mas honestidade à criatura teimosa
que, apesar de tudo, escolhe estar...


Ysrael Soler

Estou me ausentando,mas sempre irei te amar, independente do passar dos anos vou continuar te amando.
Você sempre esteve aqui no meu coração e ele não quer te deixar não.
Esperarei o eclipse para alegrar meu coração que te esperar com muita emoção.
Mil beijus meu anjo, meu eterno amor!

⁠Se há anos você me julga e me condena, há mil anos eu já superara a mediocridade do seu tribunal insano.

Durante anos, Bebelle exerceu sobre mim a forma mais refinada da crueldade: aquela que não fere pela ausência de ternura, mas pela perfeição com que a simula. Suas palavras eram de uma beleza quase irrefutável; nelas, encontrei abrigo para esperanças que confundi com presságios, promessas que jamais haviam sido feitas e sentimentos cuja existência eu deduzia da delicadeza com que eram negados pela realidade. Ela sabia dizer o indizível sem necessariamente senti-lo, como se conhecesse a gramática do amor, mas jamais tivesse habitado sua língua.


Havia em sua gentileza algo de metafisicamente perturbador: a capacidade de oferecer ao outro aquilo que, em si, talvez nunca tivesse existido. Acariciava minhas feridas sem tocá-las verdadeiramente, concedia repouso à minha angústia sem assumir qualquer responsabilidade por ela e iluminava, com palavras, os lugares que sua ausência emocional mantinha na escuridão. Eu recebia cada gesto como evidência; ela talvez os oferecesse apenas como possibilidade. Entre essas duas interpretações, ergueu-se lentamente o abismo no qual tantas vezes confundimos o que desejamos que alguém seja com aquilo que essa pessoa efetivamente é.


Talvez não exista engano mais profundamente existencial do que acreditar que a beleza de uma palavra constitui prova da verdade de um sentimento. A linguagem pode construir palácios onde a experiência jamais ergueu sequer uma parede. Podemos ser amparados por frases que não encontram correspondência em nenhuma consciência, amados pela nossa própria capacidade de atribuir significado ao que o outro apenas pronuncia. E assim nos tornamos, simultaneamente, habitantes e arquitetos de uma realidade que julgávamos compartilhada, sem perceber que talvez fôssemos seus únicos moradores.


O mais doloroso, contudo, não foi descobrir que Bebelle talvez não sentisse aquilo que suas palavras me faziam acreditar. Foi compreender quanto de mim havia participado dessa construção, quanto da minha própria necessidade de sentido havia transformado delicadeza em destino e possibilidade em verdade. Ela podia ter me oferecido a linguagem; fui eu quem, na solidão da esperança, lhe atribuiu a eternidade.


Há abandonos que não começam quando alguém parte, mas quando percebemos que nunca estivemos verdadeiramente acompanhados. A pessoa permanece, a voz continua doce, os gestos conservam sua aparente ternura, mas alguma coisa essencial se revela irremediavelmente ausente. E então o passado inteiro se submete a um julgamento silencioso: cada palavra retorna despojada do significado que lhe emprestamos, cada lembrança perde a inocência, e aquilo que julgávamos ter vivido passa a existir sob a suspeita de ter sido, em parte, uma obra da nossa própria consciência.


Talvez seja essa a tragédia: não perder apenas alguém, mas perder também a realidade na qual acreditávamos ter encontrado essa pessoa. Porque certas despedidas não nos retiram somente um amor; retiram-nos a confiança naquilo que julgávamos saber sobre o amor, sobre os outros e sobre a nossa própria capacidade de reconhecer a verdade. E, quando finalmente compreendemos, já não sabemos ao certo de quem nos despedimos: de Bebelle, da esperança que depositamos nela ou daquele eu que, durante tantos anos, precisou acreditar para continuar existindo dentro da própria ilusão.

Durante anos, Bebelle foi de uma gentileza quase cruel. Disse-me palavras tão belas que acreditei nelas. Ofereceu-me a delicadeza de quem sabe acariciar uma ferida sem tocá-la, pronunciou tudo aquilo que meu coração desejava ouvir, mas que o dela jamais sentiu. Há uma forma particularmente silenciosa de crueldade em ser amado com palavras por alguém que, em segredo, já nos havia abandonado.

Flores em vida

Recentemente, fui ao cemitério limpar o túmulo da minha mãe. Há 15 anos não a vejo. Ela lutou durante dois anos contra um câncer de pâncreas, e fiz tudo o que estava ao meu alcance para cuidar dela. Dei o meu melhor, embora, às vezes, ainda me pergunte se poderia ter feito mais.

Enquanto estava ali, observei os túmulos ao redor. Havia muitas flores artificiais, lápides com mensagens de amor, promessas de nunca esquecer e declarações de uma saudade que permanece.

E comecei a pensar: será que todas aquelas pessoas receberam flores enquanto estavam vivas? Será que ouviram o quanto eram importantes? Será que foram valorizadas enquanto ainda podiam sentir um abraço, ouvir uma palavra de carinho ou desfrutar da companhia de quem as amava?

Esse pensamento me levou a outra observação.

Nas redes sociais, vejo pessoas compartilhando fotografias, conquistas e momentos da própria vida. Muitas vezes, quase ninguém comenta. Mas, quando alguém morre, surgem centenas de mensagens. São lembranças, histórias, elogios e declarações sobre o quanto aquela pessoa era especial e a saudade que deixará.

E eu me pergunto: por que tantas dessas palavras ficam guardadas até que a pessoa já não possa ouvi-las?

Não penso que as homenagens depois da morte sejam menos sinceras. A saudade é real, e cada pessoa encontra sua maneira de expressá-la. Também sei que muitas flores deixadas sobre um túmulo representam histórias de amor, presença e cuidado durante a vida.

Mas essa experiência me fez pensar sobre aquilo que costumamos adiar.

Às vezes, temos facilidade para reconhecer as qualidades de alguém depois que essa pessoa parte, mas dificuldade para expressar nossa admiração enquanto ela está presente.

Talvez devêssemos elogiar mais, agradecer mais, visitar mais, ouvir com mais atenção e demonstrar nosso carinho sem esperar uma ocasião especial.

Porque a vida acontece agora, nas relações que ainda podemos cultivar e nas palavras que ainda podem ser ouvidas.

As flores sobre os túmulos podem representar uma saudade que nunca desaparece. Mas as flores oferecidas em vida têm algo especial: podem ser recebidas por quem amamos.

Não é errado levar flores a quem partiu. Mas que não nos falte a sensibilidade de oferecê-las também a quem ainda está aqui. Que possamos reconhecer o valor das pessoas enquanto ainda podemos compartilhar a vida com elas.

Afinal, a vida continua, então não se rendam. Sou um exemplo vivo do sofrimento: passei dois anos sobrevivendo à beira do lago, um lugar que não é nada atraente. Chega a se sentir até o odor do enxofre. São mais de 730 dias e noites em claro, praticamente horas sem dormir, e, mesmo lá na beira do lago, a sede parece interminável. Portanto, valorizem. E uma das reflexões que mais me fez ponderar e merece nosso questionamento é: mas e então, a vida é única!? E SIM, a vida é única, não temos ou teremos uma segunda oportunidade. Assim, o que fica é o legado: morreremos como covardes ou lutaremos para sobreviver como grandes combatentes? E eu retornei, da mesma forma que voltou um CATEANO do BOPE-RJ, CATEANO 41 [Leandro Bezerra]. Um exemplo de resistência e superação. Enfim, a batalha ainda não terminou...

Não envelhecemos apenas porque os anos se acumulam, mas porque cada experiência modifica silenciosamente as condições pelas quais interpretamos todas as experiências seguintes.

"Não completei apenas anos. Completei travessias, sobrevivi tempestades e transformei cada cicatriz em parte da minha história."

Três anos de fidelidade e eles nem te ofereceram um limite simbólico pra um café parcelado em três vezes. É quase romântico o quanto os bancos são frios. Você movimenta dinheiro, eles movimentam desculpas.


Aí um pelo menos finge menos. É aquele tipo de banco que te trata como adulto: tudo digital, sem drama, sem gerente te ligando pra “conversar sobre oportunidades”. E se quiser sair, eles nem choram, só fecham o app e seguem a vida. Quase civilizado.


E o outro é tipo aquele tio formal que ainda usa gravata pra ir ao mercado. Tem estrutura, tradição, um pé no século passado… mas funciona. Só que cada clique no app parece um ritual burocrático. Se você tem paciência pra lidar com ele, até dá pra viver bem.. Mas não espere agilidade, eles gostam de carimbo emocional.
Confiável é. Engessado, mas confiável. Não vai sumir com seu dinheiro do nada.. só vai demorar três telas, duas senhas e um juramento de fidelidade pra te deixar movimentar. Eles são o tipo de instituição que prefere morrer de tédio a cometer um erro contábil.

Palavra não é enfeite. Palavra é semente. Algumas dormem anos. Outras esperam a pessoa virar quem aguenta viver o que disse.
Eu aguentei..
E o mundo, meio contrariado, obedeceu.

Eu tive erro há mais de 30 anos, tive acertos menos 15 anos, tive muita sorte por ter família e amigos próximo a mim, e sou grato a Deus por tudo.
Muitas vezes você deverá dar dois ou três passos pra trás, para andar cinquenta pra frente.
Seu porto seguro e a família, que faz toda a diferença quando precisamos recalcular a rota ou celebrar as vitórias.

Ricardo Colares Viga

Carta III — A Injustiça dos Homens: Crítica moral, política e social


Sete anos já se passaram desde que o inferno da terra abriu-me as portas para este calabouço. Ainda é uma sorte possuir alguma porção de fôlego para respirar. Afinal, o problema nunca foram as leis, mas aqueles que as criam e os fins para os quais as aplicam. Cada gota de oxigénio que inalo está infestada de dor, angústia, fome e sede. Enquanto os reis da terra convocam reuniões, os lares transformam-se em cemitérios: cada quarto, uma campa; cada cama, um caixão. E, ao passo que os lordes repousam sobre o conforto da riqueza, as mãos pobres de quem trabalha repousam na indigência.


Então disseram os opressores:


— Enquanto houver um que governe, haverá sempre um que sirva.
— Enquanto houver um que dite as leis, haverá quem as obedeça.
— Enquanto houver um que mande, haverá quem cumpra.


Esta é a lei dos antepassados e é hereditária a todas as gerações. Não há quem mude essa lógica: o que já está estabelecido, ninguém altera.


Então o povo gritava:


— Longa vida aos que nos governam; que os vossos dias se multipliquem na terra!
— Que a riqueza, o luxo e a abundância nunca vos faltem!
— Viva aos reis da terra, pois não há entre nós quem se compare a vós!
— Que os antepassados vos protejam das desgraças deste mundo!


Cada um bajulava da melhor forma, na esperança de ganhar a atenção e o reconhecimento deles. Elogiavam, veneravam e presenteavam aqueles que os oprimiam, intimidavam e matavam.


Ainda assim se curvavam em adoração e exclamavam:


— Viva! Viva! Viva aos reis da terra!
— Viva! Viva! Viva aos que nos governam!
— Viva! Viva! Viva aos que nos orientam!


Os poderosos, então, criaram leis que os protegessem daqueles que mais necessitavam de proteção, para que permanecessem aquecidos no trono do poder, enquanto o povo continuava cego rumo à decadência. O cheiro sanguinolento de suas atrocidades chegava até aqui embaixo. Eu ouvia o choro dos inocentes subjugados ao martírio. Sentia o grito de socorro de mulheres violentadas pelos lordes. Sentia o desespero dos maridos assistindo ao sofrimento de suas esposas.


Nada me vinha à mente senão o ódio ao escrever:


Morram, miseráveis. Vós que governais sobre a penúria dos mais vulneráveis; vós que julgais o futuro de uma criança ainda no ventre da mãe; vós, poderosos que proclamais hipocrisia diante do sangue derramado por milhares de mártires. Vós que vestis túnicas de ouro, sapatos de prata, mitras de diamantes, cintos de escarlata e colares de esmeralda: saciai o gosto da opulência enquanto vos resta tempo. Comei e bebei enquanto o galo ainda não cantou. Dançai e alegrai-vos das vossas atrocidades.


Pois a vingança está às portas daquele que bate. O meu espírito perseguirá os injustos e não cessará a busca até que todos sejam consumidos. Morram, malditos. Arrepender-se-ão de não me terem enterrado. Eis que venho sobre vós com uma espada de dois gumes para completar a minha ira e derramar sobre vós a minha justiça. Vós que comeis sobre a desgraça dos pobres tereis as entranhas cheias de dor e angústia. E vós, ó plebeus, por serdes cúmplices dos opressores provareis também a desolação de tudo aquilo que construístes com músculos abatidos. Preferistes aplaudir aqueles que vos oprimem e condenastes aqueles que vos defendiam.

Quando a malevolência gritou, silenciastes a benevolência.


Que o castigo seja convosco. Que o tormento, a dor e a desgraça vos acompanhem até a sepultura.


Morram, corruptos. Trocais a justiça por moedas e jade. Deixastes que o brilho funesto da riqueza e o prazer transitório da concupiscência vos corrompessem. Escrevo-vos com o mesmo sofrimento que me fizeram suportar, com o mesmo tédio com que me lançaram nas sombras destas paredes escuras, com a mesma dor em cada dedo que perdi. Naquele momento, a sede de vingança, a ânsia pela justiça e o cansaço de continuar a escrever dilaceravam-se dentro de mim.


Afinal, quando a injustiça canta, os tolos dançam.


Quando a justiça fala, a sociedade censura.


Mas quando a verdade retalia, não há quem se desvie da sua cólera.


A ignorância torna os homens cegos à verdade; a ganância envolve-os com o manto da cobiça; o egoísmo conduz ao assassinato da guerra. E é aqui que nasce a injustiça dos homens: todos querem reinar sobre os outros; todos querem ser distintos dos comuns; todos querem ser senhores e receber o serviço dos servos. É aqui que nasce a indiferença dos homens: na criação de castas e estratos para evitar o semelhante — nobres e humildes, fracos e poderosos. Diz-se que a maioria vence sempre. Mas a lei pertence aos poderosos; o mundo é dos poderosos, daqueles que detêm a força.


Por isso, não importa a quantidade: diante da minoria rica e soberba, nem mesmo Deus pôde impedir que nos pisassem.

Carta IV — A Solidão: Reflexão sobre a solidão e o tempo


Mais oito anos haviam se passado, e as rugas no meu rosto tornavam-se evidentes; os meus ossos perdiam cada vez mais a força; o tempo revelava-me o cansaço. A solidão sufocava-me como espinhos na garganta; os meus lábios secaram como um rio sem água; a sede matava-me aos poucos.


Já não havia urina no meu organismo. Tentei beber as minhas próprias lágrimas, mas também secaram. Os ratos já não me alimentavam; agora alimentavam-se da minha carne. Meus cabelos caíam sozinhos como folhas de uma árvore, e a minha pele amolecia como mingau. Os meus olhos enchiam-se de fadiga; sofria de insónia. O corpo produziu bactérias que me corroíam por dentro.
Quis suicidar-me, mas não encontrava forças para fazê-lo. Já não restou dedo algum nas minhas mãos: devorei-os todos para terminar de vos escrever esta carta.


O fundo das paredes oferecia um profundo silêncio. Ainda assim, era meu desejo voltar a ouvir, só mais uma vez, o grito alegre das crianças na aldeia de Kandembe; o canto dos pássaros na floresta de Mayombe; o canto do galo nas madrugadas; o sorriso das senhoras quitandeiras no mercado de Kalukembe.


Infelizmente não pude concretizar esse desejo. As correntes no meu pescoço e as grades que me prendem não me permitem realizá-lo. Aliás, já não me resta muito tempo. A solidão tornou-se um vício que se alimentava da minha penúria e dos traumas da minha lembrança. Quanto mais próximo dela eu me encontrava, mais perto me sentia da morte.


Talvez…


Será que devo arrepender-me das minhas escolhas?
Será que fui ingénuo ao preservar os meus ideais?
Será este o preço a pagar por ser diferente deles?


De que vale estar livre do calabouço, se lá fora continuarei a ser escravo?
De que adianta recuperar a voz, se lá fora me haverão de retirá-la?
De que vale livrar-me destas correntes, se lá fora existirão outras algemas à minha espera?


Aqui, ao menos, ainda posso falar, pensar alto e questionar.

E lá fora?


Não me haverão de censurar por pensar?
Não me haverão de açoitar por falar?
Não me irão condenar por contestar?
Não me irão matar por questionar?


A dúvida, o ceticismo e o remorso ganharam espaço na minha mente e no meu coração.


Tentei conversar com as paredes, mas elas não possuíam ouvidos. Procurei perguntar aos espíritos daquela masmorra, mas já haviam partido. As caveiras ao meu redor exigiam silêncio. E as únicas coisas que ainda podiam dialogar comigo eram a morte e a solidão.