Durante anos, Bebelle exerceu sobre mim... Northon Salomão de Oliveira

Durante anos, Bebelle exerceu sobre mim a forma mais refinada da crueldade: aquela que não fere pela ausência de ternura, mas pela perfeição com que a simula. Suas palavras eram de uma beleza quase irrefutável; nelas, encontrei abrigo para esperanças que confundi com presságios, promessas que jamais haviam sido feitas e sentimentos cuja existência eu deduzia da delicadeza com que eram negados pela realidade. Ela sabia dizer o indizível sem necessariamente senti-lo, como se conhecesse a gramática do amor, mas jamais tivesse habitado sua língua.


Havia em sua gentileza algo de metafisicamente perturbador: a capacidade de oferecer ao outro aquilo que, em si, talvez nunca tivesse existido. Acariciava minhas feridas sem tocá-las verdadeiramente, concedia repouso à minha angústia sem assumir qualquer responsabilidade por ela e iluminava, com palavras, os lugares que sua ausência emocional mantinha na escuridão. Eu recebia cada gesto como evidência; ela talvez os oferecesse apenas como possibilidade. Entre essas duas interpretações, ergueu-se lentamente o abismo no qual tantas vezes confundimos o que desejamos que alguém seja com aquilo que essa pessoa efetivamente é.


Talvez não exista engano mais profundamente existencial do que acreditar que a beleza de uma palavra constitui prova da verdade de um sentimento. A linguagem pode construir palácios onde a experiência jamais ergueu sequer uma parede. Podemos ser amparados por frases que não encontram correspondência em nenhuma consciência, amados pela nossa própria capacidade de atribuir significado ao que o outro apenas pronuncia. E assim nos tornamos, simultaneamente, habitantes e arquitetos de uma realidade que julgávamos compartilhada, sem perceber que talvez fôssemos seus únicos moradores.


O mais doloroso, contudo, não foi descobrir que Bebelle talvez não sentisse aquilo que suas palavras me faziam acreditar. Foi compreender quanto de mim havia participado dessa construção, quanto da minha própria necessidade de sentido havia transformado delicadeza em destino e possibilidade em verdade. Ela podia ter me oferecido a linguagem; fui eu quem, na solidão da esperança, lhe atribuiu a eternidade.


Há abandonos que não começam quando alguém parte, mas quando percebemos que nunca estivemos verdadeiramente acompanhados. A pessoa permanece, a voz continua doce, os gestos conservam sua aparente ternura, mas alguma coisa essencial se revela irremediavelmente ausente. E então o passado inteiro se submete a um julgamento silencioso: cada palavra retorna despojada do significado que lhe emprestamos, cada lembrança perde a inocência, e aquilo que julgávamos ter vivido passa a existir sob a suspeita de ter sido, em parte, uma obra da nossa própria consciência.


Talvez seja essa a tragédia: não perder apenas alguém, mas perder também a realidade na qual acreditávamos ter encontrado essa pessoa. Porque certas despedidas não nos retiram somente um amor; retiram-nos a confiança naquilo que julgávamos saber sobre o amor, sobre os outros e sobre a nossa própria capacidade de reconhecer a verdade. E, quando finalmente compreendemos, já não sabemos ao certo de quem nos despedimos: de Bebelle, da esperança que depositamos nela ou daquele eu que, durante tantos anos, precisou acreditar para continuar existindo dentro da própria ilusão.