Carta III — A Injustiça dos Homens:... Miguel Chiyo Tomás

Carta III — A Injustiça dos Homens: Crítica moral, política e social


Sete anos já se passaram desde que o inferno da terra abriu-me as portas para este calabouço. Ainda é uma sorte possuir alguma porção de fôlego para respirar. Afinal, o problema nunca foram as leis, mas aqueles que as criam e os fins para os quais as aplicam. Cada gota de oxigénio que inalo está infestada de dor, angústia, fome e sede. Enquanto os reis da terra convocam reuniões, os lares transformam-se em cemitérios: cada quarto, uma campa; cada cama, um caixão. E, ao passo que os lordes repousam sobre o conforto da riqueza, as mãos pobres de quem trabalha repousam na indigência.


Então disseram os opressores:


— Enquanto houver um que governe, haverá sempre um que sirva.
— Enquanto houver um que dite as leis, haverá quem as obedeça.
— Enquanto houver um que mande, haverá quem cumpra.


Esta é a lei dos antepassados e é hereditária a todas as gerações. Não há quem mude essa lógica: o que já está estabelecido, ninguém altera.


Então o povo gritava:


— Longa vida aos que nos governam; que os vossos dias se multipliquem na terra!
— Que a riqueza, o luxo e a abundância nunca vos faltem!
— Viva aos reis da terra, pois não há entre nós quem se compare a vós!
— Que os antepassados vos protejam das desgraças deste mundo!


Cada um bajulava da melhor forma, na esperança de ganhar a atenção e o reconhecimento deles. Elogiavam, veneravam e presenteavam aqueles que os oprimiam, intimidavam e matavam.


Ainda assim se curvavam em adoração e exclamavam:


— Viva! Viva! Viva aos reis da terra!
— Viva! Viva! Viva aos que nos governam!
— Viva! Viva! Viva aos que nos orientam!


Os poderosos, então, criaram leis que os protegessem daqueles que mais necessitavam de proteção, para que permanecessem aquecidos no trono do poder, enquanto o povo continuava cego rumo à decadência. O cheiro sanguinolento de suas atrocidades chegava até aqui embaixo. Eu ouvia o choro dos inocentes subjugados ao martírio. Sentia o grito de socorro de mulheres violentadas pelos lordes. Sentia o desespero dos maridos assistindo ao sofrimento de suas esposas.


Nada me vinha à mente senão o ódio ao escrever:


Morram, miseráveis. Vós que governais sobre a penúria dos mais vulneráveis; vós que julgais o futuro de uma criança ainda no ventre da mãe; vós, poderosos que proclamais hipocrisia diante do sangue derramado por milhares de mártires. Vós que vestis túnicas de ouro, sapatos de prata, mitras de diamantes, cintos de escarlata e colares de esmeralda: saciai o gosto da opulência enquanto vos resta tempo. Comei e bebei enquanto o galo ainda não cantou. Dançai e alegrai-vos das vossas atrocidades.


Pois a vingança está às portas daquele que bate. O meu espírito perseguirá os injustos e não cessará a busca até que todos sejam consumidos. Morram, malditos. Arrepender-se-ão de não me terem enterrado. Eis que venho sobre vós com uma espada de dois gumes para completar a minha ira e derramar sobre vós a minha justiça. Vós que comeis sobre a desgraça dos pobres tereis as entranhas cheias de dor e angústia. E vós, ó plebeus, por serdes cúmplices dos opressores provareis também a desolação de tudo aquilo que construístes com músculos abatidos. Preferistes aplaudir aqueles que vos oprimem e condenastes aqueles que vos defendiam.

Quando a malevolência gritou, silenciastes a benevolência.


Que o castigo seja convosco. Que o tormento, a dor e a desgraça vos acompanhem até a sepultura.


Morram, corruptos. Trocais a justiça por moedas e jade. Deixastes que o brilho funesto da riqueza e o prazer transitório da concupiscência vos corrompessem. Escrevo-vos com o mesmo sofrimento que me fizeram suportar, com o mesmo tédio com que me lançaram nas sombras destas paredes escuras, com a mesma dor em cada dedo que perdi. Naquele momento, a sede de vingança, a ânsia pela justiça e o cansaço de continuar a escrever dilaceravam-se dentro de mim.


Afinal, quando a injustiça canta, os tolos dançam.


Quando a justiça fala, a sociedade censura.


Mas quando a verdade retalia, não há quem se desvie da sua cólera.


A ignorância torna os homens cegos à verdade; a ganância envolve-os com o manto da cobiça; o egoísmo conduz ao assassinato da guerra. E é aqui que nasce a injustiça dos homens: todos querem reinar sobre os outros; todos querem ser distintos dos comuns; todos querem ser senhores e receber o serviço dos servos. É aqui que nasce a indiferença dos homens: na criação de castas e estratos para evitar o semelhante — nobres e humildes, fracos e poderosos. Diz-se que a maioria vence sempre. Mas a lei pertence aos poderosos; o mundo é dos poderosos, daqueles que detêm a força.


Por isso, não importa a quantidade: diante da minoria rica e soberba, nem mesmo Deus pôde impedir que nos pisassem.