33 anos
Uma ideia não se torna proprietária de quem a defendeu durante anos; até as convicções mais antigas devem permanecer abertas à revisão.
Se, após 3 mil anos, você ainda acredita em espíritos ou que 32 partidos políticos, 12 mil prefeitos e vices, 60 mil deputados estaduais etc. é democracia, eu tenho uma péssima notícia pra lhe dar: isso quer dizer que você nunca existiu de verdade.
Trabalho a exaustão
(Mauro A Evaristo)
Em todos esses anos,
Em todos os desenganos
Apesar de tantos e tantos
Todos esses marcos felicianos
O trabalhador de tempo livre
Muito mais ele se dedica, vive
Por ter maior satisfação
Sem o peso do trabalhar à exaustão.
O trabalhador livre com tempo a família,
Tempo pra estudar, entender a bíblia
A menos que o trabalho a exaustão
Seja apenas a armadilha
Pois o cansaço veda a compreensão
De perceber de onde vem a exploração.
feradapoesia.blogspot.com
Não há tormento maior do que envelhecer temendo os anos que passam, esquecendo que o relógio mede apenas momentos, não o valor do que fizemos com eles — e assim transformar o tempo em carcereiro da própria existência.
O Que o Caderninho do Motorista Revela?
Há mais de seis anos, o motorista peregrino registra suas experiências em um pequeno caderno que carrega consigo: o *Diário de um Motorista*.
Certo dia, ao folhear suas páginas, encontrou um assunto marcado com três asteriscos: preconceito, discriminação e racismo. Para ele, os sinais indicavam um tema de extrema importância.
Continuando a leitura, encontrou anotações sobre passageiros da periferia de São Carlos. Muitos reclamavam do abandono do poder público e da falta de serviços básicos, como transporte coletivo de qualidade, postos de saúde, creches, agências bancárias e iluminação pública.
Algo chamou sua atenção: esses passageiros frequentemente agradeciam por ele ter aceitado a corrida. Alguns contavam que outros motoristas se recusavam a transportá-los por morarem na periferia.
O peregrino se perguntava: seria sempre uma questão de segurança ou, em determinadas situações, o preconceito também estaria presente?
Afinal, o endereço de uma pessoa deveria informar onde ela mora, jamais determinar o valor que a sociedade lhe atribui.
Em outras páginas, havia anotações sobre passageiros de bairros de classe alta. Alguns se despediam com um simples “Tudo certo aí?”, outros agradeciam, enquanto muitos entravam e saíam do carro em silêncio.
O motorista tinha a impressão de que, para alguns, a relação se resumia ao serviço contratado. Entretanto, sabia que o silêncio não significava necessariamente arrogância ou preconceito.
Sua reflexão era outra: por que esquecemos, tantas vezes, que por trás de cada profissão existe um ser humano que merece respeito?
A educação não deveria depender da posição social de quem está diante de nós.
O caderninho também guardava observações sobre professores e estudantes. O motorista notara que muitos se atrasavam para iniciar a corrida e utilizavam fones de ouvido durante o trajeto.
Em outra anotação, registrou uma impressão curiosa: dentro da universidade federal, era como se existissem três universidades — Medicina, Engenharias e Humanidades.
Segundo suas observações, a cada dez viagens que realizava para aquele ambiente, aproximadamente cinco eram destinadas à Medicina, quatro às Engenharias e apenas uma às Humanidades. Não era uma pesquisa oficial, mas uma percepção que despertava sua curiosidade.
Por que algumas profissões recebem tanto prestígio, enquanto outras áreas do conhecimento parecem ocupar um lugar secundário?
Não se tratava de diminuir a importância da Medicina ou das Engenharias, mas de questionar uma sociedade que, muitas vezes, mede o valor das pessoas pelo salário, pelo diploma ou pela profissão.
Conhecimento sem respeito corre o risco de se transformar em instrumento de distinção social.
Depois de revisitar suas anotações, o motorista decidiu escrever sobre o assunto.
O preconceito nasce de julgamentos antecipados, frequentemente alimentados por estereótipos. A discriminação acontece quando esses julgamentos se transformam em tratamento desigual. O racismo, por sua vez, também se manifesta nas instituições e nas estruturas sociais que reproduzem desigualdades raciais e dificultam o acesso a direitos e oportunidades.
Em termos simples, o preconceito alimenta o julgamento, a discriminação transforma esse julgamento em ação e o racismo pode perpetuar a desigualdade na sociedade.
Esses fenômenos podem se fortalecer mutuamente e não se limitam às atitudes individuais.
O problema se agrava quando alguém denuncia uma injustiça e ouve que tudo não passa de vitimismo. Nem toda discordância é preconceituosa, mas desqualificar quem relata discriminação pode impedir que problemas reais sejam reconhecidos.
Muitas vezes, quem desfruta de determinados privilégios não percebe as barreiras enfrentadas por outras pessoas. Reconhecer essas desigualdades não significa atribuir culpa a todos, mas compreender a realidade e contribuir para transformá-la.
Há também quem defenda a igualdade nas redes sociais e nos palanques, mas não demonstre o mesmo compromisso na vida cotidiana.
É a chamada virtude de fachada: defender publicamente uma causa sem disposição para rever atitudes e práticas que mantêm as desigualdades.
A verdadeira luta pela igualdade exige coerência. Não basta aplaudir a diversidade; é preciso combater a exclusão, oferecer oportunidades justas e tratar todos com dignidade.
Defender a igualdade é fácil quando ela não exige nenhuma mudança. O verdadeiro compromisso começa quando precisamos rever nossas próprias atitudes e privilégios.
Ao terminar suas anotações, o motorista peregrino compreendeu que seu caderninho guardava muito mais do que histórias de passageiros. Guardava perguntas sobre o Brasil, suas desigualdades e a maneira como as pessoas se relacionam.
Suas experiências não permitiam julgar uma classe social inteira, mas ofereciam motivos para refletir sobre os preconceitos que, muitas vezes, se escondem nas atitudes mais corriqueiras.
A grande questão não é descobrir quem é melhor ou pior, mas entender por que a cor da pele, o endereço, a profissão ou a condição econômica ainda influenciam a maneira como tratamos alguém.
Talvez a transformação comece quando deixamos de procurar preconceitos apenas nos outros e passamos a examinar nossas próprias atitudes.
Afinal, é fácil condenar a discriminação quando somos espectadores. Difícil é reconhecê-la quando ela aparece em nossas próprias palavras e escolhas.
E o motorista peregrino encerrou suas anotações com uma pergunta para o leitor:
Se todos merecem respeito, por que ainda permitimos que a cor da pele, o endereço, a profissão ou a condição social determinem a maneira como alguém é tratado?
Talvez a resposta não esteja apenas nos livros, nas leis ou nos discursos, mas também na próxima pessoa que encontrarmos pelo caminho.
Peregrino Nino Carneiro
Estabelecer metas tornou-se muito comum nos últimos anos. Trata-se de um processo pelo qual a mente se concentra num resultado desejado. No fundo é apenas mais uma forma de tentar levar o mundo a fazer o que queremos que faça. Não é uma entrega espiritual.
A mágica acontece quando concentramos a mente numa manifestação desejada e entregamos nossa lista de compras a Deus, dizendo a Ele o que queremos que faça por nós. Os milagres acontecem quando perguntamos a Deus o que podemos fazer por Ele. Os milagres nos levam da mentalidade do “obter” para o “oferecer”. O desejo de obter algo nos leva à crença profunda de que não temos esse algo. Enquanto acreditarmos que existe escassez dentro de nós, continuaremos a fabricar escassez em volta de nós, porque este é o nosso pensamento básico. Não importa o quanto obtemos, nunca será suficiente.
Quando nosso desejo é oferecer, nossa crença profunda é a de que temos tamanha abundância que podemos distribuí-la. A mente subconsciente recebe a deixa de nossas crenças profundas e, com grande brilhantismo, fabrica situações que refletem essas crenças. Nossa disposição de dar leva o universo a nos dar.
A mãe do operador de milagres é a paz de espírito. Não sabemos o que nos faz felizes, apenas achamos que sabemos. Todos já obtivemos coisas que achamos que nos fariam felizes e não fizeram. A questão é que não seremos necessariamente felizes por escrevermos afirmações positivas para obter um Mercedez-Benz e conseguirmos obtê-lo. A percepção, quando voltada para o milagre, deve transformar a própria felicidade em meta e abdicar da ideia de que sabemos que cara terá essa felicidade. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui a um mês ou um ano. Se conseguirmos o que desejamos agora, pode ser que lá na frente vejamos uma situação pior, justamente por causa do que obtivemos.
Ter na paz sua única meta, isso leva a mente a se concentrar em todos os fatores que contribuem para a nossa paz, deixando o resto de fora da nossa consciência. A mente e o olho são frequentemente inundados com inúmeras impressões, ao mesmo tempo que existe um censor embutido para dar foco às nossas percepções. E é ele que escolhe o que vamos notar e o que não vamos.
Ter como meta qualquer outra coisa que não seja a paz é emocionalmente destrutivo. Por exemplo, vamos fazer uma entrevista para um emprego e queremos muito ser contratados. Se nossa meta é conseguirmos esse emprego, tudo bem, caso venhamos a ser contratados. Mas se não o conseguirmos, ficaremos deprimidos. Se a paz for nossa meta, conseguindo ou não o emprego, estaremos em paz.
O importante é estabelecer uma meta no início de uma situação, caso contrário ficaremos com a impressão de que ela evolui de forma caótica. Quando a meta é a paz, estamos programados para a estabilidade emocional, não importa o que aconteça. A mente será direcionada para ver a situação de uma perspectiva de paz. Teremos fé em Deus e o milagre é que sentiremos realmente esta fé. Nossas emoções fluem de nosso pensamento e não o contrário.
Estabelecer metas específicas podem nos limitar. Talvez estejamos pedindo algo apenas bom, quando a vontade de Deus seria nos dar algo realmente imenso. Assim que entendermos que a vontade Dele é que sejamos felizes, não sentimos mais a necessidade de pedir qualquer outra coisa além de que Sua vontade seja feita. Mas temos receio de deixar as coisas nas mãos de Deus porque não sabemos o que Ele fará com elas. Temos que estabelecer a meta de sermos curados da crença de que Deus é medo e não amor. Nossa felicidade e nossa função são uma só. Se Deus for nossa meta, a felicidade é nossa meta.
A filosofia budista, que nasceu há mais de 2 mil anos na Índia vem conquistando o mundo por seus sábios ensinamentos sobre bondade, paz, consciência, amor, tolerância e compaixão.
As pessoas enxergam as lições budistas como guias, uma maneira de lidar com mais sabedoria com os desafios diários da vida.
Uma das maneiras mais comuns de difundir os pensamentos budistas é através das histórias e lendas, que se mantêm vivas de gerações em gerações.
A história budista de hoje carrega uma grande sabedoria e nos ensina a fazer uma pausa quando precisamos de mais paz e harmonia, em nossas vidas.
Deus me livre da maldade dos corações ruins e da inveja dos infelizes
Quem te protege não dorme. Acalme o seu coração, pois tudo ficará bem
Não espere coisas pequenas de um Deus poderoso! Ele sempre oferece muito mais do que você espera
Esperamos que você aproveite os ensinamentos.
Desafio
Eu ouvi uma antiga parábola. E deve ser muito antiga, porque naqueles dias Deus costumava viver na terra.
Um dia, um velho camponês foi fazer uma visita a Deus e lhe disse:
– Olhe, você deve ser Deus e você deve ter criado o mundo, mas há uma coisa que eu tenho que lhe dizer: você não é um camponês, você não sabe tudo o que há para saber sobre a agricultura. Você tem algo para aprender.
Deus, então, respondeu-lhe:
– Qual é o seu conselho?
O agricultor disse:
– Dê-me um ano e deixe-me fazer as coisas do jeito que eu quero e vamos ver o que acontece. A pobreza não mais existirá.
Deus aceitou a proposta do camponês e lhe deixou no comando por um ano. O camponês, em seu poder, controlava o mundo como achava melhor: sem tempestades, sem ventos, sem perigos para suas plantações. Tudo estava indo bem e ele estava muito feliz. O tempo estava funcionando de acordo com sua vontade, estava tudo matematicamente perfeito.
O camponês notou que o trigo cresceu muito mais do que o esperado, mas então ocorreu um problema. Então foi até Deus e disse:
– Nós conseguimos muitos grãos e mesmo se ficássemos um ano sem trabalhar, ainda teríamos comida suficiente. No entanto, quando fomos recolher os grãos, eles estavam vazios. O que aconteceu, qual foi o erro?
Deus respondeu:
– Como você cuidou para que tudo saísse perfeito, não houve desafio, nem conflitos, e assim o trigo tornou-se impotente. Desafios são necessários em todas as áreas da vida. Tempestades, trovões, relâmpagos são necessários, porque eles agitam a alma dentro do trigo. A noite é tão necessária quanto o dia, e os dias de tristeza são tão essenciais quanto os dias de felicidade.
Quando uma pessoa compreende a função do equilíbrio, entende que nem sempre tudo tem que acontecer de acordo com nossas vontades, e as inconstâncias fazem parte de nosso crescimento. Entender que a perfeição não existe traz paz aos nossos corações e nos ensina que, mesmo em condições imperfeitas, podemos prosperar na vida, se seguirmos o caminho correto e acreditarmos em nós mesmos.
Envelhecer é descobrir que o tempo não leva apenas os anos; leva também a urgência de provar alguma coisa a alguém.
Essa sou eu!
Alguém me disse que eu mimava demais uma aluna de 8 anos, autista.
Respondi: “Você não sabe o quanto é bom mimar e ser mimada!”
Duas semanas depois, lembrei que essa pessoa havia perdido a mãe aos 10 anos e foi viver com parentes.
Pronto. Perdi o chão. Até hoje peço a Deus que me perdoe, caso a tenha feito sofrer…
E pretendo me desculpar com ela pelo que falei.
Entendo que, às vezes, quem critica algo bom é justamente quem nunca pôde vivenciar isso.
E sei que não somos culpados pelo passado,
mas somos responsáveis pelo futuro —
e o futuro é construído agora, no presente,
com boas e novas atitudes.
Não é porque alguém sofreu no passado
que precisa viver eternamente frio, egoísta,
espalhando dor e destruindo sonhos,
preso num ciclo que só se autoflagela.
As unhas da infância
Conversando com uma das minhas afilhadas Babys, de 9 anos, enquanto fazíamos pipoca, convidei-a para pintar as unhas com a minha filha.
Ela me disse que não tinha unhas. Explicou que as deixava crescer, mas elas não cresciam.
Então, perguntei:
— Por que não crescem?
E ela respondeu:
— Porque eu como!
Comecei a rir enquanto tentava explicar que suas unhas ficariam lindas, bem coloridas; que seria apenas uma brincadeira, muito divertida, e que não precisava se preocupar, pois, com o tempo, deixaria essa mania.
Expliquei também que tudo isso fazia parte do seu desenvolvimento e que cada pessoa tem seu próprio jeito de crescer.
E fiquei pensando...
Quantas vezes esperamos que as coisas aconteçam no tempo que consideramos certo, esquecendo que cada pessoa tem seu próprio ritmo?
Na infância, existem pequenas manias, descobertas, medos e comportamentos que, aos olhos dos adultos, podem parecer bobos, mas que fazem parte de um mundo que a criança ainda está aprendendo a compreender.
Talvez crescer seja justamente isso: aprender, aos poucos, a lidar com as próprias vontades, descobrir novos caminhos e abandonar, no seu devido tempo, aquilo que já não faz sentido.
Afinal, nem todas as unhas crescem no mesmo ritmo, assim como nem todas as crianças aprendem da mesma maneira.
O importante é não tentar apressar a infância, mas oferecer carinho, paciência e compreensão para que cada criança possa crescer no seu próprio tempo.
Porque a infância passa depressa, mas a maneira como acolhemos uma criança pode acompanhá-la por toda a vida.
Nos anos que vivi à sua sombra
Eu me apaixonei, viajei, explorei e amei
Também em mágoas me afoguei, chorei, e muitos dias da cama nem levantei
Por um tempo mantive a calma
Em outros arranquei os cabelos
Houveram momentos em que gritei
Mas a todo tempo, com lágrimas ou sem, eu chorei
Vi minha tristeza no fundo de uma garrafa
E a vi na beirada de camas estranhas
Meu desespero andava pelas esquinas
Enquanto todos os dias meu coração chorava
O que fiz para merecer tal sina
Diariamente eu me perguntava
Quando tudo isso vai passar?
Sempre na esperança de que tudo passa
De repente o bêbado da esquina fez sentido
E o que saltou da janela um louvor à sua coragem
E por muito tempo me mantive na bela miragem
Ter sentido seu cheiro e tua voz ouvido
Amor, eu voltei. E para ficar.
Anos em Londres me ensinaram a ler o mundo pelos rostos. Ao voltar ao Brasil, não vi estranheza, vi espelho. Um país inteiro desenhado com os mesmos traços
das etnias que cruzaram minha vida na cosmópole.
Uma única decisão precipitada ou impensada tem o potencial de desmantelar anos de esforço, reputação e construção. Esse fenômeno é frequentemente chamado de "Efeito Dominó" ou "Ponto de Inflexão Negativo".
Bebelle nasceu plebeia e plebeia morreu, embora tenha conhecido, por alguns anos, a vertigem de se imaginar rainha. Ascendeu pelos degraus de uma escada construída com hipocrisia, dissimulação e a paciente arte de parecer aquilo que jamais fora. Fez da máscara uma identidade, da conveniência uma moral e da aprovação alheia a medida de seu próprio valor. Por algum tempo, a encenação prosperou, porque há épocas em que a aparência desfruta de mais prestígio do que a essência, e pessoas dispostas a acreditar no espetáculo preferem não investigar os bastidores.
Mas o tempo, esse filósofo implacável que não argumenta, apenas revela, encarregou-se de confrontá-la com a verdade que suas escolhas haviam adiado. Pouco a pouco, as circunstâncias desfizeram o cenário, os privilégios perderam a voz e o espelho, indiferente às antigas encenações, devolveu-lhe a imagem que a vaidade tanto se esforçara por ocultar. Bebelle descobriu, tarde demais, que ascender socialmente não significa transcender a própria condição interior, assim como vestir uma coroa não transforma em realeza aquele que jamais compreendeu a responsabilidade de usá-la.
Toda máscara tem sua duração; toda impostura, seu limite; toda glória emprestada, uma data de vencimento. E, quando a sinfonia finalmente alcança o último acorde, não são os aplausos que permanecem, mas o silêncio que sucede à representação. Nesse silêncio, desabam os títulos imaginários, evaporam-se as reverências circunstanciais e a personagem, privada do olhar que a sustentava, reencontra a nudez de sua própria existência.
Bebelle nasceu plebeia, viveu como rainha e morreu diante da evidência de que jamais deixara de ser quem era. Sua tragédia não foi perder o trono, mas descobrir que o trono nunca lhe pertencera. Porque o tempo pode conceder a alguém os ornamentos do poder, mas não tem o poder de transformar a aparência em substância. E, ao fim de todas as coisas, quando a música cessa e as luzes se apagam, cada um retorna àquilo que construiu dentro de si.
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Sim, Bebelle. Muitos anos depois, ainda nos vingamos em silêncio, acomodados em nosso berço esplêndido, distantes do antigo campo de batalha. Já não há trincheiras, apenas a distância segura de quem aprendeu a transformar o tempo em testemunha e a memória em recompensa.
Ao redor, os pássaros continuam cantando, indiferentes às pequenas guerras humanas, enquanto as máquinas avançam, silenciosas, ocupando os espaços que um dia pertenciam apenas às mãos. E talvez exista nisso uma estranha ironia: enquanto o mundo acelera, conseguimos finalmente registrar o tempo, arquivá-lo, medi-lo e, graças às próprias máquinas, até sermos remunerados por aquilo que antes simplesmente deixávamos passar.
A vingança, afinal, nem sempre precisa de sangue. Às vezes, basta sobreviver ao tempo, contemplá-lo de longe e descobrir que até os anos podem trabalhar por nós.
Uma confirmação silenciosa do que vem acontecendo há anos: a mente sempre soube se curar, mas só agora começamos a ouvi-la.
O Caos e a Piada Chamada Brasil: 500 Anos de Escravidão Remodelada Brasil, que piada melancolia é essa? Quinhentos anos de história — desde 1500 que o caos não é acidente, é roteiro sádico. Colonização forjada em sangue africano e indígena, desigualdade como cimento eterno. A escravidão de 1888? Não morreu; trocou a moldura. Chicotes viraram contratos precários, senzalas se metamorfosearam em favelas sufocantes, e o grilhão agora é uma dívida impagável que esmaga gerações. Reflita: o que mudou, além da pose de "democracia racial"?Racismo estrutural não é falha humana; é o esqueleto podre da nação. Negros e pardos — 56% do povo (IBGE) — arrastam-se na base: 70% dos famintos, 75% das prisões, migalhas no poder. A elite, herdeira de senhores de engenho, ri enquanto lucra. No século XXI, o absurdo escala: inflação bater recordes em 2025, corroendo o salário mínimo como ácido, enquanto bancos engordam com lucros obscenos ,bilhões em dividendos para acionistas que brindam com champanhe. O povo? Pão e circo digital, entregadores suando em apps sob sol impiedoso, ecoando as lavouras de cana. E o feminicídio? Virou rotina banal, estatística fria: uma mulher morta a cada seis horas, muitas negras, silenciadas em lares que deviam ser refúgio. Mulheres limpam o chão dos ricos pela manhã, voltam para casa e viram estatística à noite. O Estado assiste, impassível, leis existem no papel, mas o machismo racista as enterra. Que reflexões cabem aqui? Somos uma nação que celebra o carnaval enquanto corpos apodrecem nas ruas. O mito da cordialidade esconde hienas: corrupção sistêmica, terra concentrada em mãos brancas, educação como esmola para manter a pirâmide intacta. Pense no abismo: 500 anos de promessas quebradas, do "país do futuro" que nunca chega. Bancos recordistas, povo no osso; feminicídios cotidianos, impunidade eterna. O Brasil é o caos reflexivo de um espelho torto, nos força a encarar que desigualdade não é destino, mas escolha perversa de quem detém o poder. Quebrá-la exige rasgar a moldura: taxar fortunas vorazes, dividir terras roubadas, punir o terror doméstico com fúria real. Senão, seguimos a piada: rindo por fora, sangrando por dentro, num circo onde o palhaço é o povo.
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