Poemas curtos de Clarice Lispector
Ah, mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros, então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor.
Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.
Nota: Trecho do conto A repartição dos pães.
...MaisNão, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra é aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida.
Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida.
Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente.
O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
Nota: Trecho da crônica O nascimento do prazer (trecho).
...MaisAndando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança.
A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.
Nota: Trecho da crônica Eu sei o que é primavera.
...MaisNem sempre esmiuçar demais dá certo.
Nota: Trecho da crônica O caso da caneta de ouro.
...MaisSe eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder de novo usar a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.
Nota: Trecho da crônica Minha próxima e excitante viagem pelo mundo.
...MaisNa maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome.
Nota: Trecho da crônica Daqui a vinte e cinco anos.
...MaisO medo era vertical demais no tempo para deixar vestígios na superfície.
O que não será jamais elucidado é o meu destino.
Nota: Trecho da crônica Esclarecimentos – explicação de uma vez por todas.
...MaisÀ medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
Milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
Nota: Trecho da crônica Medo do desconhecido.
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