Um Estranho Impar Poesia

Cerca de 274230 frases e pensamentos: Um Estranho Impar Poesia

"Quando a Tarde Confessa Silenciosamente"

Há um instante, quando o sol se inclina e os contornos do mundo se acendem em brasa, em que a alma decide falar. Não alto. Mas em sussurros. É nesse tempo suspenso entre a luz e a escuridão que me confesso ao céu — e o céu, generoso, não me interrompe.

Ali, no exato momento em que o dia se despede sem prometer retorno, despeço-me também das culpas que nunca ousei nomear. Revelo as saudades que ainda ardem, os afetos que não soube cultivar, as palavras que morreram na garganta, as esperas que jamais se cumpriram.

Falo baixinho com a luz que se deita. E ela me entende. Há uma linguagem no pôr do sol que só se aprende com o tempo: a linguagem do não dito, do que pulsa nas entrelinhas, do que escorre por dentro, sem ruído. O céu se tinge de confissões veladas — e eu, feito parte dele, também me pinto de verdade.

No crepúsculo, tudo parece mais leve — até mesmo o que mais pesa. É como se o coração encontrasse abrigo na paleta avermelhada do entardecer. Como se o mundo, por um breve segundo, aceitasse a imperfeição como forma de beleza.

E quando o sol, por fim, desaparece, não é o fim — é o início de um entendimento. O escuro não assusta quando o coração foi ouvido. Porque ali, naquela cena de despedida que se repete todos os dias, minha alma reencontra a paz... de simplesmente ser.

Inserida por rosangela_montano_1

⁠"Presente Silencioso"

O hoje é um presente calado,
embrulhado em sonhos sutis,
que só o coração acordado
desembrulha com mãos gentis.

Não corras pelos teus dias,
flores não nascem na pressa —
cada botão guarda poesias
que o tempo lento confessa.

Olha com olhos de chegada,
como quem volta e se encanta,
ouve a vida acordada,
com a alma que não se espanta.

Que tua semana floresça,
em fé, ternura e cor,
campo fértil de promessa,
onde germina o amor.

Inserida por rosangela_montano_1

⁠"Pai, Laços de Amor e Vida"

Em teus braços, descobri o alicerce
de um mundo que pulsava no compasso do teu peito.
Teu silêncio era reza antiga e prece,
teu olhar — farol aceso sobre o meu leito.

Antes da palavra, ouvi teu coração:
era ele que traduzia o amor sem voz.
Nos teus gestos, aprendi a direção;
nos teus passos, a coragem — e nela, fomos heróis.

Tu és a seiva da raiz primeira,
rocha serena, onde a vida se faz forte.
Tua presença é luz que, inteira,
não se apaga... nem na sombra da morte.

És o semblante do Pai que tudo vê,
dom celeste entre o humano e o divino.
Teu abraço é ponte que me sustém de pé:
é lar, é chão, é caminho cristalino.

Pai, és tempo que o tempo não destrói,
memória viva em cada flor que brota.
No pulsar da alma, és som que não se dói,
és amor bordado na minha rota.

E, se um dia o vento apagar tua voz,
que ecoem em mim teu riso e tua estrada.
Pois onde fores, levo-te dentro de nós:
vida entrelaçada... eternamente entrelaçada.

Inserida por rosangela_montano_1

⁠Em nosso cemitério de repostas,
Fantasmas de um passado que não volta,
Pelo menos para nós e nossas viúvas,
Amores que perdemos nessa chuva,

Inserida por michelfm

⁠Cemitério de Respostas

Em nosso cemitério de repostas,
Fantasmas de um passado que não volta,
Pelo menos para nós e nossas viúvas,
Amores que perdemos nessa chuva,

E agora jazem em companhia de outras covas.
Provas de nossa ingratidão,
Infidelidade, desprezo e desespero,
Associados a insatisfação.

Cemitério de Respostas.

E as traições poderão descansar,
Junto às ervas daninhas do canteiro,
Terei as ladainhas do coveiro,
Derramadas sobre meu caixão,

Mas antes encaixotarei as faltas,
E as sepultarei no cemitério de respostas.

Cemitério de Respostas.

Inserida por michelfm

⁠Síntese Nossa em Minha Sinopse

Sinto-me fraco,
Síndrome da falta,
Porto um vácuo,
Uma pausa na pauta.

Estagnado em minha lauda,
A cobertura sem a cauda.

Ouso escutar a cantoria,
Ouço executar a sinfonia,
Simpática força que culmina.

Sinto-me Senhor
Da minha própria sorte,
Síntese nossa em minha Sinopse.

Sou sua serifa,
Tu és minha haste,
Me mantém proporcional,
Irracional em minha arte.

Não escrevo mais
O que vem da inspiração,
Pira-me a tua tenaz convicção.

O diário está mudo,
Nada mais me diz,
Fui criado graúdo
E a grafia não condiz.

Mas antes de ontem
Se antecipou,
Hoje é a conseqüência
Do que passou

E também somou
E tão bem semeou.

Sinto-me Senhor
Da minha própria sorte,
Síntese nossa em minha Sinopse.

Sente-se agora,
Sinta-se com vontade,
Sossegue e levante sem alarde,
Ainda não é tarde
Para aliar, para obter, para habitar.

Sinto-me Senhor
Da minha própria sorte,
Síntese nossa em minha Sinopse.

Inserida por michelfm

⁠Poderia ser um índio anônimo,
Impetuoso em seu frenesi,
Mas consagrou-se como São Gerônimo,
Salvador dos Apaches, protetor dos colibris.

Inserida por michelfm

⁠Presentearam-no com usura,
Na fúria que se sucedeu,
Vinte anos de clausura,
Por um crime que não cometeu.

Inserida por michelfm

⁠Gerônimo
(Nos Estados Banidos da América
a Narrativa de um Nativo Americano)

Poderia ser um índio anônimo,
Impetuoso em seu frenesi,
Mas consagrou-se como São Gerônimo,
Salvador dos Apaches, protetor dos colibris.

Cravejou bravamente tua adaga,
Nos que violaram teu brio.

Ele não foi um índio anônimo,
Ele tinha um nome, Gerônimo !

Presentearam-no com usura,
Na fúria que se sucedeu,
Vinte anos de clausura,
Por um crime que não cometeu.

Colonizador ávido em louros,
Gerônimo perdido em apuros.

Nas Planícies erigiriam condomínios,
Ceifaram os espíritos de sua linhagem,
No deserto levantaram um cassino,
As Doutrinas escoaram pela margem.

Porventura não tornou-se um engano,
A narrativa de um nativo americano.

Toda vastidão de uma peleja épica,
Ocorrida nos Estados Banidos da América.

Ele não foi um Índio anônimo,
Ele tinha um nome, Gerônimo !

Inserida por michelfm

⁠Encostada num barril
Estava a jóia mais cara,
A conquista de um pirata,
A mulher que ele amara.

Inserida por michelfm

⁠A certeza de uma quase catarse matinal [Em 10 Manhãs]

Um gesto pra amar
Um beijo pra sentir
Um teto pra abrigar
Uma manhã pra refletir

Uma língua pra falar
Um filme pra assistir
Um tempo pra pensar
Uma manhã pra refletir

Uma lei pra se opor
Um trato pra cumprir
Uma canção pra compor
Uma manhã pra refletir

Uma poça pra saltar
Uma peça pra aplaudir
Um jantar pra alimentar
Uma manhã pra refletir

Uma fuga pra achar
Um caminho pra fugir
Uma história pra contar
Uma manhã pra refletir

Um vício pra deixar
Um afeto pra sorrir
Um amor pra guardar
Uma manhã pra refletir

Uma vida pra viver
Uma perda pra punir
Uma dor pra esquecer
Uma manhã pra refletir

Um discurso pra inspirar
Um concurso pra competir
Uma pedra pra chutar
Uma manhã pra refletir

Uma muda pra plantar
Uma roupa pra vestir
Um planeta pra mudar
Uma manhã pra refletir

Um Deus para rezar
Uma prece pra pedir
Um milagre pra salvar
Dez manhãs pra refletir
Dez amanhãs pra refletir

Um fim pra uma frase
Num texto marginal
A certeza de um quase
Na catarse matinal

A certeza de uma quase
Catarse matinal.
Quase uma catarse
Em 10 manhãs.

Inserida por michelfm

⁠Realce de um Romance em Relance

Despejo o acúmulo de melancolia,
Nivelado pelo apalpar da franqueza,
Tristura transmutada em biografia,
Lisonja alimentada de lindeza.

Realce de um romance em relance,
Realce um romance em relance.

Macia epiderme madrigal,
Norteia-me com benevolência,
Galanteio supra-celestial,
Levando-me à máxima potência.

Realce de um romance em relance, Realce um romance em relance.

Supremo enquadramento instantâneo,
Imperecível aos instantes que sucedem,
Ameno vendaval interiorano,
Âmago das forças que se movem.

Realce de um romance em relance, Realce um romance em relance.

Inserida por michelfm

⁠Em português coloquial,
A gente se ajeitava e pronto.
Um terraço, um varal,
Sala, cozinha, banheiro, aposento,
Uma rede pro encosto e ponto.

Inserida por michelfm

⁠Cada quina um reconto,
Pela prosperidade,
Éramos afortunados,
Sem um tostão ou vaidade,
Reinava dominante a simplicidade.

Inserida por michelfm

⁠Pretérito bem-mais-que-perfeito

Em português coloquial,
A gente se ajeitava e pronto.
Um terraço, um varal,
Sala, cozinha, banheiro, aposento,
Uma rede pro encosto e ponto.

Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.

Cada quina um reconto,
Pela prosperidade,
Éramos afortunados,
Sem um tostão ou vaidade,
Reinava dominante a simplicidade.

Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.

Bem-aventurados
Os que cá estão.
Fazendo do inverno,
Um ilustre verão.

Aqueles que conviveram,
Aqueles que aproveitaram,
Aqueles que bendisseram,
Preencheram, perpetuaram.
Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito.

Inserida por michelfm

⁠Em meu ingresso meço Jú
Faço um pedido peço Jú
Um comentário para Jú
Ou um glossário sobre Jú

Inserida por michelfm

⁠Indecifrável Jú

Em meu ingresso meço Jú
Faço um pedido peço Jú
Um comentário para Jú
Ou um glossário sobre Jú

Em meu diário escrevo Jú
Ao redigir resumo Jú
Uso ensejos vejo Jú
No quintalejo bejo Jú, bejo

Indispensável Jú
Incomparável Jú

Na biblioteca leio Jú
Na locadora loco Jú
Uso o fado fada Jú
Sol poente nasce Jú

Naquele atalho rumo a Jú
Espalho versos sobre Jú
Cantigas lidas para Jú
A Preferida, amo Jú, amo

Inenarrável Jú
Indecifrável Jú

Provoco-a por provocar
Só pra vê-la revidar
Onde me encontro, encontro Jú
Contudo, não decifro Jú

Notoriedade do notável
Afinidade ao afagável

Indecifrável Jú,
Inesquecível.

Inserida por michelfm


Exauriam as reservas,
De um reles observador,
Magnetismo de uma leva,
Certeira como o arpoador.

Inserida por michelfm

⁠Virando a travessa no avesso,
O excesso é um sucesso reverso,
Versado no que venha ser controverso.

Inserida por michelfm

⁠A Casa de Limões

Numa tardinha
Me atordoaram
C’um causo.

Encostado do
Moinho da Sardinha,
Perambulava um garoto,
Que vivia numa casa
Feita de limões.

Ouvi um cochicho
Sobre um jovem Javali
Que se tornou padeiro.
E outro buchicho
Sobre um centenário Jabuti
Que se formou doceiro.

Mas este boato
É de maior capricho,
O aposento do guri
No topo dum limoeiro.

Construção ecológica.
Amarrava a dentaria
Sua hospedaria.
Parecia até mágica
Bruxismo ou feitiçaria.

Agora eu entendia
Quando minha mãe dizia,
Que existiam pessoas amargas,
Difíceis de manter relações.
Também pudera serem azedas,
Vivendo numa Casa de Limões.

Inserida por michelfm