Trechos Clarice Lispector
Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter.
Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.
Pois há um tempo de rosas, outro de melões, e não comereis morangos senão na época de morangos.
Andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos.
Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois são cinco.
Não ter forças para lutar era o meu único perdão.
Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.
Se me abandonar, ainda vivo um pouco, o tempo que um passarinho fica no ar sem bater asas, depois caio, caio e morro.
Às duas horas da madrugada, enfim, nasceu ela, a ideia.
É necessário certo grau de cegueira para poder enxergar determinadas coisas.
Preciso ser livre - não aguento a escravidão do amor grande, o amor não me prende tanto.
Cada um tem o anjo que merece.
O maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.
É preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a respirar livremente.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em ralação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Chorou livremente, como se esta fosse a solução.
Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade.
(A bela e a fera – trecho da crônica Gertrudes pede um conselho)
E depois ando meio bonita, sem o menor pudor: vem do bem-estar.
(A descoberta do mundo – trecho da crônica Facilidade repentina)
