Tiago de Melo Poesia

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Ultimamente, sinto-me no automático, como se minha existência estivesse programada para repetir incessantemente as mesmas tarefas diárias. Cumpro cada gesto sem reclamar, contendo pensamentos inquietantes que ousam emergir, pois sei que, aos olhos da sociedade, questionar ou sentir demais é rotulado como rebeldia. Ironia cruel: a conformidade, esse silêncio interno imposto, revelou-se a verdadeira prisão, mais implacável do que qualquer algema visível.

A vida é como estar em um barco em alto mar, sem remos, sem motor, âncora e sem água... Sobreviver só depende de você.

O tempo é um paradoxo quântico, para mim, não faz sentido, pois nossa existência é moldada por instantes que já se foram e por futuros que ainda não nasceram. Vivemos no fio tênue do agora, mas carregamos em nós as marcas de tudo que foi e a ansiedade de tudo que poderá vir. O presente é apenas um fragmento entre duas eternidades invisíveis.

A escrita é um rascunho do próprio viver, com pequenos fragmentos de pensamentos que se esvaem com o mais sútil sopro de vento, por vezes ocultos em nosso subconsciente. Cada palavra é como um vestígio do que fomos em determinado instante, um eco daquilo que não quis se perder no silêncio. Escrever é capturar o efêmero, transformar o intangível em forma, dar corpo ao que, de outra maneira, se dissolveria no tempo. Assim, cada linha é memória e invenção, confissão e mistério, como se a própria alma buscasse se perpetuar no papel.

Valores se corrompem, o ódio é legitimado, o amor ridicularizado, a fé caricaturada, a família desmantelada e no altar da tecnologia, cultuamos a desconexão humana.

Somos tolos em nossa própria ilusão, atribuindo valor ao que se desfaz com o tempo, dinheiro, status, títulos. Olhamos com arrogância para aqueles que sustentam silenciosamente a vida em sociedade, os que limpam, os que recolhem, os que tornam possível o nosso cotidiano, como se a dignidade fosse privilégio e não essência. No fundo, seguimos apenas rótulos impostos por uma sociedade adoecida, sem perceber que a verdadeira grandeza não está no que se ostenta, mas no que se é.

Diariamente me deparo com a intolerância ao desfavorecido, como se a responsabilidade por uma sociedade enferma não fosse também nossa. A desigualdade não nasce do acaso, ela persiste porque, em algum momento, alguém escolheu rejeitar, excluir, negar humanidade ao outro. E, assim, sustentamos um ciclo em que a indiferença se transforma em norma, esquecendo que toda injustiça social é também um reflexo de nossas próprias escolhas."

Em uma tarde fria de um dia qualquer, vou tentando me reerguer… entre lembranças que insistem em doer e a esperança que, mesmo frágil, ainda teima em permanecer. Cada passo é lento, mas carrega em si o peso da coragem de não desistir.

Existem pessoas que são carniças pulsantes, infestadas de vermes, esquecidas na escuridão do próprio ser. Ao menor sinal de luz em alguém, avançam como pragas vorazes, dilacerando sem piedade até o último resquício de brilho, apenas para ocultar a imundície que as devora por dentro.

Tive uma segunda chance, já atravessei portais invisíveis e experimentei, em minha própria vida, o esplêndido sabor da glória de Deus. Vi rostos iluminados de todas as idades, ouvi louvores que transbordavam amor sincero ao Senhor. Desde então, carrego em minha alma uma saudade profunda do céu, pois sei, com convicção, que para a linda cidade um dia voltarei.

Nunca me coube a sorte de vivências extraordinárias ou feitos que impressionem; se meu diário fosse medido por tais episódios, grande parte de suas páginas repousaria em branco, silenciosa testemunha do ordinário.

Antes, as frases eram fortes, às vezes tristes, mas carregadas de verdade e profundidade, hoje, tornaram-se raridade. Vejo uma enxurrada de palavras feitas apenas para agradar, para ecoar no vazio de mentes que pouco pensam, palavras que satisfazem apenas meia dúzia de analfabetos funcionais. A escrita que outrora feriu, que fez refletir e transformar, hoje se curva à mediocridade, à busca fácil pelo aplauso imediato. Parece que a profundidade se tornou inconveniente, e a verdade, um luxo que poucos se permitem escrever ou ler.

Assim como o homem não é o mesmo ao entrar no rio pela segunda vez, o escritor também muda junto de seus pensamentos. Ao reler opiniões de anos passados, percebo a transformação em minha visão, a evolução da minha percepção. Como as águas do rio, meu crescimento é contínuo, nunca se detém.

O homem se molda à sua realidade. Reclama de uma refeição repetida quem nunca sentiu o estômago vazio por dias. Reclama de seu amor quem nunca dormiu sozinho em um colchão duro, sem abrigo nem abraço. Reclama de acordar para o trabalho quem nunca sentiu o peso da porta fechada do desemprego e o olhar de desprezo da sociedade. Reclama da vida quem nunca enfrentou a violência, a injustiça, a miséria, a fome que corrói ossos e esperança. Reclama de existir quem nunca precisou lutar para sobreviver, quem nunca foi invisível aos olhos de um mundo cruel.

As noites são oficinas pensantes e meus pensamentos são rabiscos que gritam, torturados e sem sentido, como se um cego fosse condenado a tropeçar eternamente sobre os cacos da própria existência.

A melhor oficina é o coração, entregamos alma destruída, sem perspectiva de solução, mas devagar e com perfeição, depois de um certo tempo, ele nos devolve nova, como se nunca tivesse sido quebrantada.

A pior rejeição não vem de estranhos, nem de amigos ou amores perdidos… ela nasce de dentro de nós, quando nos negamos, nos censuramos e nos afastamos do que poderíamos ser.

Tentativa e erro é um conselho sábio, mas apenas quando os erros não iguala o número de tentativas, quando cada falha serve de aprendizado e não de peso, e quando persistir ainda tem mais valor do que temer o fracasso

Estou em uma fase da minha vida em que abri mão de tantas coisas… e percebi que a mais sábia de todas foi abrir mão das discussões, pois percebi que a paz interior vale muito mais do que a vitória momentânea de uma palavra.

Quase não restam lembranças boas da minha infância. Talvez nunca as tenha vivido, ou talvez algo em mim tenha morrido antes mesmo de aprender a ser feliz, deixando apenas um vazio frio onde deveriam habitar memórias e calor.