Tiago de Melo Poesia

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Cansado de ser o pilar silencioso, mas consciente de que, se eu falar, o estrondo do meu desabafo assustaria a todos.

​Perdido entre o silêncio dos ossos secos e o eco de almas vazias, busco no norte o caminho do vento para, enfim, ter o ímpeto de navegar contra a correnteza que tenta me levar de mim mesmo.

Navego o deserto de almas vazias sob a bússola do impossível, pois prefiro o açoite do vento que sopra do norte à mansidão de um rio que me arrasta para longe de quem eu sou.

Sinto saudades de uma versão minha que talvez nem tenha existido, apenas a ideia de quem eu poderia ser antes de tudo.

Meu coração ignora a lógica das despedidas, ele insiste na espera mesmo quando a ausência já virou poeira.

Não estou quebrado, estou apenas saturado: excesso de ontem, excesso de nós e excesso de mim mesmo.

Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.

Não há glamour no sofrimento. O que faço é apenas documentar o naufrágio para que o mar não pareça tão vazio.

A música de Sergei Rachmaninoff não é apenas ouvida, é sofrida em cada terminação nervosa, uma arquitetura de dor e glória onde os concertos para piano se erguem como catedrais de um romantismo tardio e visceral. Há uma beleza quase insuportável na forma como suas notas fortes golpeiam o silêncio, não por violência, mas por uma necessidade urgente de existir, enquanto as mãos gigantescas do mestre costuram harmonias complexas que parecem traduzir o peso de uma Rússia eterna e nostálgica. É um mergulho em águas profundas e gélidas, onde a melancolia se transfigura em virtuosismo, revelando que, por trás de cada acorde denso e cada fraseado melódico que se arrasta como um suspiro de despedida, habita a alma de um homem que transformou o próprio exílio interno em uma das linguagens mais sublimes e devastadoras que o mundo já ousou escutar.

Sou a exaustão com verniz de eloquência. Posso falar bonito, mas o cansaço continua sendo a base de cada palavra.

Abandonei a busca pelo final feliz. Hoje, busco apenas o final honesto, aquele que respeita a complexidade do caminho.

Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.

Meu silêncio é transbordamento, não vazio. É o resultado de sentir tanto que nenhuma palavra parece suficiente para traduzir.

Minhas cicatrizes criaram relevos na minha alma, elas limitam meu alcance, mas definem a singularidade da minha jornada.

Não busco salvadores, busco testemunhas. Alguém que valide minha travessia sem tentar consertar o que é, inerentemente, humano.

A escrita é o meu suporte de vida. Nada romântico, apenas o oxigênio necessário para quem se sente sufocado pelo real.

Sou o somatório de insônias, esperanças remendadas e a vontade absurda de continuar, apesar de todos os prognósticos.

Minha alma tem a textura de uma casa abandonada, onde o vento sopra entre as frestas de memórias que eu deveria ter enterrado.

Escrever é o gesto de quem já compreendeu que o grito não alcança ninguém, resta, então, converter o pavor em grafia. É usar o próprio sangue como tinta para riscar uma saída numa parede de concreto que jamais cederá aos ombros cansados. Cada frase estanca, por instantes, uma hemorragia interna que o mundo ignora enquanto exige sorrisos e produtividade. Sou o náufrago que, em vez de pedir socorro, consome os últimos fôlegos descrevendo a beleza aterradora do oceano que o afoga.

Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino.