Textos do Mundo

Cerca de 18287 textos do Mundo

O Grito da Existência

Minha loucura não condiz com minha sensatez.
Caminho na contramão do mundo,
sozinho, desafiando a ordem das coisas.

Sou louco? Talvez.
Pois poucos ainda derramam sentimentos em papéis,
acreditando que palavras frágeis
tenham o poder de abalar a imensidão da realidade.

Minha sensatez, porém, não aceita a lucidez —
essa tirana impiedosa que me sussurra,
sem compaixão:
o mundo é podre, e sempre será.

E, ainda assim, é a loucura que me sustenta.
É ela quem me obriga a crer
que, mesmo nos detalhes mais insignificantes,
residem fragmentos de bondade, amor, caridade.

Mas a tensão me consome:
quando a sensatez domina,
ela caminha de mãos dadas com a lucidez,
vasculhando as entranhas da sociedade
e só encontrando escuridão.

E, ainda assim, a loucura resiste.
Teima. Insiste.
Se recusa a ceder à desesperança.
Mesmo sob a máscara da decadência,
acredita que ainda há,
por algum fio tênue do universo,
um sopro de bondade.

Então Deus, vamos conversar sem rodeio, sem enfeite.
O mundo está torto.
A humanidade tropeça no próprio ego e chama isso de progresso.
Estão banhados no caos, nadando no orgulho, respirando ganância.
A hipocrisia virou rotina,
a ambição virou oração,
e as mentes vivem inseguras fingindo certeza.
Deus, parece que estamos indo de mal a pior.
Não por falta de aviso,
mas por excesso de arrogância.
O homem já não escuta, impõe.
Já não aprende, confronta.
Já não cuida, explora.
Até a família, que era abrigo, está se desfazendo no vento da indiferença.
Lares cheios de paredes e vazios de presença.
Pais ausentes, filhos perdidos, afetos terceirizados.
Tudo rápido, tudo raso, tudo descartável.
Não te peço compaixão, nem clemência, nem misericórdia.
Peço consciência.
Porque se continuar assim,
a humanidade não vai cair por castigo,
vai despencar pelas próprias escolhas ruins.
Estamos à beira do precipício, Deus,
e o pior: achando bonito o abismo.

Eu nunca te disse.
E talvez nunca diga.
Há sentimentos que não nasceram para o mundo,
apenas para o silêncio seguro do peito.
O nosso romance nunca teve datas,
não teve promessas,
não teve mãos dadas em público
nem futuros desenhados em voz alta.
Mas teve tudo aquilo que importa
quando ninguém está olhando.
Eu te amei em pensamentos.
Te cuidei em silêncio.
Te desejei com respeito
e te guardei como quem guarda algo sagrado.
Enquanto o mundo seguia,
eu te carregava comigo —
nas músicas que doíam bonito,
nos olhares que demoravam um segundo a mais,
nas palavras que eu nunca tive coragem de dizer.
Talvez você nunca saiba,
mas houve alguém que te escolheu todos os dias
sem nunca poder te escolher de verdade.
Alguém que te amou sem tocar,
que te quis sem pedir,
que te deixou ir…
mesmo querendo ficar.
Esse amor não pede nada.
Não cobra, não invade, não prende.
Ele apenas existe —
como um segredo a sete chaves
que o coração insiste em proteger.
E se um dia, sem motivo aparente,
você sentir um aperto doce no peito,
uma saudade sem lembrança,
ou um carinho que parece vir do nada…
talvez seja só esse amor aqui,
quieto, eterno,
te lembrando que você foi —
e sempre será —
inesquecível.

A Guerra, o Amor, e a Paz...
Coisas importantes
Sem serem importadas.
Coisas que todo mundo traz,
Neste mundo de coisas erradas.
Guerra que muitos trazem consigo
Sem ao menos saber o porquê,
E que continuam sem paz de espírito
Sem ao bem querer ceder.
Muitos trazem o Amor,
Que é uma Guerra verdadeira,
E que feito com grande ardor
Vence tabus e barreiras.
Amor dito odioso
Na boca de um povo impiedoso,
Onde a paz consciente
Está sendo grandemente perdida,
Neste mundo incongruente
De coisas vis e inimigas.


(PSR+C)

Não duvides da força que te pode mover para além deste pobre mundo visível!
Quantas vezes não percebeste donde surgiu a ajuda certa, aquela que te tirou do fundo do poço, de um mau caminho, de um vício ou mesmo te livrou de uma má pessoa...
Deus mostra a verdade e nos livra tantas e tantas vezes da ilusão!
E nós choramos em vez de lhe agradecer!
Tantos anjos nos acompanham e ajudam a ultrapassar as provas que temos que passar. Para nosso bem, não nos podem livrar de evoluir e muitas vezes só pela dor alcançamos a sabedoria precisa , para pôr fim a ciclos de vida, mas eles se mantém ao nosso lado para dar força.

Aprendi que nem toda pessoa que conheço é pra virar amigo, nem todo mundo é pra carregar pela vida, nem todo mundo é pra levar pra dentro de casa... E assim também no amor, nem todo mundo é pra levar pra cama, nem todo mundo é pra ficar, nem todo mundo será pra casar!
Há pessoas que amamos tanto mas não são pra casar nem namorar, elas precisam ir, ou se ficarem tirarão nossa paz, ou simplesmente não se encaixarão. É preciso ter sabedoria para tal visão.
Há pessoas maravilhosas que adoraríamos ter como amigos, mas do mesmo modo elas precisam seguir seus caminhos...
Às vezes a pessoa é perfeita, mas apenas praquele momento. Ás vezes as pessoas vêm com um tempo certo para permanecer, um dia se vão, outro retornarão, ou nesta vida não mais nos encontrarão... Mas é assim que é. Poucos são os que vieram caminhar com a gente essa vida toda! A gente tem que vigiar mais a porta do coração e saber quem entra, saber a hora de quem sai, saber a hora de quem volta e se vale a pena deixar entrar de volta. Bill Oliveira William
Wi

Geminiano quer falar com o mundo!

Há vezes que eu tenho
CONVULSÕES
De me pintar de rosa e amarelo
de cantar para o príncipe Charles
de chorar com as crianças da palestina
De estar simplesmente lá
na hora do tsunami
De dar um tapa na cara do ditador da nossa era...
Eu queria que meu poema fosse ouvido
e há vezes que tenho convulsões
de falar com o mundo inteiro
ser ouvido!
Se o mundo me ouvisse, ah!
Eu sou aquela velha tia
gorada
e preta
que sempre tem razão!
E esta ânsia por ter fama
e eu sou do século passado
desencaixado
Eu queria que meu poema fosse ouvido
e há vezes que tenho convulsões
de falar com o mundo inteiro
ser ouvido!
Se o mundo me ouvisse, ah!
Eu sou aquela velha tia
gorada
e preta
que sempre tem razão!
E esta ânsia por ter fama
e eu sou do século passado
desencaixado
Eu queria mesmo era ter ouro no banco!

Manifesto por uma Humanidade Melhor
Se eu tivesse o poder de Deus, eu não criaria um mundo baseado no medo, na competição ou na ganância.
Eu criaria uma humanidade mais honesta, mais consciente e mais comprometida com o bem coletivo.
Acredito que o ser humano não precisa destruir para ter.
A destruição nasce do ego, não da necessidade.
O planeta oferece o suficiente para todos — o que falta é consciência, empatia e responsabilidade.
Criaria seres humanos que entendessem que o futuro importa, que a próxima geração não é um detalhe, mas a continuidade da própria vida. Pessoas que pensassem antes de agir, sabendo que cada escolha de hoje constrói — ou destrói — o amanhã.
Uniria todas as nações, não apagando culturas, religiões ou identidades, mas ensinando que nenhuma diferença justifica a desigualdade.
Raça, cor, religião ou nacionalidade jamais seriam motivo de separação, ódio ou dominação.
Seriam apenas expressões da riqueza humana.
O conhecimento não seria arma de poder, mas herança coletiva.
Tudo o que fosse descoberto serviria para curar, ensinar, proteger e evoluir a humanidade como um todo.
Compartilhar saber seria um dever moral, não uma ameaça econômica.
Neste mundo, ninguém cresceria às custas do outro.
A lógica não seria vencer, mas crescer juntos.
Não competir para excluir, mas cooperar para elevar todos ao mesmo nível de dignidade.
A educação formaria seres humanos mais éticos do que ambiciosos, mais empáticos do que egoístas, mais conscientes do que consumistas. Pessoas ensinadas a ajudar não por obrigação, mas por compreensão.
Porque quando o ser humano entende que o outro é parte de si, a corrupção perde sentido, a violência perde força e a ganância deixa de ser virtude.
Esse mundo não seria perfeito — mas seria justo.
Não seria isento de desafios — mas seria humano.
Talvez não seja preciso ser Deus para criar esse mundo.
Talvez baste que mais pessoas escolham pensar, agir e viver dessa forma.
E é assim que acredito que a humanidade pode, finalmente, evoluir.

Nas bananeiras


Nem um louco esqueceria.
Recuso-me a perder a memória
daquele desvio do mundo, nas bananeiras,
onde o corpo escreveu antes da palavra.


De olhos fechados, reconheço
o caminho da chuva bravia
a rasgar as folhas largas,
o tambor verde da selva
a bater contra a pele.


Ali, os nossos corpos
não pediam permissão ao desejo.
Na tua boca,
um sussurro longo, quente, primitivo,
como se a terra falasse por ti:
“Amor, estou a molhar o meu cabelo.”
E eu, feito bicho cativo,
aprisionado no teu castelo húmido,
habitei os teus jazigos
como quem aceita o feitiço.


A chuva confundia-se com a saliva,
líquido sem nome, sem culpa,
apagava os sinais de luta e entrega
que nasciam no teu corpo nu,
corpo-fruta, corpo-mato, corpo-fogo.
“Amor, estou a molhar o meu cabelo.”


“É sério… vais sentir o cheiro depois…”
E a terra prometida abria-se
debaixo do teu vestidinho breve,
onde as flores são carnívoras
e as promessas mordem.
Ali, o amor era selvagem,
sem templo, sem regra,
apenas carne, chuva e bananeiras.


Daniel Perato Furucuto

*Assine com Excelência*


Em um mundo onde muitos fazem apenas o necessário, destacar-se é uma escolha. Tudo aquilo que você for convidado a fazer de bom faça com excelência. Não apenas por obrigação, mas como uma expressão do seu caráter, da sua ética e da sua paixão.


Cada tarefa, por menor que pareça, é uma oportunidade de deixar sua marca. Uma assinatura invisível, mas poderosa, que diz: “Eu estive aqui e dei o meu melhor.” Essa marca não busca aplausos fáceis nem elogios vazios. Ela é reconhecida por quem entende o valor do esforço genuíno, da dedicação silenciosa, da entrega verdadeira.


A verdadeira conquista não está na validação alheia, mas na meritocracia no mérito de quem se supera, de quem transforma o comum em extraordinário, de quem inspira pelo exemplo.


Portanto, seja qual for o desafio,
abrace-o com coragem, execute com excelência e deixe sua assinatura.


O reconhecimento virá, não como um prêmio, mas como consequência natural de quem escolheu fazer a diferença.


By Evans Araújo

Mulher virtuosa, cadê você quando te vejo e meu corpo inteiro estremece? É como se o mundo parasse só para confirmar que existes.

Meu dengo, meu chamego bom, teu nome é abrigo e teu jeito é calmaria depois da tempestade. Tu és espelho brilhante na sombra, luz que não fere, apenas revela.

Chamego bom, vem me fazer feliz não com promessas, mas com presença. Porque quando és, já basta.

Visionária, libertas o amor da paixão vazia e ensinas o coração a amar com propósito. Em ti, o sentir não grita — ele permanece.

Não quero falar da tragédia do mundo.
Ela já grita sozinha.
É preciso olhar além do caos, além das dores,
além da pressa,
além da ilusão de controle,
além até da esperança.
Não olhar de modo ansioso,
mas com consciência
e profundidade.


Plantas conversam em línguas que não ouvimos, animais atravessam o planeta sem mapas, Águas-vivas ensaiam a eternidade, Peixes vão tão fundo
que a luz fracassa, a arte dá formato a cenários mentais. E mulheres fabricam universos
dentro do próprio ventre.


Como negar
que algo sagrado respira aqui?
Talvez maturidade seja isso:
tentar ver o mundo além da nossa bolha,
além do reflexo corrompido da nossa alma.
Libertá-la.
Conectar-se com os milagres.
Aceitar a própria animalidade.
E lembrar
que não somos feitos só de ambições,
mas de experiências.
— Allan Meraki

A solidão não é ausência.
É presença de si.
É quando o ruído do mundo se cala
e a alma finalmente se escuta.
A solidão não é solidão —
é evolução, força amadurecida, sabedoria em silêncio.
É reconhecer a própria nobreza
sem precisar de aplausos ou testemunhas.
É estar em paz vivendo no caos,
inteiro mesmo quando tudo ao redor se fragmenta.
Quem abraça a solidão não foge do mundo:
aprende a caminhar nele sem se perder.

"Cada pessoa tem o seu mundo ,suas crenças e escolhas como sendo a mais importante para si ,por mais estranho que isso pareça para você ,não tente jamais convence la que ela deve mudar porque você não esta de acordo com as preferências e estilo vida que ela escolheu para si própria ,apenas dirija palavras sinceras a ela .O único juiz que determina quem esta certo ou errado é o TEMPO "

⁠Dentro de nós bate um coração
Caminha entre sonho e razão
Vive neste mundo sempre a buscar
Algo que se perdeu
Ele quer ter, perto de si
Alguém que sempre amou


Sonha com esse dia que virá
Espera olhando tudo acontecer
Chora com as lembranças
Que a ele vem
Feliz será, o amor encontrará
Pra si mesmo prometeu


Esquece por momento sua dor
Fala em poesia sobre o amor
Em uma nova estação
Olha o voo de um beija-flor
Saúda a primavera que chegou,
Tudo está tão feliz, tudo belo está
Com as rosas no desabrochar...


Segue olhando tudo acontecer
Se derrama pra dentro si
Se transborda como quiser
Pois estará, nos seus dias à buscar,
Alguém que sempre amou...

NOSSA FINITUDE


O mundo já não basta em si, ele quer me devorar.
Ele, o mundo, comporta-se como um bicho feroz,
Sedento e faminto...
Eu já não basto em mim e tento devorá-lo, também.
Mas sou tragado, como a parreira lambida pelo fogo.
Assim, deixo-me ser consumido, pois não há porque lutar,
Pois tudo, é o que é! Já percebeu que a força
Do destino que pensamos estar em nossas mãos
É um pêndulo, como uma mão que balança o berço?
Já percebeu que precisamos de fatores externos
Para cumprirmos algo, e que existe em nós
Uma força interna e o desejo de cumprir algo?
Já parou para pensar por que as coisas acontecem?
E como surgem as boas e más ideias e as situações?
De certa forma, muitos pensam que dominam a própria vida,
Sendo que há fatores que sempre nos desapontam
Em todo momento e que somos devorados
Todos os dias por uma grande força motriz
Invisível, sem nos darmos conta da finitude
Que existe de tudo que pensamos entender...
Em algum lugar no espaço-tempo, onde o tempo se dobra,
Na sua infinitude, pode ser que exista
Um eu, um você, tentando alinhar a cronologia do tempo,
Para que as coisas por aqui progridam da melhor maneira possível,
E que o destino realmente faça jus ao seu ofício
E que tenhamos a benção dos deuses como sorte...

DOS RUMOS DO MUNDO TRANSITÓRIO




Como hei de sustentar // minha alma corrompida?
Como hei de conseguir // avançar no meu tempo?
A alma está inquieta: // são tempos transitórios,
tempos muito mutáveis, // onde o mundo me convida
ao grande baile da vida, // em cenário que é tosco,
e que é impregnado // de falsos sofismas.
Eu desci alguns níveis // para tentar compreendê-lo,
e por fim senti // uma enorme compaixão.
Procurei um salvador, // mas o que eu vi foi
a luta de "Eu" // versus o mundo.
O mundo que eu vi // era uma terra arrasada;
não havia ternura // e o colorido era opaco.
Desviei o meu olhar // para a outra banda do mundo,
e vi o caminhar // de um velho sábio que dizia:
"Tudo é pura mudança: // o amor, a paixão,
a integridade // e tudo quanto se toca!"
Eu perguntei-lhe: // "E a essência dos homens?"
A resposta veio forte // como espada de dois gumes!
"A essência," disse ele, // "já vem de outros mundos!"
A turbulência em mim // aumentou e não pude
entender o mundo // das coisas ao meu redor.
Tudo é um cenário // de cartas já marcadas,
e também um teatro // que é simples e barato!
Mas eu segui o meu caminho. // Quem sabe o que virá
nestes novos tempos? // Tempos sombrios de luta,
onde quase tudo // é tão transitório e temporal!
Eu insisto no amor // e na essência do perdão,
pois o que resta é // aquietar a minha alma
e aguardar os tempos // que ainda são vindouros;
sem ter muitas expectativas // para não dar vazão
à negra desesperança. // Hei de combater
de maneira intrínseca, // e afastar o bem precioso
da Vida, com sua essência, // dos rumos deste Mundo
das coisas que transitam // ao redor dos meus passos!
E se eu vier a falhar, // ao menos tentei...

Quando o Mundo Perde a Graça


Há dias em que o mundo se cala por dentro.
Não é ausência de som, é ausência de eco.
O céu continua azul, mas é um azul sem memória,
como se nunca tivesse guardado um grito de criança ou um beijo roubado.
O vento passa, mas não traz cheiro de terra molhada;
traz apenas a notícia de que está passando.
E a gente sente, no peito, um silêncio que não explica.


A graça se perde devagarinho, quase com educação.
Primeiro a gente para de correr atrás do caminhão de gás só para ouvir a musiquinha.
Depois deixa de desenhar corações no vapor do vidro do banheiro.
Um dia olha para o mar e pensa em conta de luz.
No outro, vê uma pipa rasgada no céu e calcula o tempo que falta para a reunião das três.
Crescer, descobrimos, é aprender a traduzir encantamento em utilidade.


A gente vai trocando os olhos de vidro por olhos de adulto,
e o vidro, coitado, não reflete mais arco-íris.
A gente aprende que rir alto é exagero,
que chorar é fraqueza disfarçada,
que dançar sozinho na cozinha é loucura que não se assume.
E assim, com jeitinho, vamos nos tornando pessoas sérias,
pessoas que precisam de motivo monumental para se permitir um sorriso sem destino.


Quando foi que desaprendemos de nos espantar com quase nada?
Quando foi que um passarinho pousado no fio virou mero pássaro,
uma criança fazendo bolha de sabão virou estorvo,
um velho segurando a mão da mulher depois de meio século virou apenas “casal de idosos”?
A gente troca a capacidade de ver milagre pela habilidade de ver problema.
E chama isso de maturidade.


Mas há instantes, raros, em que a cortina se abre sozinha.
Um homem entra no vagão tocando violão desafinado,
cantando com a voz rachada de quem já perdeu muito.
Todo mundo finge que não é com ele.
Até que uma senhora de coque branco e rugas profundas
começa a bater palma fora do tempo,
e canta junto, tão baixo que quase é prece.
De repente o vagão inteiro se lembra de que tem coração.
Alguém sorri sem permissão.
Outro deixa cair uma lágrima que não explica.
E por trinta segundos o mundo volta a ter graça,
como quem volta para casa depois de anos sem endereço.


Nessas horas eu entendo:
o mundo nunca perdeu a graça.
Ele apenas se cansou de oferecê-la a quem já não sabe receber.
A graça continua ali, inteirinha,
escondida no jeito que a luz atravessa a folha da árvore,
no som do portão rangendo como se dissesse “bem-vindo de novo”,
no cheiro de bolo que vem da casa de alguém que a gente nem conhece.


Ela espera apenas um olhar que ainda tenha coragem de ser criança,
um coração que aceite se surpreender sem pedir certidão de utilidade.
Porque a graça não mora nas coisas grandiosas.
Mora exatamente onde a gente desaprendeu a olhar.


E talvez a única revolução possível
seja voltar a se espantar com quase nada,
voltar a correr atrás do caminhão de gás,
voltar a desenhar no vapor,
voltar a dançar na cozinha sem plateia.


Talvez o mundo só volte a ter graça
no dia em que a gente parar de ter vergonha
de ter alma.

A BÊNÇÃO E O CASTIGO DA LUCIDEZ


Viver sem fantasia é ver o mundo sem vaidades e sentimentalismo.


É existir sem o consolo das imagens mentais,sem os espelhos do passado,
sem o teatro das lembranças e seus ideais inalcançáveis de futuro.


Caminho entre silêncio e fatos, presente e gratidão.


Não sonho.
Não recordo.
Reconheço.
A realidade me atravessa crua.
Sem filtros.
Sem refúgio.


Chamam de deficiência o que é clareza.
Chamam de vazio o que é consciência.
O mundo vive do que inventa para suportar o império restrito da hiperfantasia de poucos egoístas.


Eu sobrevivo do que é real.


Ser lúcido é morar entre abismos.
É saber demais e sentir o necessário.
É compreender o todo e ainda carregar o silêncio ao observar o absurdo.


A solidão é real, mas também é o preço da verdade.Quem vê sem ilusão sustenta o peso do céu com as próprias mãos.


A lucidez é um exílio.


Mas é também o lugar da liberdade.
Abençoado quem suporta ver o mundo como ele é e ainda escolhe não se corromper.


Que se entrega ao dever do bem não sofre nas mãos do egoísta vaidoso.

O CÓDIGO DAS APARÊNCIAS, A ELEGÂNCIA DO VAZIO

Nunca fui eu quem viu o mundo de um jeito errado. Foi o mundo que se acostumou a olhar torto e chamar de normal o que o desnutriu.

Sempre observei com calma e clareza as vaidades humanas, essa fé cega nas aparências, esse culto ao tecido, à marca, aparência cara.

Percebi cedo que o tratamento muda conforme a roupa.

Se estou de acordo com o figurino, sou tratado como alguém digno de escuta.
Mas basta vestir o que é confortável, o que é meu, e já sou confundido com alguém menor, sem valor.

O traje é um passaporte social.
Quem veste o uniforme da convenção entra. Quem veste a própria pele é barrado na porta.

O mais curioso é que os mesmos que exigem elegância não conseguem enxergar educação no olhar sincero, nem grandeza em um corpo simples.

Confundem brilho com valor, perfume com virtude, mentira com sabedoria.

E nessa inversão de sentidos constroem o vazio que os engole e consomem seus filhos, vendem status, compram aprovação e chamam o aplauso de propósito.

Tristes dos que vivem da casca, só percebem o abismo quando o chão cede, e o chão sempre cede, porque foi feito de vaidade.

A sociedade adora o disfarce.
É por isso que respeita quem finge e rejeita quem sente. O código das aparências é a religião do vaidoso, onde o espelho é altar e a consciência é silêncio.

Mas há quem se negue a ajoelhar.
Há quem saiba que a roupa não sustenta caráter e que o corpo, por mais enfeitado, não abriga verdade alguma se a alma estiver ausente.

Não é rebeldia, é lucidez.
A roupa que visto não muda o que sei.
A aparência que esperam não define o que sou.

O mundo pode continuar se engomando, eu sigo sendo humano.

Prefiro o desconforto da autenticidade ao conforto de uma farsa bem passada.

Porque, no fim, o corpo fica, a roupa apodrece, e o que resta é o que ninguém viu, a dignidade que sustentou o silêncio, a verdade que não precisou de terno e a coragem de não caber no falso figurino.

Daqui não se leva nem o corpo, muito menos a fantasia.