Texto Pontos Autor Luis Fernando Verissimo
Tenha cuidado com seus pensamentos, pois seus pensamentos se tornam suas palavras. Tenha cuidado com suas palavras, pois suas palavras se tornam suas acções. Tenha cuidado com suas acções, para que suas acções se tornem seus hábitos. Tenha cuidado com seus hábitos, pois seus hábitos se tornam seu carcáter. Tenha cuidado com o seu carácter, pois seu personagem se torna seu destino.
Oi, tudo bem? Espero que sim. Lembra de mim? Você costumava me chamar de amor, vida, minha.. Mas creio que já esqueceu não é? Esqueceu de tudo o que a gente passou, de tudo o que a gente viveu. Mas eu nunca me esqueci. Sabe porque? Porque você era exatamente tudo pra mim, uma coisa fora da realidade. Você me fez criar uma ilusão tão grande, me fez criar expectativas impossíveis que só existia na minha mente. É difícil você ter que esquecer algo que não queira, mas que é necessário para seguir em frente. Quem diria que um dia e teria que esquecer os melhores momentos da minha vida? Acho que não era bem assim.. Você me fez mal, muito mal. Mas obrigada pelas dores, pelas lágrimas, por tudo! Foi isso que me manteve forte e me deu forças pra seguir em frente. Seja feliz.
“Você me tira uma noite de sono, mas não tira os meus sonhos. Você tira a minha a sanidade, mas não me tira a meta. Você me tira o que há de mais bonito, mas não me tira os olhos. Você me tira a realidade, mas não me tira a consciência. Você tira os meus dias, mas não tira minha vida. Você tira um dia para me encher o saco, mas não tira um dia longe de mim. Você tira um sarro das minhas manias, mas não sobrevive sem elas. Você tira minha paciência, mas não tira a minha educação. Por obséquio, se retire. Você tira a minha mesmice, mas não tira a minha alegria. Você tira as minhas palavras, mas até hoje, a maioria das textos são para você. Você me tira a existência, mas não me tira a vida. Você me tira a alegria, mas não tira a mania que eu tenho de me alegrar. Você me tira a saudade, e sempre recompõe-a mais um pouco. Você me tira o chão, mas não me tira as asas. Você me tira a vontade, mas não me tira a esperança. Você tira o sofá da parede, a estante e a televisão da outra, mas não me tira a casa. Você me tira a felicidade, mas não me tira o dom de recompô-la assim que você sai. Você me tira o perdão, mas não me tira a gratidão. Você me tira as lembranças boas e só deixa as ruins, mas não me tira a raiva. Você me tira uma música boa, mas não me tira para dançar. Você me tira desse lugar, mas me leva em um pior ainda. Você me tira o silêncio, mas não tira os pensamentos. Você me tira da sua vida, mas esquece de me tirar da memória. Você me tira da sua casa, mas me mantem no porta-retrato. Você me tira do plano de fundo do seu celular, mas não exclui as mensagens que mandei. Você me tira o brilho, mas não tira a foto salva de nós dois. Você me tira para qualquer coisa, mas não me tira para o seu tudo. Você me tira o perfume, mas não me tira as flores. Você me tira a direção, mas não me tira as estrelas. Você me tira o calor, mas não me tira o sol. Você me tira o frio, mas não me tira o cobertor. Você me tira a tolerância, mas não me dia o “contar até 10”. Você em tira o rumo, mas eu sei que é para frente. Você me tira os pés, mas não me tira as mãos. Você me tira o dinheiro, mas não me tira a inteligência. Você me tira dos seus contatos, mas não me tira do facebook. Você me tira de perto de você, mas não me tira dos seus versinhos. Você me tira dos seus assuntos, mas não me tira dos seus sonhos. Você me tira a vida, mas não tira a mania de ressuscitar. Você me tira as cores, mas não me tira as tintas. Você me tira a sombra, mas não me tira a água fresca. Você me tira da sua música preferida, mas não me tira da que você gostava antes de ontem, você não me tira. Você não me tira para ser, estar e dançar. Você me tira de mim, mas não me tira por inteiro. Você me tira da foto que você mais gosta, mas não exclui a original. Você me tira dos seus dias, mas não acrescenta ninguém melhor que eu. Você me tira da cabeça, mas não me tira do coração.”
Ter disciplina é conseguir obedecer a si mesmo, controlar seus impulsos, superar a preguiça e entender verdadeiramente a importância do que você deve fazer. É, mesmo com tantas opções mais legais do que se fazer, executar aquilo que precisa ser executado e ignorar todo o resto. É saber respeitar o seu próprio crescimento, seu propósito, e agir alinhado com seus objetivos, deixando de lado tudo que é secundário e menos relevante. É executar as tarefas que você se propôs a executar sem se utilizar de desculpas, mesmo que elas sejam verdadeiras.
“Estou cheirando você até a alma. - disse Nando após sua primeira noite com Anita. Existe coisa mais intensa do que cheirar a pessoa até a alma? Sentir cada pedaço do seu mais profundo ser impregnado com o cheiro da pessoa? Saber que não foi apenas seu corpo que foi tocado, possuído, tomado por aquela pessoa. Mas sua alma também. Logo aquela parte mais profunda que você tenta proteger de qualquer dor, qualquer experiência, qualquer contato mais íntimo. Cheirar a pessoa até a alma é, pra mim, um sentimento de submissão total. É se sentir preenchido da pessoa. Necessitado. É não querer mais saber de outro cheiro, se não o dele. É esquecer do seu próprio cheiro e da sua própria essência pra seguir e se possuir do cheiro do outro. É loucura. É assustador. Mas assim acontece.Talvez, mas um talvez de quase certeza, cheirar a pessoa até a alma seja ainda mais profundo, arrebatador e enlouquecedor do que a mais profunda, arrebatadora e enlouquecedora paixão. E como se livrar do cheiro dessa pessoa? Talvez, assim como Anita e Nando, só a morte apague isso. Ou nem ela.”
"Eu sei que tudo entre a gente não passou de um engano, um disfarce mal preenchido, uma nova identidade. Não era pra ser e não foi, simplesmente durou o necessário. Aprendi com os erros e com os acertos também! Fala de coisas que eu fiz, bem, pelo menos eu fiz. Um dia eu vou rodar o mundo e parar do outro lado do campo, onde eu passarei para o time que está ganhando. Não será por muito tempo prometo, mas quando eu for, vai desejar eu nunca ter ido, pois sairei pisando em todos aqueles que acharam que exerciam ordens sobre mim. Irônico não? Um dia você é a presa, no outro, a predadora. Traída pelos mais presentes, socorrida pelos mais corajosos. Sou fogo, sou chama, aquela que arde quando quer e destrói quando pode. Afinal, sofrer é a melhor vingança que se pode ter."
Se você não sair da “Matrix” e ver as coisas como elas são, você não irá acessar o plano casual onde todas as coisas podem ser alteradas porque tudo que você pode ver é o efeito do que você mesmo criou através dos seus pensamentos, crenças, ideologias e todo julgamento que você comprou de alguém e, então, esses pontos de vista criam sua realidade e é por isso que sua vida é da forma que é.
[...]...Me entreguei à você como um pequeno pássaro ligeiramente tímido se entrega ao seu primeiro voo, de azas e coração abertos, com a alma leve sendo guiado pelos ventos de um destino instável, sem medo de ir tão longe a ponto de se perder ou sem coragem de admitir que ficou por perto pela paixão ao lugar. Me entreguei à você inteiramente e deixei neste momento todas as negatividades que poderiam chegar a atrapalhar. Como um pássaro que voa longe pelos céus de caminhos amplos, fiz de você o meu céu e estou voando em você...♪♫
Realmente não sei o que fazer, desta vez é tudo diferente. Desta vez ela não é só mais uma menina, ela é incrivelmente mais que isso. É como se eu olhasse para ela e visse as estrelas naquele vazio e no mesmo espaço tão cheio de mistério. Ela é um doce mistério, doce verdade que desce suave do meu pensamento direto para o meu coração, e eu aceito, aceito viver nesta história louca e inexplicável. Dou tudo por mais um dia, mas um dia nesse romance misterioso, pouco improvável de ser mais um, pouco improvável de ser comum e vivido somente por um. Agora somos nós. Eu aceito, e você?
"Foi numa noite qualquer, a lua estava no céu, cercada por suas estrelas. O vento uivava lá fora. A noite era quente, mas o clima estava gélido. Aquelas palavras já anunciavam que algo ruim viria. E veio. É triste ver um iceberg derreter, ver toda a sua estrutura desabar. Foram necessárias só duas linhas para o iceberg se desfazer em água. Em lágrimas. Não foi forte o suficiente para encarar aquele momento com firmeza, se desfez. Se refez, voltou e encarou o fim. Sentiu o vento frio soprar em seu rosto, seu coração fervia e o fazia tremer de dor. Soluçar diante daquele ardor incessante. Sentia um peso que comprimia seus pulmões, sentia como se amarrassem suas entranhas às suas cordas vocais. Ela disse as piores palavras juntas em uma frase que o ser humano já criou. Eu nunca te amei. Ele disse o que parecia só acontecer em filmes. Vai atrás do que te faz feliz. Pode um homem morrer de amor e continuar vivendo. Pode a dor ser tão forte que afoga qualquer resquício de felicidade que já existiu. Riso frouxo não se ouve mais. A pior parte de sofrer é que não dá pra lembrar de como era antes da dor. Se misturou com a água do mar, se deixou levar pela maré. Derreteu e nunca mais foi o mesmo. É isso que acontece quando um iceberg tenta tocar um vulcão em erupção."
“Eu não sei dizer pra você, nenhuma palavra minha vai ser suficiente pra descrever o tamanho de medo que eu estou sentindo, medo de te perder, medo de não ser tudo aquilo que eu sonhei na sua vida, medo de não poder cumprir todas as promessas que eu te fiz e ser apenas mais um, por que você sabe que eu te amo, e não é a toa que os meus olhos se enchem de lágrimas enquanto eu escrevo isso, e não é atoa que as primeiras lágrimas estão rolando, as lágrimas são como gritos do meu coração, que está desesperado, todos os sentimentos que surgiram de um dia para o outro estão me sufocando, tudo que eu mais queria agora era poder estar no teu colo, te abraçando e dizendo o quanto você é especial e único na minha vida, por que você me transmite segurança, do teu lado eu não sinto medo, mas parece que todos os meus piores pesadelos resolveram me assombrar de uma vez, eu estou tentando ser forte mas não está sendo fácil. Eu não consigo me imaginar sem você mas parece que isso está cada dia se tornando mais inevitável, acho que nós dois sabemos disso. Eu não posso chorar, eu tenho que ser forte, eu tenho que estar feliz, por que eu quero te ver feliz, mas é impossível sorrir em meio a tanta dor, não sou tão forte assim. Sem você, nada mais tem sentido para mim, sem você, eu não vivo por que você é a minha vida. Não se vá, segura a minha mão, a gente prometeu que seria para sempre mas a vida e o mundo todo está lutando contra o nosso amor, sinto que aos poucos os nossos dedos estão se soltando, sinto meu coração sendo rasgado, estão te tomando de mim, a minha felicidade está pouco a pouco indo embora, o que me resta aqui dentro é um grande vazio, a saudade jamais foi tão amarga, e o sentimento de perda, tão dolorido, meu amor, não chora, por que eu vou estar para sempre com você, mesmo de longe, eu vou estar pensando em você, eu te prometo, se você for embora, eu vou pensar todos os dias em você, você é e vai ser para sempre a pessoa que eu mais amei, você é o meu príncipe encantado, que realizou todos os meus sonhos, isso é muito melhor que um conto de fadas, por que você é real, o nosso amor é real, e mesmo que tudo acabe por causa das circunstâncias, e que as pessoas consigam nos afastar, o nosso amor vai estar gravado eternamente dentro dos nossos corações. Meu coração está sangrando, e eu que havia pensado que as minhas lágrimas haviam secado, me enganei, por que elas não param de rolar, o meu coração está gritando desesperadamente por você, a sua ausência me machuca demais, sem você, a minha vida não tem sentido, e se eu te perder, bem, eu não sei o que vai ser de mim.”
O Sol e a lua eram destinados a ficarem juntos, mas eles nunca se viam pois a Lua nasce depois que o Sol parte. O amor deles durou uma eternidade, não aguentando mais ficarem separados, a lua e o sol se encontram 2 ou 1 vez a cada ano, num eclipse, o eclipse mais lindo que toda a galáxia já viu, como prova de que não existe amor impossível.
“Nós vivemos tão obcecadas por encontrar um amor que esquecemos o nosso próprio amor. Vivemos em busca do ideal sem saber o que é ideal. O que sonhamos nem sempre é o que nos fará feliz, já pensou que o inusitado, aquilo que nos surpreende muitas vezes nos faz melhor do que uma mera idealização? Ai, nos frustramos. Por que sonhamos demais. Criamos ilusões, expectativas e desmoronamos quando algumas delas se desfazem, mas não pelo fato de sonharmos, mas pelo fato de colocarmos tal responsabilidade em alguém. De fazê-lo suprir nossas carências, nossos desejos, nosso ego. Queremos muitas vezes aquilo que não tem nada a ver conosco, mas aquilo que precisamos mostrar para alguém que temos, e isso nos afasta do que realmente nos faria bem.”
Como se vai embora de uma pessoa? Onde se compra a passagem? Vai-se de ônibus? Avião? Trem? Ou vai-se a pé tropeçando na vontade tola de voltar? Quantos quilômetros de tempo são necessários para estar longe o suficiente? É preciso viajar até mudar de estado para mudar o estado da alma? Como se vai embora de uma pessoa? Esquecer é sofrer um acidente neste incidente todo que é amar.
Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. (...)
Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.
Terça-Feira Gorda
De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, Iansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.
Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto.
Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.
Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.
Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre pra dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.
Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.
A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilette. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho no mar pra Iemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.
Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.
Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem na marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.
E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.
Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.
Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus - a aids psicológica... Do corpo, você sabe, tomamos certos cuidados, o vírus pode ser mantido a distância. E da mente? Porque uma vez instalado lá, o htlv-3 não vai acabar com as suas defesas imunológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se. Sem isso, não tem graça viver, concorda?
Você gostaria de viver num mundo de zumbis? Eu, decididamente não. Então pela nossa sobrevivência afetiva - com carinho, com cuidado, com sentimento de dignidade - ó gente, vamos continuar namorando. Era tão bom, não era?
Aqui estou eu pensando na ultima vez que nos vimos
Quando o primeiro toque aconteceu era como se já nos conhecêssemos
Seu amor é meu vício
Como isso é possível?
Quero um pouco mais essa noite
Um pouco dessa tua adrenalina
Um pouco dessa juventude
Um pouco de liberdade
Um pouco da sua vida
Quando nasci
saí do ventre de minha mãe
para o colo de Obaluaê.
E desde então
nunca soube o que era a falta
pois nunca nada me faltou
e a falta nunca me fez;
Obaluaê me completou
me embalou
me protegeu
me amou.
E o amor de Obaluaê
foi o mais puro e verdadeiro
que nessa vida pude sentir.
Ele é meu pai.
Ele é meu caminho.
Ele é dono de mim.
Com pipoca e com dendê
ele me cuidou,
nada nunca me pegou.
Uns dizem temê-lo,
eu não!
Eu digo amá-lo.
Silêncio!
O Rei está entre nós.
Atotô!
Pela primeira vez na vida eu estou livre;
Livre para tomar minhas decisões;
Livre para conhecer e desbravar o mundo;
Essa liberdade me liberta.
Dessas correntes que antes me perdiam;
Sempre preso ficava as coisas que não faziam sentido;
Coisas que para muitos os libertam e os guiam.
Nesse sistema a liberdade se diverge, converge;
Não é eternamente imutável, flui um rio de coerência;
Cada um tem sua liberdade, funcionando como uma digital.
Pequeno texto
