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⁠RÚSTICA HORA

A paixão sentida no revés sentimento 
arremessa na alma desditosa e solitária
a infelicidade, sensação desnecessária
além, do amar, este, a mim sem alento

O pranto, a correr, e a sorte ao relento 
vem do acaso, da solidão, do itinerário
que parece trazer consigo um rosário
sem rumo, que na ventura vai ao vento

Tenta, e tenta, lamenta. Olha em torno 
sedento. E o silêncio suspirando lá fora
à meia penumbra, num choro morno...

Do reclamo, o luar alvacento da aurora 
com seu reflexo pálido de um adorno
sofrente, murmura essa rústica hora!

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
06 outubro de 2020 – Triângulo Mineiro
 

Inserida por LucianoSpagnol

⁠CERRADO DO GOIÁS

Quando, a primeira vez, lhe vi a vastidão 
uma confusão fiz de sua sinuosa mesmice
e quedei-me ao parecer de quem visse
e sentisse, o desigual em plena evolução

Depois, no andejar, ao olhá-lo, disse: 
é graça, é sertão na minucia e razão
do encanto, magia, mistério e criação
este chão, tão menino, na sua velhice

Os tortos galhos e secos barrancos 
riscam planícies e maçudo abrigo
e o céu nos seus rubentes e brancos

E, ao aprecia-lo, agora, então digo: 
vendo-lhe, diverso, e seus trancos
hoje o sinto poetificando comigo! 

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
06/10/2020, 20’49” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠NATAL EM SONETO

Um menino, e aquela noite festiva
Noite cristã, natalício do Nazareno
Celebrando os dias do Filho, terreno
Mesa posta, a família, ternura viva

E nesse singelo canto doce e ameno
Minha consagração contemplativa
Pura, reza a confiança na fé ativa
Aos pés do presépio, o amor pleno

Presente em soneto, e em gratidão
Louvores dou, Paz e Bem ao irmão
Noite de confraternização, de luz!

E, ainda que se perca, se inquieto
O coração. O crer sustenta o afeto
Feliz Natal! União em Cristo Jesus!

Inserida por LucianoSpagnol

⁠A UMA DESPEDIDA

Agora, que o final me convida 
A solidão parte do pensamento
Cada suspiro outro sofrimento
Nas recordações sem medida

E, de pareio com a despedida 
Foi-se o bom contentamento
Dentro do leito o tormento
Enfim, dá dó essa dor doída

Pra que era tê-la evocando 
As lembranças, do outrora
Se agora, me falta o crer...

Querer, já quiz, até quando 
Pude ser, e nesta outra hora
Quero amor no bem querer!

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
Outubro de 2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠POETA FUI

Poeta fui e do causar ferino 
Me acariciou a carícia dura
Versei mais dor que ventura
Andei sonhador e peregrino

No devaneio, vivi o desatino 
Amando o que pouco dura
Gozando da decepção dura
Poeta sem charme no destino

Porém, a cada verso, tentei 
Ter o acaso e a doce poesia
Não agonia que não sonhei

Entendo, que versar alegria 
Tem de tê-la. Pouco cantei
Se cantei foi porque sofria

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
09/10/2020, 08’06” – Triângulo Mineiro
paráfrase José de Abreu Albano

Inserida por LucianoSpagnol

⁠DESEJO

Eu quis paixão, pelo amar pleno 
sem ambição dum fatal amado
onde apenas valeria ser ameno
ou talvez aquele algo desejado

Quis me doar, sem ser pequeno 
e desse amor não fosse deserdado
mas, senti na alma o acre veneno
do amor na futilidade ser banhado

E vejo que o amado é, na vida 
aparte, ao que é o escolhido...
a este, tem, uma boa acolhida!

É. Se castigo ou sina, eu digo: 
- que nunca quis ter perdido
Se perdi, é por não ter comigo!

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
09/10/2020, 19’28” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠RESETAR

Na minha paixão otimista e inocente 
eu nunca soube pra onde foi... um dia
a sorte que me preferiu tão prudente
ao sonho perguntei, e ninguém sabia

E numa fúria, manou-se, de repente 
duma quimera expansiva e correntia
para uma áspera ilusão sem cortesia
e a vida suspirou lerda e descontente

E o andejar se foi... e vai distante 
mas o silêncio, um outro instante
chora, mas vai em frente, teimoso

E eu sinto, a emoção, sem tê-la 
De um algo especial e desejoso
É. E nunca é tarde para havê-la!

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
10/10/2020, 10’10” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠ACÚSTICA

O prazer rindo está, está na medida 
Do bom matiz, pintado em mil cores
louvam tarde e manhã os amores
em exímia proporção, feito da vida

O dantes, já na sua eleita despedia 
e fica na alma o perfume das flores
e no coração o desejo, com valores
numa sensação de ventura incontida

O sentimento que no eu pode tanto 
a graça, que pela paixão então arde
lhe tornando leve no haver amador

E, o olhar com afeto nunca é tarde 
Emanando paz e bem, afável canto
Pois, tudo falta a quem falta amor.

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
11/10/2020, 05’55” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠TRAGÉDIA

É a tragédia, bardo, desta vida 
neblina que na manhã embaça
solidão com desleixo sem graça
que na agonia sem dó é erguida

É gemido que na dor favorecida 
por tristuras n’alma em carcaça
um choro, um sonho de fumaça
sulca ufana, e devora destemida

É reza, enfim, que na pobreza 
da fé, numa carência generosa
olha aos céus com certa frieza

Mas ter desilusão, tão gulosa 
na alegria, é prosa sem defesa
ao fado traz frustação furiosa

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
12/ outubro, 2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠PÔS-SE O SOL

Pôs-se o sol... onde a noite tece a teia 
Da treva. E pouco a pouco aí desmaia
A última luz do dia, então, assim caia
Da escuridão que a pretidão incendeia

No horizonte estrelas no céu semeia 
Pela janela a sombra deita na alfaia
O mirar no remoto lúrido cambaia
E a escureza do cerrado encadeia

Com o olhar na lua, rogo levanto 
E, cheio de maculada melancolia
Anoitece, e não prendo o pranto:

Choro de encanto e tal a alegria 
De tão ligeira cena e sem tanto
Em gratidão, por mais um dia!

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
12 de outubro, 2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠TEIMA

Retratar o amor em vão procura 
quem na vida dele sentir não teve
porque um rasto na alma obteve
pois, longo ou breve, há ternura

Todavia eu, ideando, na ventura 
a mínima sorte o destino deteve
sentir o que sinto, nunca leve
no vazio, minha solidão figura

E nestas paixões de boas alianças 
poética redigiu só sofrido pesar
e uma, foi, dentre as lembranças

E, porém, neste suspiroso causar 
do único, nas turronas esperanças
vou amador que cobiça mais amar!

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
13, outubro, 2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠POÉTICA

A poesia na rica imaginação voa 
lançando à terra de um criador
no encanto de encanto povoa
o ilusório de quem é um ledor

No escrito a doce prosa entoa 
o coro de fantasias ao dispor
é a ilusão que a poética doa
ao poeta que vive sonhador

Por ti, devaneio, tudo é certo 
do cascalho grosseiro ao rubi
se o amor, ali, está por perto!

Por ti, inspiração: - se senti 
no prazer, num leve aperto
eclodido num grato frenesi

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
13, outubro, 2020, 13’13” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠Ó SAUDADE QUE PASSAIS

Ó saudade que passais, ao sol poente 
Pela estrada da lembrança, a suspirar
E na solidão vais em uma vertente
Sugerindo o aperto pra nos sufocar

Deixai-me, aqui, assim, indiferente 
O sol que tomba, notando o pesar
O mesmo que já declinou contente:
- na graça, no vinho, no alvo luar...

Deixai! Deixai ir com as cantigas 
Do entardecer, as dores sem fim
E contigo todas as ilusões antigas

Que eu quero dormir no descanso 
Com anso, calmo e que nada digas
Adormecer num voo leve e manso

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
13/10/2020, 18’00” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠PARALELO

Incultos sentimentos ditos pela metade 
manifesto a vossa fiel leitura, ó leitores
e em cada trova a vossos olhos, piedade
lhes digo apenas piedade, não louvores

E neste orgulho, este que é inanidade 
os suspiros, lamúrias e minhas dores
lágrimas de amores e sua imensidade
suportando por uns míseros favores

Se entre minha sorte de nascimento 
encontrardes traços cujo o engano
indique que divaguei com portento

Crede, ledores, que foi do profano 
versado com a mão do fingimento
em um paralelo ao o acaso insano

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
Outubro, 14/2020, 16’54” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠GORJETA

Eu sou aquele que no amor é perdido 
eu sou o que no fado me falta aporte
sou esse da desdita, e nesta tal sorte
sou a contramão, a solidão desmedida

A sombra no meio fio da cara vida 
e que no devaneio perdeu o norte
que fica no vagar num choro forte
rascunhando a chaga tão dolorida 

Sou aquele que no silêncio habita 
Sou pôr do sol sumido, desprovido
Sou aquele que na ilusão orbita

Sou talvez o ideal de alguma dita 
Quiçá a que o rumo me é devido
Quem sabe uma gorjeta merecida

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
15/10/2020, 16’19” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠FAMINTO

Vai, mísero sofrimento esfaimado 
pastar noutra sensação livremente
deixai meu coração de te ausente
faminto, carente, mas imaculado

Não percas tempo, vá apressado 
pois se insiste em estar presente
a paixão do teu olhar pendente
despojo inútil, inútil o passado

Deixai o vento levar, que o leve 
hei de me arrancar do teu nome
e, assim, de ti isento, serei breve

Aqui, piedoso a dor me consome 
nos soluços que o choro descreve
e sem que ventura emoção tome

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
16/10/2020, 16’10” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠PRA QUÊ?

Como quem fica defronte duma cilada 
espantado, sufocado, aí fui deixando
os sonhos pela desmarcada estrada
donde vinha, deveras, caminhando

E a minha alma, de chorar molhada 
então ficava, o peito ali suspirando
me vi, enfim, que chorei pra nada
e pra nada foi que chorei passando

Assim, corroí o poético sentimento 
redigindo a sangue cada caro verso
e num sombrio poetar, tristura se lê

E pergunto em fim ao duro lamento: 
- se ainda terei na vida penar diverso
Pra que sofrer, e o pranto... Pra quê?

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
Outubro,17/2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠ATANAZAR

Viste-me abatido um dia no caminho 
em devaneios de que, nem eu o sei
ó aperto no peito, assim, eu lhe falei:
Cara poesia. Na jornada indo sozinho

Trovei, e rimei, foi por entre espinho 
E em nenhuma postagem descansei
Em cada uma loa que por ela passei
Saudei! Umas até degustando vinho

E neste poetar pedregoso, solitário 
Os pés deplorando em um calvário
Imolado. Eu num canto, no entanto

Ao chorar o prazer em um dejejum 
Tu e eu poesia. Em drama comum
Versejamos com o mesmo pranto

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado 
18/10/2020, 14’13” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠A MESA

A mesa tem seis ou mais cadeiras 
circundada dos lugares
entre conversa e cafeteiras
flores, alimentos e familiares

De fazer parte, dares e tomares
Também, conciliação e, nas beiras
Discussão, brincadeiras, milhares
Silêncio, espertezas e besteiras...

De madeira, ouviu histórias sem fim
louças de cor e brancas marfim
Carregadas de emoções 

Enfim, entre o olhar pueril
E a velhice, lá está ela, gentil
Servindo a diferentes gerações

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
19/10/2020 - Cerrado goiano

Inserida por LucianoSpagnol

⁠O MEU PESAR

Tenho pesar da solidão numa vida 
Da sensação que o carente sente
Dum amor que assim de repente
Sai do querer, e vai de partida...

Da ilusão que da alma é fugida 
Do olhar ingrato frente a frente
Dos que ostentam toda a gente
E os que não aquietam a ferida

Tenho pesar do senso dividido 
De não estar sorrindo à revelia
Contente de um dia ter nascido

Pesar de mim, de quem sofreu 
De não ser mais e mais alegria
E, de ter posposto o meu eu!

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
19/10/2020, 09’36” - Cerrado goiano

Inserida por LucianoSpagnol

⁠ANTES DO ÚLTIMO

Que estros fugitivos me deixou aqui 
No silêncio... e a mim não mais veio
Ilhando a trova sem frescor e asseio
Que me falta, e que por ele me perdi

Em que seda de lacuna me envolvi 
Se hoje parece um sonetar alheio
Com palavras sem zelo, sem freio
E, em qual da imaginação remordi

Achei que fosse meu o teu prazer 
E que no versejar eu fosse te ter
Eternamente, e você... de saída!

Partiste, bem antes do último verso 
E o soneto na imensidão submerso
E a emoção numa saudade perdida...

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
20/10/2020, 14’22” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

O MAIOR REVÉS DO VIVER

Cá dentro da alma de crer ser poeta 
Alma feita de paixão e de imaginação
Sedento de devaneio e de sensação
Quanta coisa, quanta ilusão secreta

Quão querer escrever em linha reta 
E, nas rimas aquela rima sem demão
A certeza do canto certo na emoção
A agnição que desejou ser completa

Porque a dor aberta, o que mais dói 
E também que a tendência destrói
Não é a saudade do outrora perdido

Pois se foi, se suporta, é inevitável 
É bem mais vândalo o irreparável
Do podido viver e não ter vivido!

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
21/10/2020, 09’27” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠A CRISTO NA CRUZ

Os olhos meus pregados nessa cruz 
O vejo, nu, piedade deste que ti vê
Tolerar, tolereis, meu Deus, por quê?
Se ainda somos pecantes, ó Jesus!

Que, pois, fui um dos que não fiz jus 
Ao amor Teu, e da piedade sem crê
O pus na cruz, neste feito do sofre
Cruelmente, fendendo a Vossa luz

Quisesse Vós por nós estar sofrido 
E nós ó Pai, um indócil servo vosso
Na dor Vossa, muito por nós sofreu!

Que, pois, por nós estais revestido 
No pesar, e pagar-vos não posso
Pois a morte Vós por nós venceu!

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
21/10/2020 – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol

⁠AOS PÉS DA CRUZ (soneto)

A Vós submisso vou, braços crucificados 
Nesse calvário sacrossanto da paixão
Receba-me, na Tua elevada compaixão
E, por nos livrar do mal, estais cravados

A Vós, Pai, que pelos pecados fustigados 
Piedade! ... poupe os ceticismos incertos
No Teu perdão, Teus zelos estais abertos
Perdoai nossas falhas, e rumos errados

A Vós, pés encravados, por nos amar 
A Vós, chagas abertas, para nos ungir
A Vós, na dor, e Teu sangue a libertar

Por não nós deixar, nem de nós desistir 
Por ser o filho escolhido, o meu olhar
Aos pés da cruz, aqui estou pra remir...

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
29/07/2020, 11’02” – Triangulo Mineiro
paráfrase Gregório de Matos Guerra

Inserida por LucianoSpagnol

⁠O ACENDEDOR DO DIA (soneto)

Lá vem o sol o acendedor do dia na rua 
Este mesmo, rubro, que vem reluzente
Raiando no horizonte, turvando a lua
Quando o véu da noite se faz ausente

Parodiado a poesia, a prosa continua 
Na energia, na quimera poeticamente
À medida que a luz aos poucos acentua
E a escureza da noite se vai de repente

Encantada evidência que Deus nos doa 
Brilho que doira o dia e ilumina a vida
E que com tal esplendor nos abençoa 

Assim, em nossa alma o amor insinua: 
O bem, a fé, a felicidade a boa acolhida
Que na claridade com a gratidão tatua

© Luciano Spagnol - poeta do cerrado 
30/07/2020, 07’22” – Triângulo Mineiro

Inserida por LucianoSpagnol