Sombra
O desgosto é uma noite profunda da alma,
uma sombra que pousa silenciosa sobre o peito
como se o mundo perdesse, por instantes, a própria cor.
Mas até a noite mais escura
carrega em si o sussurro de uma aurora.
Assim também é o desgosto:
um véu que desce,
não para sufocar,
mas para revelar o que estava invisível na luz.
Ele chega quando a alma está madura o bastante
para compreender o que ainda não queria aceitar.
E no seu amargor, há um convite secreto:
o de voltar-se para dentro,
onde mora um sagrado que não se abala.
O desgosto dobra o ser humano por fora,
mas desperta, por dentro, aquilo que jamais se dobra:
a centelha divina,
o fio luminoso que liga cada coração ao eterno.
A dor, então, deixa de ser ferida
e se torna passagem.
A queda vira caminho.
O silêncio vira oração.
Porque cada desgosto,
por mais duro ou injusto que pareça,
é também um gesto misterioso da vida
guiando-nos de volta ao essencial —
ao que não depende de ninguém,
ao que não se quebra,
ao que é nosso desde antes
de qualquer tristeza.
E quando o espírito percebe isso,
o desgosto não some,
mas se transforma:
vira sabedoria,
vira força,
vira luz que, lentamente,
começa a brilhar onde antes havia apenas sombra.
Muitas vezes enfrentaremos o vale da sombra da morte sozinhos, sem esperança de que alguém próximo apareça com uma palavra de conforto. Nesses momentos, quando o silêncio pesa e a dor parece maior do que nossas forças, aprendemos que não estamos verdadeiramente sós. Ainda que faltem vozes humanas, permanece a presença fiel da Trindade Santa, que sustenta, consola e guia. É nesse vale que a fé amadurece, e a alma descobre que Deus é companhia constante, mesmo quando tudo ao redor parece ausência.
A incompetência
veste-se de desculpas,
erige muralhas
contra a própria sombra,
e espalha culpas alheias
como quem semeia pedras
para jamais colher frutos...
✍©️@MiriamDaCosta
Dentro de mim moram dois sussurros:
um busca a luz, outro abraça a sombra.
Entre a razão e a loucura,
caminho sendo o próprio conflito que me habita.
Onde a Sombra Faz Morada
Há vidas que parecem atravessar o mundo sob um céu que nunca amanheceu.
O destino lhes rouba nomes, abraços e futuros, e lhes da remédios para ser um Porto seguro ,
até que a memória se torne um cemitério onde o vento aprende a sussurrar.
Quem contempla tantas despedidas deveria entender
que toda existência é apenas um sopro, passa tão rapido,
uma chama vacilante que com o menor descuido o tempo se apaga.
Mas nem toda dor gera luz.
Há sofrimentos que, quando alimentados pelo vaidade,
deixam de ser cicatrizes e se tornam correntes;
aprisionam a alma, endurecem a voz
e transformam o julgamento em um altar de esquizofrenia.
É um paradoxo cruel.
Quanto mais a morte revela o valor da vida,
mais alguns insistem em desperdiçá-la medindo as falhas alheias dos outros, para Camuflarem às suas.
Esquecem que nenhum tribunal humano resiste ao relógio,
que toda sentença pronunciada hoje
amanhã será apenas poeira, palavras ao vento repousando sobre o cemitério de silêncio.
A maior tragédia nunca foi aquilo que o destino levou.
Foi permitir que cada perda apagasse, pouco a pouco,
a última centelha de lembranças de amor e, misericórdia vividas
Porque há um abismo mais profundo que o luto:
é sobreviver a tantas apocalipses
e, ainda assim, não aprender a ser guarda-chuva para quem também caminha sob a chuva.
Sombra e luz
Dizem que todos nascem com a semente da sombra, um traço silencioso escondido no fundo da alma.
Mas eu me pergunto por que regá-la, se também carregamos luz?
Caminho entre rostos e gestos,
vendo bondade e crueldade dividirem o mesmo peito.
Há mãos que acolhem
há mãos que ferem
e ambas pertencem à mesma humanidade.
Às vezes me pergunto se realmente pertenço a este lugar.
Talvez eu seja apenas um anjo cansado
não expulsa,
mas enviada.
Não vim salvar nem julgar…
apenas observar
Observar os excessos, a frieza disfarçada de força,
os absurdos humanos, a dor atrás do orgulho, a pressa em ferir, o medo,
a escolha constante entre construir ou destruir.
Se todos carregam a sombra,
também carregam a luz.
E talvez minha existência seja só isso:
lembrar, em silêncio,
que nem toda sombra precisa virar escuridão
"Eu sou o assassino mais sujo.
Eu sou a contemplação de uma sombra no escuro.
Eu sou o vento frio que causa dor na espinha.
Mas no fim sou a regra maquinaria da própria hipocrisia."
"Leve-me para perto da sua sombra
deixe-me sentir o seu cheiro
só esperando a felicidade no amanhã que é passageiro
e lembrando um dia dos seus beijos."
"Há momentos que perdemos até a nossa sombra, tudo fica sombrio e melancólico, mas procure uma luz que sua sobra voltará..."
Quem compartilha a sombra da sua árvore com o irmão necessitado, poderá colher mais tarde os frutos no paraíso
O verdadeiro caminho não é iluminado só por luz que vivifica a alma, mas também pela sombra a dignificar o percurso.
Uma árvore sem raízes profundas não oferece sombra ao viajante cansado. Alimente sua própria terra primeiro, ou você será apenas folha seca levada pelo vento na vida de alguém.
Ó meu ex-amor, a sombra que já não me alcança,
Hoje a brisa que sopra é de um novo amanhã.
Houve dor, sim, mas nela encontrei a esperança,
A força que brotou de uma antiga manhã vã.
Fui teu espelho quebrado, tua voz que silenciou,
Mas a poeira baixou, e a vista ficou clara.
Obrigado por ter me transformado, o que restou
Não é mágoa, é a coragem que em mim se declarou.
Nesta pessoa que eu sou agora, não há vestígio
Daquelas amarras que um dia me prenderam.
O medo se foi, e cada antigo vestígio
De um tempo de trevas, meus olhos já não viram.
Fui casulo em choro, hoje borboleta em voo,
Cruzando horizontes que jamais sonhei tocar.
A tua ausência, enfim, foi o vento que me impulsionou,
E o passado distante não mais me pode assombrar.
Que a vida te siga e que o teu caminho seja,
Eu sigo o meu, com um brilho que só se acendeu.
Agradeço a lição que o teu adeus me legou e teja
A paz em meu peito, um amor que me renasceu.
