So aquilo que Nao nos Pertence e que nos Completa
As Coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.
A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.
As coisas, em si mesmas, não são grandes nem pequenas, e quando nós consideramos que o universo é vasto, trata-se de uma ideia meramente humana.
Os homens medíocres cumprem um importante papel nos grandes acontecimentos unicamente porque não se encontram lá.
Para o homem, apenas há três acontecimentos: nascer, viver e morrer. Ele não sente o nascer, sofre ao morrer e esquece-se de viver.
Suprimir os obstáculos não é dar liberdade, mas sim permitir o desregramento, que conduz à desestruturação, à monotonia, ao nada.
Se o dinheiro fala bem alto, é impossível de não escutar, ele te põe no seu lugar e pode te fazer calar.
“Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?”, perguntou o samurai.
“A quem tentou entregá-lo”, respondeu um dos discípulos.
“O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos”, disse o mestre. “Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo”.
E se nada me pertence, tão pouco preciso gastar meu tempo cuidando das coisas que não são minhas. Faça o mesmo.
Nada me assusta mais do que quem não aprende, mesmo que à própria custa. É uma escuridão que jamais vou entender.
