Sinto o Vento na Janela
"Bom dia, amiga manhã
Ainda quando era ontem
Eu te olhava da minha janela
Eu te via exatamente
Exatamente naquela hora que você pediu
A um bando de pássaros, que cantasse
E hoje eu gostaria tanto de pedir-te
Que você saísse, pra gente brincar
Mas não pra imaginar de sermos nós, manhã e eu
Brincar de ser criança, de ser gente
Brincar de correr, de um jeito que não se corria antigamente
Correr pela manhã até ficar de tarde
Correr pela vida, querida manhã
Fingir de sorrir novamente
Do jeito que a gente sorria
Quando o jeito era correr
Atrás de fazer a tudo que está feito e consumado
Se você quiser sair para brincar de ser passarinho
A gente faz um ninho com um ramo de flores mortas
Num galho da árvore da vida
A árvore da vida torta
Pega aqui na minha mão
Senta aqui do meu lado, querida manhã
Divide comigo meu pão
Existe ali na frente um horizonte alaranjado
Um Sol que arde e vai arder até perto do final da tarde
É sinal que a vida existe, querida manhã
Manhã com cara de manhã tão triste
Divide comigo
Esse fardo de não ser manhã
E de não poder nascer de novo, igual você."
Edson Ricardo Paiva.
Se fosse apenas a vida
E se a gente tivesse só
Que olhar a chuva na janela
Mas tem dias que o ranger da porta assusta
Tem dias que o ranger da porta irrita
E tem dias em que a porta range
Custa um tempo a perceber a falta
das coisas que a chuva trazia
No silêncio a alma grita
Porém, é tão grande esse silêncio
Que nem mesmo a própria alma escuta
Mas ele é assim, tão lancinante
Que eu sei que o próprio Deus garante
A alma o sente
Não nos basta ter de volta aquele tempo
Aquela coisa corroída pela chuva
Um tempo carcomido pelo tempo
Por mais breve ele fosse
Muito ele abrange
Tem dias em que há previsão de tempestade
Se fosse então apenas
Ter que olhar o Sol pela janela
Abrir a porta ao vasto mundo
Perceber que amanhã
Também não trará nada
Nada além de outra manhã
Aquela que desfolha as flores
Ver as pétalas já mortas
Com o vento a levá-las
Todas pra bem longe
Sem cores, sem viço, sem nada
Em cada fim de tarde
O mesmo vento na janela
Aquela velha porta range
Não me assusta, nem me irrita
Me toca à duras penas
Me apenas convida a viver
Como se fosse outro dia de chuva
Sem chuva nova, sem nem mesmo a velha chuva
Apenas chove
Sem as coisas que ela trazia
Ela não trouxe nada
Eu não quero outra vida
Nem aquela de volta
Eu quero essa à distância
Olhar o mundo do espaço
Que um dia, antes da invenção do tempo
Eras antes do cansaço
Era assim que a vida prometeu que ela seria.
Edson Ricardo Paiva.
Nasce o dia na janela
Bela luz que resplandece
Cresce o canto de pássaros lá fora
Poesia infinita pra olhares falantes
Olha o ar com olhar de ouvinte
Um certo manto vem cobrir-me a alma
O momento, o instante, o segundo seguinte
Um mágico nascer de dia
A magia sobrepõe-se à lógica
Transcende ao frio caminhar das horas
Põe as coisas onde estão
Aquece o caminho
Navega o mar sem pressa
Atravessa bem devagarinho todo o ar que me permeia
Se compõe, se sobrepõe, vagueia e aquece
Nasce o dia como a prece que agradece a poesia primeira
Tem que ver como é bonito
Quando o espírito da gente
Volta lá na primeira manhã
Relembra o quente que era
Cada sol que alvorecia e mostrava
Toda gota brilhante
Cada instante percorria a nova primavera
Vivida ou vindoura
Cada lágrima chorada
Pois a vida é nada, se a gente não chora também
Se são elas que douram as lembranças
De todas as dores e alegrias
Noites bem ou maldormidas
Manhãs orvalhadas
São as horas da vida e há de sempre faltar
Vamos sempre carecer daquele mero instante
Irmãos e irmãs, um olhar aos ponteiros
Corre o tempo, passa tudo
O nada, a saudade, a solidão, um sorriso e a gratidão
Nasce o dia na janela, é preciso viver
E se a vida é bela ainda
Cada um de nós precisa ouvir
A voz que tem o coração
Só ela pode dizer.
Edson Ricardo Paiva.
A janela, que hoje range, ainda é a mesma
Aquele arbusto, a jasmineira
A pele, outrora...a pele
O músculo que espasma
A hora, o tempo, a vida, o custo, a espera
Era tudo um sonho, um som que vem
Que nem se fosse um vento, um canto
O pranto desses pássaros
A pele que era tão...e que era tanto
Pensamento vem de algum lugar
Hoje parece ser tão longe quanto o é
Ontem não era
Ontem, uma ilusão
Tanto faz se futuro ou passado
Quando se aprende a olhar no escuro
É triste, não existem corações assim, desertos
Tanto faz se perto ou longe
A janela ainda é a mesma, hoje ela range
O Sol no céu não mudou nada
Coração deserto, todo mundo aqui
Se olhar de perto, olhar por dentro
Por certo quase todo mundo ainda é igual
É como olhar a capa, o livro, há muito o li
A história ainda é a mesma, amarelada
Mas a maneira de entendê-la, não.
A janela, hoje pintada
Imita outra, finge nova
Mas o tempo limita, põe à prova, leva ao longe
Tão longe quanto o é, quanto parece ser
E a janela, outrora aquela, agora range.
Edson Ricardo Paiva.
O quanto eu desconheço o amanhã.
O que ontem
A serena silhueta da janela
Pensava saber
Hoje, a olhando assim, de longe
Aparenta ter certeza que não sabe
O tempo trouxe uma surpresa
Mas ainda não mostrou como se desembrulha
De longe, apenas vejo
A sereninade, que antes não havia
Hoje, apesar de cair com mais facilidade
Tende a demonstrar mais equilíbrio
e menos pressa
Aparenta ter mais fé
e menos crença nas promessas
Chega mesmo a transmitir-me
Uma certa impressão
De que hoje ela até pense, antes de agir
Mas não sou de me deixar levar por impressões
Eu só conheço o tempo, pois conheço o ontem
Eu conheço o tempo e reconheço
O quanto eu desconheço o amanhã
No mais, tudo são só divagações
Que hoje, olho de longe
Eu só conheço o tempo e as coisas que ele faz
As folhas caem, as folhas secam
O tempo trouxe uma surpresa, uma fagulha
O que ainda não se sabe
Somente o tempo sabe o jeito certo
Que se desembrulha
Tudo mais é chama.
Edson Ricardo Paiva.
Estradas de Pedra.
Enquanto a chuva cai
A noite passa e vai pela janela
Pra perto da estrela distante
Na mesma velocidade
Pensamento, instante, vagam
Pedra lisa, estradas sem destino
Que se aprumam
Indiferentes, se acostumam
Vai durar uns meros séculos somente
Durante as tempestades
Quais relâmpagos colidem
Que se agridem pelos ares
Olhares idem pela escuridão que espero
Pra depois, durante as calmarias
Vir buscar-me em sonhos
Pois, durante a madrugada
Não serão jamais pisadas
Vão nascer de novo, sempre vão
No primeiro desvão, por onde invade o sol
Da primeira manhã de alguma infância
Há de ser nova
A primeira manhã de todas as manhãs
Traz consigo o gosto verdadeiro
Do primeiro sol que arde n'alma nascitura
Pensamento, instante, invade
Vai durar uns poucos séculos somente
Indiferente às estradas de pedra
Que foram feitas só pra ser pisadas.
Edson Ricardo Paiva.
Belas horas.
Água de chuva
Parede, pintura nova
Uma ida à janela
Um olhar à rua
As mágoas da vida
Quão belas
eram aquelas manhãs de outros dias
O mundo existia
Aqui, dentro da gente
A julgar pelo olhar a rua
Nada ficou diferente
Por mais que a beleza iluda
Nada ilude eternamente
O que muda é uma coisa que existe
O badalar mais triste
de um ponteiro que acelera
Belas eram aquelas
Horas que passavam todas inteiras
iguais
A parede, a pintura
Alguma coisa pura que existia
e que era mais
Traduzia aquilo que a visão
da água da chuva que caia
Enquanto passava o avião
Um gosto, um sorriso
O linho da mesa posta
A comida do almoço
A vida
Belas eram aquelas
Risadas que compartilhamos
Das horas que não passam mais
Sem que haja um badalar que insiste
em dizer alguma coisa que eu não compreendo
Sim, isso acontece
A chuva às vezes cai ainda
e continua linda
Mas me traz uma mensagem diferente
Quando ela desce
E as imagens que vão surgindo
Não são mais tão belas
Não quanto foram aquelas
Uma ida à janela, outro olhar à rua
E cerrar as cortinas
Outro dia termina pra mim.
Edson Ricardo Paiva
olho pela janela
não vejo o Mundo
vejo parte dele
às vezes eu acho
que simplesmente
nesta parte
eu não me encaixo
haverá outros lugares
outros Mundos
outras épocas
outras vidas
onde minha presença
e pensamentos
normalmente insatisfeitos
seriam normais
e bem vindos?
Será que a vida
é mesmo vida?
o Mundo é concreto?
o tempo, este eu sei
não é continuo
e muito menos reto
será que os olhos
são mesmo as janelas da alma?
ou será que o Mundo
espia-me a alma
através dos meus olhos?
Em frente à minha janela
Tem um gavião voando
Faz um voo tão morno
e voa muito mais bonito
que o avião mais moderno
Sei que é rapinagem pura
mas tudo que Deus Criou
Tem se portado muito bem
eu acho que o gavião tem
é todo direito de estar
voando e rapinar e planar
e voar de novo se quiser
mais bonito que seu jeito
Só existe no Mundo alguém
Que quero ver e não vejo
Eu Só alimento nesta vida
Um desejo
Voar como um Gavião
E voando a procurar
Te encontrar andando
no chão desprotegida
te carregar pro ninho
depois vou te mastigar
Com todo amor e carinho
Olhando pela janela
Contemplo a paisagem parada
da viagem que prossegue
A gente não consegue parar o tempo
Não adianta querer e nem tentar
Escolher o próprio destino
O caminho já estava traçado
Pode parecer que não
E alguém dizer que havia escolha
As folhas não escolhem
A direção dos ventos
Seguindo meu coração
Pois não sou folha
Acabei por seguir a direção
Que alguém traçou
Levou-me pelas mãos
Talvez estejamos todos perdidos
ou os trilhos traçados
estejam seguindo, enfim
pelos caminhos
Que o tempo vai traçando assim
Enquanto passa por mim
Pode ser que eu
traga aqui, nesse coração despedaçado
desde o início
O caminho por onde passa o tempo
mais nada
E é por isso que olho pela janela
e vejo a paisagem parada
Vejo os teus olhos em pombas que por trás da minha janela espreitam, fascinadas já não bebem água drenada pelo a/c do quarto como se lessem o meu pensamento, desejo fervente de comer carne rígida de pomba, abro a janela e azas batem em voos altos para o desconhecido, brincadeira, voltam à janela e matam a sede. Um dia estarão agarradas a minha mão e as tratarei com delicadeza e com muita paixão.
A lua hoje está bela
Esvoaçante prata em lampejo
Posso vê-la da janela
E alegria pulsa áquele ensejo
Foi um ensejo real e tão brando
Te conhecer assim do nada em noite de lua estrelas dançando
Quando o tempo voltar e te apresentar a mim
Visitaremos o íntimo de cada um, a janela da alma é o labirinto olhar profundo e degustador, como a abelha se aprofunda na flor, sem descrever o que vejo e sinto. Sem julgamentos ou zum zum zum. Porque o amor junta o passado, presente e futuro e todos os frangalhos e os torna em UM.
Sentados lado a lado no banco a rodar,
olhávamos o mundo pela janela a passar.
"Que paisagem linda," eu disse sem pensar,
ela virou o rosto, e começou a brilhar.
Olhou pela janela, com um toque de encanto,
"É verdade," respondeu, como um suave canto.
Mas eu, com o coração acelerado, não pude esconder:
"Não falo da paisagem, é de você que falei."
toquei seu queixo devagar,
os olhos dela se fecharam, um sorriso a flutuar.
Naquele instante mágico, tudo parecia parar,
pois a mais bela paisagem era ela a me olhar.
Eu via você por uma pequena parte da janela entre a porta meio aberta e alguns livros na estante do fundo. Como pôde eu me colocar diante de você, que enquanto sorria eu me prendia atento em teus gestos quaisquer sobre a mesa. Entre um livro e outro me encantei, imaginei que pudesse permanecer te olhando sem que você percebesse. Simplesmente hoje foi meu dia de olhar para você.
A humanidade precisa parar de jogar pedras no espelho da Vida, antes que a janela da alma se feche para sempre...
