Silêncio

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"No princípio, o teu beijo era cura — hoje é veneno que me consome em silêncio."








#Binilson Quissama*

Sobre o que diríamos se o silêncio finalmente falasse


Imagine o instante em que o ar se despede de você. Não o ar que entra e sai distraído, mas aquele último fôlego, o que carrega o peso de todos os outros. Quando o corpo entende que já contou sua história e a linha tênue entre o que fomos e o que seremos começa a se romper, o que escapa dos lábios? Não vale o discurso ensaiado, a teologia decorada, a pose de cético blindado pela vida inteira. No último suspiro, a alma fica nua. E ela reza. Mesmo quem nunca rezou, reza, ainda que seja com o gemido mudo de um coração parando. A pergunta não é se, mas o quê.


Qual seria a sua última oração?


Você pediria salvação a um Deus que passou a existência rejeitando? Daria as costas para a coerência de uma vida construída sobre a ausência d'Ele, só para sussurrar, no breu do fim, um "me acolhe" que contradiz cada debate vencido, cada altar derrubado, cada "não preciso" repetido como mantra? Há um tipo raro de coragem que só o desespero concede, ou seria apenas medo cru, disfarçado de fé tardia? Seria justo com você mesmo, com suas certezas cultivadas em terrenos de orgulho, implorar por um colo divino que a vida inteira jurou não existir? Mas quem, na iminência do apagar das luzes, consegue se importar com a justiça poética do próprio orgulho?


E se a prece não fosse por você? Se, na fronteira derradeira, o ego, esse animal ferido que urrava por atenção, finalmente se calasse, e o amor falasse mais alto que o instinto de preservação? Você pediria que Deus cuidasse de quem fica? Abriria mão de qualquer súplica por si mesmo para que o luto da sua partida não os destruísse? "Protege meus filhos. Aquece o colo da minha mãe. Coloca alguém bom no caminho do meu amor. Não deixa que a minha ausência seja um buraco negro na vida deles." Que poder estranho é esse, que transforma o último fio de voz em escudo alheio? A morte, dizem, é o ato mais solitário. Mas a última oração talvez seja o gesto mais coletivo que um ser humano pode ensaiar, o eco de quem finalmente entendeu que o amor é a única posse que não se perde quando se perde tudo.


A pergunta dói porque ela nos despe. Não há como respondê-la da plateia, assistindo à peça do lado de fora. É preciso sentir o ar rareando, o palco vazio, a luz diminuindo. É quando descobrimos se amamos alguém a ponto de fazer da despedida uma entrega. Se a nossa vaidade teológica ou ateísta é maior que a saudade antecipada de um rosto. Se a ideia que fazíamos de Deus era apenas uma roupa que podíamos despir na hora da verdade, revelando uma súplica crua, sem nome, sem forma, mas pulsante como o próprio sangue que está indo embora.


No seu último suspiro, não haverá plateia. Não haverá testemunhas para aplaudir a coerência ou vaiar a contradição. Haverá apenas o silêncio que antecede o mergulho. E, dentro dele, uma pergunta que você mesmo fará, não com palavras, mas com o sumo da sua existência inteira se derramando em um único pedido.


Então, eu lhe devolvo a faca com a lâmina voltada para o peito da alma: qual seria a sua última oração? Não a resposta bonita para postar. Mas o murmúrio que brotaria da rachadura mais íntima do seu ser, quando até o tempo pedisse licença para sair. Pense. Porque a resposta não cabe no agora, mas define tudo o que você está adiando sentir.

Aprende com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar, como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, completa a tua tarefa. Aprende com o silêncio a respeitar a tua vida.

A ordem é um tempo imaginário e cego que usa rios de silêncio para navegar o amanhã na linha tênue da consciência.
Reno Fioraso

"A clareza nasce do silêncio e da observação. Antes de agir, entenda o terreno onde você pisa."

Amo os livros porque, enquanto o mundo faz barulho, eles me ensinam a pensar em Silêncio.

O místico anteviu o declínio da dinastia. O silêncio do gelo siberiano guarda o segredo que os palácios tentaram queimar: curar o herdeiro é, muitas vezes, apressar a ruína do próprio império.
Reno Fioraso

O silêncio muitas vezes faz mais barulho do que a vociferação de uma multidão!

"Que a minha voz continue firme, mesmo quando o silêncio parecer a única forma de me proteger."

Aprenda a sofrer em silêncio, pois, não atrapalha a felicidade e a alegria dos que estão ao seu redor!

O passado não desaparece; apenas aprende a permanecer em silêncio.

O tempo transforma homens em memória e o silêncio em herança.

O silêncio tornou-se insuportável não por ser vazio, mas por transbordar do que foi evitado. É nele que se acumulam as verdades adiadas, os afetos não elaborados, as perguntas que não encontraram coragem. A exposição contínua não busca comunicar — busca encobrir. E, assim, quanto mais se fala, mais se foge; porque o silêncio, quando enfim se impõe, não oferece ausência — oferece encontro.

O tempo observa em silêncio, indiferente às nossas urgências. Cada escolha que acreditamos decisiva é apenas um fio lançado sobre o abismo, e cada desejo não realizado ecoa como sombra de nós mesmos, lembrando que nada nos pertence, nem mesmo a própria esperança.

A mente humana é um labirinto onde o silêncio fala mais alto que as vozes; quem se perde nele descobre que o próprio eco pode ser o mestre mais severo e verdadeiro.

O mundo se dobra sob o peso da indiferença, e mesmo o silêncio parece conspirar contra os que ainda ousam sentir; caminhar por entre ruas e memórias é perceber que cada gesto cotidiano carrega o espectro de histórias não contadas, e que a própria realidade é apenas um teatro onde os sonhos fracassam em segredo.

O silêncio da oração não pede respostas, apenas abre portas invisíveis; e quem atravessa esse limiar descobre que o divino não está acima nem fora, mas pulsa no âmago de cada instante, como um segredo que se revela apenas a quem desaprende o mundo.

O silêncio às vezes grita verdades mais altas que mil discursos eloquentes, especialmente quando vem acompanhado de gestos genuínos de compreensão mútua.

Há noites em que o silêncio pesa mais que qualquer palavra, mas é justamente nesse peso que a alma revela sua costura secreta. Nada no ser é inteiro: vive-se de remendos, pontos mal dados, cicatrizes que desejam poesia. E, quando a consciência aceita essa imperfeição como identidade, algo raro acontece — a dor deixa de ser inimiga e passa a ser a parte do ser que mais sabe a verdade sobre ele.

Há dores que persistem não por falta de superação, mas por excesso de silêncio. O que não encontra palavra desce, infiltra-se, organiza-se em hábito e passa a governar o ser por dentro. Quando a consciência ousa escutar o que foi empurrado para o fundo, algo se desloca: a dor deixa de ser tirana e torna-se mensageira — severa, mas justa.