Silêncio
- Você é perfeita! - disse-lhe ele, um tanto quanto vulnerável.
Ela preferiu o silêncio, enquanto um filme lhe passava à cabeça.
O roteiro talvez seria o mesmo: "the end" para a perfeição quando ela realmente se apaixonasse por ele!
Esperando no parque!
Ainda não chegas!
O parque dorme. E espera, quieto!
O silêncio também...
As pitangas, o riacho, a sabiá,
O joão-de-barro, o tico-tico
Nas árvores esperam...
Mudos, quase mortos, o dia que já vem.
E logo vem!
Sem graça...Mas vem!!
E então... Você também!!!
O riacho canta.
Rouco e bonito!
A sabiá dança, dança!!
O joão grita, grita...
E o tico pula, pula!!
Pedem o sol.
E Deus sorrindo, obedece.
As pitangas envermelham e se oferecem
De graça...com vergonha...
Sem graça de tanta graça!!
Os galhos pendem e se despedem..
Até que voltes...Se é que voltas!!!
Carlos Kau Romano-1993
Curitiba-PR
"Da Janela, o Silêncio"
Por Prof. Cranon
Há algo de profundamente sagrado nas pausas que a vida oferece.
Um instante onde o tempo não corre — apenas respira.
A caneca fumegante repousa, silenciosa, como quem guarda segredos de manhãs que não precisam ser apressadas. O vapor que se eleva desenha no ar uma dança invisível, quase uma prece efêmera, que se desfaz antes mesmo de ser compreendida.
Sobre o caderno, repousa uma caneta. E, mais do que tinta, ela carrega possibilidades. Palavras ainda não ditas, pensamentos por nascer, universos inteiros à espera de um simples gesto de coragem: escrever-se.
Do lado de fora, a vida segue — árvores, vento, luz, sombras e um verde que não se cansa de existir. O mundo não grita lá fora. Ele sussurra. E é justamente nesse sussurro que a alma encontra abrigo.
A janela, aberta, não é só moldura para o olhar. É também convite. Convite para atravessar as paredes invisíveis do hábito, do barulho interno, das urgências que sequestram nossos dias.
Ali, naquele pedaço de madeira aquecido pelo sol, mora um acordo tácito entre o ser e o estar. O ser que contempla. O estar que se permite.
Perceba: não há ruído. Só o som da respiração, do vento que toca as folhas e, talvez, do próprio pensamento sendo reorganizado em silêncio.
O café esfria, o sol se move, o tempo passa — e, paradoxalmente, tudo permanece.
Porque há momentos em que a vida não exige respostas, nem pressa. Só presença.
E talvez isso seja o suficiente:
Uma caneca, um caderno, uma janela aberta...
E a sutil, mas poderosa, decisão de simplesmente... existir.
Indignar-se
é quando o silêncio pesa
mais do que a própria voz.
É perceber que aceitar tudo
também é uma forma
de deixar o mundo pior.
Se deseja que algo dê certo, trabalhe em silêncio. Deus ouve os pensamentos, e o inimigo ouve o que sai da sua boca.
Como uma panela de pressão enterrada sob o mar — mestra em enganar pelo silêncio —, o magma acumula seus gases — até que o eco de Krakatoa faça a terra gritar a fúria do seu poder.
Reno Fioraso
Carregamos nas veias o silêncio de uma terra inteira, onde cada sopro de vida hoje é apenas o eco de uma ausência que decidiu não nos sepultar.
Reno Fioraso
"O Silêncio de Não Ser Pai"
Não sou pai. E há nisso um espaço — não de vazio, mas de eco. Um campo onde o tempo passou, e deixou intacta uma terra que poderia ter sido semeada.
Não ser pai não é ausência de amor.
Talvez, seja amor que não precisou de nome, que não se debruçou sobre berços, mas se espalhou em gestos, em presenças sutis, em silêncios partilhados.
O mundo, com sua pressa de moldar destinos, parece esperar que todos sigam a mesma trilha: encontrar, gerar, ensinar, repetir. Mas e aqueles cujos passos desenham outro mapa? E aqueles que escutam a vida por outros ângulos, sem o riso de um filho chamando pelo corredor?
Às vezes penso: teria sido bonito... Ser chamado de pai com a voz trêmula de uma criança, encontrar meu rosto espelhado em outro pequeno rosto. Talvez um dia. Talvez nunca. E tudo bem.
Há paternidades que não vestem título.
Há frutos que não brotam do sangue, mas do cuidado que deixamos pelo caminho. Já fui abrigo, já fui raiz, mesmo sem ter dado nome a ninguém.
Não ser pai é, por vezes, um caminho mais silencioso.
Mas há sabedoria no silêncio, há paz em aceitar que a vida se desenha também nas entrelinhas. E que o que não foi, ainda assim, pertence ao que somos.
Antes eu era magia,
hoje, sou silêncio.
Antes eu era riso fácil,
hoje, eco por dentro.
Antes eu era chama acesa,
hoje, cinza ao vento.
Antes eu era presença,
inteiro em cada momento,
hoje sou ausência que pesa
no vazio do pensamento.
Antes eu era caminho,
passo firme, sem medo,
hoje me perco em mim mesmo,
guardando tudo em segredo.
Antes eu era mundo,
imenso, vivo, intenso…
hoje, sou só silêncio.
Há no silêncio…
um mundo que grita baixinho,
um espaço onde os pensamentos
ecoam mais alto que qualquer voz.
Há no silêncio…
lembranças que voltam sem aviso,
sentimentos que se revelam
quando ninguém mais está por perto.
Há no silêncio…
um refúgio e também um abismo,
onde a gente se encontra
ou se perde dentro de si mesmo.
E às vezes,
é nele que mora a verdade
que o barulho do mundo
não deixa a gente ouvir.
Não peço.
Não espero.
Constato.
O silêncio respondeu antes de todos.
Aprendi a não pedir.
O vazio é mais previsível.
Nada vem.
Nada falta.
Não dependo.
Não porque sou forte,
mas porque observei.
O silêncio que o homem busca está oculto no Himalaia, um espelho estéril onde o topo do mundo descobre que, para tocar o céu, é preciso dar as costas à própria terra.
Reno Fioraso
No Baú, onde a névoa desenha o silêncio repousa como o último enigma de pedra que o horizonte insiste em contemplar, mas jamais ousará decifrar.
Reno Fioraso
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