Jooh Vitor
Sobre o que diríamos se o silêncio finalmente falasse
Imagine o instante em que o ar se despede de você. Não o ar que entra e sai distraído, mas aquele último fôlego, o que carrega o peso de todos os outros. Quando o corpo entende que já contou sua história e a linha tênue entre o que fomos e o que seremos começa a se romper, o que escapa dos lábios? Não vale o discurso ensaiado, a teologia decorada, a pose de cético blindado pela vida inteira. No último suspiro, a alma fica nua. E ela reza. Mesmo quem nunca rezou, reza, ainda que seja com o gemido mudo de um coração parando. A pergunta não é se, mas o quê.
Qual seria a sua última oração?
Você pediria salvação a um Deus que passou a existência rejeitando? Daria as costas para a coerência de uma vida construída sobre a ausência d'Ele, só para sussurrar, no breu do fim, um "me acolhe" que contradiz cada debate vencido, cada altar derrubado, cada "não preciso" repetido como mantra? Há um tipo raro de coragem que só o desespero concede, ou seria apenas medo cru, disfarçado de fé tardia? Seria justo com você mesmo, com suas certezas cultivadas em terrenos de orgulho, implorar por um colo divino que a vida inteira jurou não existir? Mas quem, na iminência do apagar das luzes, consegue se importar com a justiça poética do próprio orgulho?
E se a prece não fosse por você? Se, na fronteira derradeira, o ego, esse animal ferido que urrava por atenção, finalmente se calasse, e o amor falasse mais alto que o instinto de preservação? Você pediria que Deus cuidasse de quem fica? Abriria mão de qualquer súplica por si mesmo para que o luto da sua partida não os destruísse? "Protege meus filhos. Aquece o colo da minha mãe. Coloca alguém bom no caminho do meu amor. Não deixa que a minha ausência seja um buraco negro na vida deles." Que poder estranho é esse, que transforma o último fio de voz em escudo alheio? A morte, dizem, é o ato mais solitário. Mas a última oração talvez seja o gesto mais coletivo que um ser humano pode ensaiar, o eco de quem finalmente entendeu que o amor é a única posse que não se perde quando se perde tudo.
A pergunta dói porque ela nos despe. Não há como respondê-la da plateia, assistindo à peça do lado de fora. É preciso sentir o ar rareando, o palco vazio, a luz diminuindo. É quando descobrimos se amamos alguém a ponto de fazer da despedida uma entrega. Se a nossa vaidade teológica ou ateísta é maior que a saudade antecipada de um rosto. Se a ideia que fazíamos de Deus era apenas uma roupa que podíamos despir na hora da verdade, revelando uma súplica crua, sem nome, sem forma, mas pulsante como o próprio sangue que está indo embora.
No seu último suspiro, não haverá plateia. Não haverá testemunhas para aplaudir a coerência ou vaiar a contradição. Haverá apenas o silêncio que antecede o mergulho. E, dentro dele, uma pergunta que você mesmo fará, não com palavras, mas com o sumo da sua existência inteira se derramando em um único pedido.
Então, eu lhe devolvo a faca com a lâmina voltada para o peito da alma: qual seria a sua última oração? Não a resposta bonita para postar. Mas o murmúrio que brotaria da rachadura mais íntima do seu ser, quando até o tempo pedisse licença para sair. Pense. Porque a resposta não cabe no agora, mas define tudo o que você está adiando sentir.
