Ruth Rocha Amor
Me deixa ser eu. Me permita ser e estar. Não precisa me proteger tanto assim, eu quero aprender sozinha, e se isso for ruim, não se preocupe, eu posso mudar. Não quero viver uma vida que não é minha. Apenas me deixe descobrir quem sou.
PAUTA
Eu queria fazer um poema
Assim, métrico
Tenso como um fio elétrico
Para que todos os dias
Os pássaros venham
Pousar, cantar.
Eu queria fazer uma música
Na pauta tensa da rua
Para que todos as noites
A lua venha
Tocar, rebrilhar.
QUINTANA
Escrevo olhando para o céu
O papel é da mesma cor azul
Verde, a caneta, da esperança escrita
E também desenho um pássaro ao léu.
Estou curioso por ver a paisagem enfeite
Misturo tons que me arregalam a visão
Buscando sempre as mesmas descobertas
O céu, é inútil querer dar-lhe outros efeitos.
Brinco com a luz incidente na folhagem
Que pinto e bordo, da cor e do cortado
E que propunha, a poesia, enfeita-se
Desses desmandos de nova linhagem.
Ando volátil como o ar rompido
Que acolho e beijo em minhas mãos aos poucos
E me permito voar com ele aos pedacinhos
Aí nessa folha como tenho sido.
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naeno*comreservas
CANTADOR
Às vezes os olhos se entregam
Lembrando momentos de plena dor.
Enquanto o coração segreda
Lindas palavras de amor.
Distante a paisagem dorme
Parada sem nem um brilho
A dizer que o tempo passa
E tudo fica pequeno
É quando a luz
Revela a campina bela
Numa aquarela sem cor.
E as vezes nada toma importância
E do nada se vê uma tela
Preenchida de vazio
Do que veio a não ser falado
Um estio esvaziando a claridade.
Adiante um sabiá
Canta, enchendo o tempo real
De verde tingido o chão
Que anseia pingos de frio
Prefere dormir lá fora
Solando pelas narinas
Em grosso e moderado tom
Cantigas que retoquem a vida.
Naeno* com reserva de domínio
É MESMO ASSIM
Quando tentamos entender a vida
Arriscamos-nos ao precipício de uma estrela cadente
Que perde o seu rumo
E caminha no escuro
Perdida a luz das outras.
Quem ao deslembrar saber de si
Indica a persuasão do alheio
Da vida de outros, quem?
Mergulhado em seu mar longo
Encontra o sentido que os outros navegam?
Sabemos ainda de nós, mas não sabemos do nada
E é ausência o que somos
Quando convictos disto
Conseguimos avistar uma fresta
Ainda incapaz de caber nossa visão
Somos esses passageiros sem rumo
Ciganos do cosmos estrelas desgarradas
Ora estamos em nosso perfeito sentido
Quando nos julgamos errantes
Momentos depois dentro da vida
Convencemos-nos que ela engana.
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Naeno*com reservas
SINAIS DE BELEZA
Solitário, meu modo,
No meio das multidões de faroleiros
Afasta-me, andando para qualquer canto
Que ali marcava o limite entre o que ouço
E o que não mais posso ver.
Um lugar ermo, uma parte da terra coberta
De gramíneas novas
Meus sonhos, minhas fantasias de qualquer dia.
Daí a vista dela por vezes incontáveis.
Ela estranha o povaréu
Fora como todos,
Largada à parte pelo mutirão.
Estava de pé recostada a um tronco morto
E olhava-me.
Era de uma beleza incomum
De olhos negros e um cabelo solto
Fino, puro negrume
O que facilitava a minha visão
Assentar-se sobre o brilho
Ponto feito pelo sol.
Eu era um animal de raça
Que a mirava intensas vezes
Como se figurasse uma bela
Mas perigosa efígie da beleza
Quente alentada, mas, ao mesmo tempo
Sublime e intensamente mulher.
Olhava-a como se a mim
Ela tivesse dado algum sinal
Comunicado algo de seu fulgor.
Já a reconhecera
Já a olhava por toda a minha vida.
Vi naquilo um sinal do meu destino.
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naenorocha*comreservas
EU E ELA
Lá fora o luar continua
Sinal de que as nuvens
Amanhã ganharão um dia.
Mas só amanhã.
Hoje ainda correm frescos
Esses faróis perfurantes.
E o dia e a noite
São de nós.
Eu aproveito a presença da lua
Para ser romântico e lunático.
Uivo como lobo,
Um lobo estático
Sobre um cume quieto
Um cupinzeiro deserto.
Eu aproveito o dia
Para por em dia
A noite indormida,
Dos sonhos com crocodilos
Uma ameaça distante,
Que é só do inverno.
Mas eu antecipo as chuvas,
Para não fazer de dia
O que se mais detesta,
Tomar café,
Sentar no alpendre,
Ir para o almoço
Fazer a cesta.
E quando eu olho
Para o relógio incerto,
Vejo que ainda há tanto tempo
Pra que a noite venha,
E eu me junte a ela,
Amaciando ela,
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naeno*com reservas
TEAR
Enquanto eu faço um poema eu te descrevo
Como se não te conhecesse
E meus olhos prego em ti.
Tudo eu lamento na minha poesia
E tudo sai na alegria de tua boca rindo.
Queres uma prova de amor?
Eu ando sobre as brasas.
A caneta dança uma interminável valsa,
E de nós quem rodopia,
Quem tem a autonomia nos pés
És tu. tutora de tudo o que aprendi.
Enquanto sonho tu acordas
Para fazer de mim teu mimo
Teu cãozinho novo, tua maquiagem.
E eu aprendi o que me ensinastes,
Nunca olvidar aprendi também.
Graças a ti, poesia feita agora,
Minhas verdades de outrora
A vida contigo, pode dizer-se eterna.
Sem ti é tudo um desmantelo.
Enquanto eu teço o verso
Tu urdes em minha cabeça
Um templo de bombardeios,
Das tantas guerras,
Que comemoramos o seu final.
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naeno*com reservas
A BOCA DA LOBA (09)
O que a boca fala
Com a cumplicidade dos dentes
Porteiras de saídas e de entradas,
O coração se atemoriza.
E rebate na palavra, esgrima.
A boca não tem a contensão
Do coração.
De ficar calada,
Quando sente o gosto bom
E ácido que leva o fermento dentro.
Bocas que eu beijei,
E as que só sonhei beijando,
Pintaram-me dentro e fora,
Na alma e na gola.
Com marcas de ferros,
Quando dobraram a minha vida.
Sonho com cada uma
E sofro por todas elas,
Sinto os sabores dessas bocas
Em minha língua provadora.
Ah, tua boca, a minha boca agora.
Puxo pela memória,
Mas eu nunca senti nenhuma
Doce como a tua,
Dos formatos da lua,
Quando está cheia,
Quando declina minguando,
E quando vai se levantando
Pros meus olhos escurecerem.
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NAENO*comreservas
Ai, como eu gosto de ser poeta. E ser homem, andar reto, ter um caminho limpo à frente e atrás. Poder dizer o que sinto, como verdades, sem ferir, fazendo valer o lirismo como didática a que todos aprendam que a vida é boa, que a vida é um ofício, que a vida é para viver não para matar.
Ai, se meus filhos fossem como eu, sonhadores, que perdem ou acham tempo, brincando com as nuvens, contando estrelas, se arrepiando ao ver uma rosa, valorizando os espinhos que a protegem.
Ai, como doeria ser outra coisa, ter outra vida que não esta... Ter a vida em festa quando um velório passa, porque se assenta em minha cara que aquela alma não está perdida. Encontrou-se afinal, lá no édem, nos confins dos céus, ao lado de Deus, onde ferve a verve do cantador, do inventor dos sonhos, do sonho, do sono acordado, da vida pesada leve.
Amo a poesia como amo o melhor de tudo... o que se expõe aos nossos ouvidos quando, duvidosa, ela nos agasalha em seu regaço.Ai vida bela assim, ai ventura sem fim! Ai, agora uma mulher dentro de mim.
SERÃO TEUS OLHOS
Quando me dou frente a frente
Com os teus olhos de louca
Fica a impressão de que vi,
Algo de extremo e pouco
E vou ao delírio, perto
Já da minha loucura
Fico gritando o teu nome
Em aflita amargura.
Se quando olho os teus olhos
E não vejo os meus refletidos
Fixo-me no chão só pra ver
Se os meus não caíram
E de pura dolência
Caio por terra e vejo
Já no fio do precipício
Enxergo e não creio.
Que tu não veja em meus olhos
Esta claridade
aveludada, mas plenas
O que faz a idade
São os teus olhos meus
São só minhas verdades
As tuas eu busco e não conto
Se tenho encontrado.
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Naeno* comreserva
VIDA
Depois que a vida chorou pelos meus olhos
E soprou a minha boca pela boca dela
Temos sido assim amantes barulhentos
Quando em nossas encruzas
Mostramo-nos os dentes.
Depois de fincada no chão uma semente,
Pelas mãos dela, e eu era um silente
Pequeno grão suado em sua mão fechada.
E ali já germinava, eu florava.
Aflora agora uma vida em dormência
Sob os caprichos dos seus pés, fui
Calcado, e transplantado tantas vezes
Por não ser o enfeite pra sua janela aberta.
E eu não pergunto de mim a ela
Não incomodo a dona dos arados,
E o que quer de mim, nessa lavoura úmida?
Que eu chore, que me decline.
Serão meus frutos de sabor ruim,
Que ela não arreda o seu olhar,
E quando eu digo gosto desse canto,
Ela me espanta apontando um outro igual
Faz-se arrendatária, também de mim.
Eu me iludo que com os outros
É mesmo assim:
Por ela transplantados, fustigados,
Enxertados, lavrados.
E que não têm sentido
Os seus caprichos arcaicos.
E terá acertado, e sabe o que faz.
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naeno*comreservas
GINA
Amo, que sinto, desando
Gosto de ter em meus braços
Sempre minha flor dormindo.
Ela é uma obstinação minha
E da roseira ainda pra rachar-se.
Vejo a mulher e me provoca a rosa
Acochado o meu coração.
Primeiro veio o botãozinho,
Logo se abriu num soninho
Minha delicada, tão mínima
Todo diamante é assim.
Porque não haveria de ser
O amor, todo de estimação
E Ela além de ser muito mais que gente
Por aí, chamo meu amor, coração
Só do batente pra dentro
Meu coração a tem nos braços
Pra onde ela pousa subindo,
Amo esta mulher pequenina,
Como já a botei em minha sina,
Amo esse anjo encantado
Amo essa força de cima,
E para que todos sabem
Desse amor que a mim anima
O nome dela confesso,
Eu mesmo não sei qual daria
Mas quando a viram no galho
O mais alto da rosa-mimo,
Já foram logo chamando,
O meu amor, de GINA.
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naeno*comrervas
DESAFIO
O cordão rompeu antes
Que a bolsa desse sinal de tempo
E formou-se um temporal
Um nascimento
De uma nuvem espessa
No quintal.
E caíram mangas maduras
E ficaram marcas nos joelhos
De quem ajoelhado rezou.
E foi um berro enchedor
De alguém que se segurava
E não emergia no poço,
E passaram-se horas,
Passaram-se séculos
Até se decidir,
Se vê depois....
Mas depois era muito depois
Do tempo marcado.
E as marcas em suas mãos
De gladiador,
Já faziam sangue pelo quarto
E nada de querer,
Nada de amar,
Só pelo que via
Debaixo, um buraco.
