Ruído
Afasta-se do ruído do mundo e do clamor de suas próprias preocupações. No silêncio você pode ouvir o sussurro do infinito.
Na escuridao ha sempre uma luz no silencio um ruido e no meu coraçao avera sempre um lugar especial pra te!
A noite despertará monstros adormecidos
O implacável ruído das carpideiras velará sonhos
Acordará morcegos para o banquete de sangue.
O escuro azul do véu que cobrirá a urna
Esconderá as marcas da dor.
O dia ameaçará adentrar as janelas
Cálido em amarelos claros
Com a força que desbota as aquarelas
Fazendo sombras e refletindo nelas
O tormento do sino sem badalos.
Abrira-se morada do sepulcrário
Furdunçará desautorizado o silvestre
Da forma que fizeram os plantonistas de janela
Na vigência ilibada de vida tida como equestre,
Licença concedida pelos céus ao dito salafrário.
Não. Sem bajulações de arautos
Nem piedade de falastrões
Bastará que conste nos autos
Que pela vida abominou as falações.
Estou no vácuo, onde qualquer ruído pode ser um grito ardente e exprimido. Estou no momento de sentir saudades do que eu era, e do que ainda vou ser.
Sem dar aviso
Às vezes as coisas começam
Sem dar aviso
Sem ruído
Sem cheiro
Sem a menor pretensão
E é nas lembranças
Sem motivo aparente
É no sentir a falta
É no aroma inesquecível
E quando nos damos conta
Já nos agarrou pelos pés e mãos
E entrou em nosso coração.
Reconexão
Entre o ruído do mundo e o silêncio da alma,
volto a me ouvir.
Há tempos me perdi nas vozes de fora,
nas exigências, nas máscaras,
e esqueci o som da minha própria respiração.
Hoje, fecho os olhos —
não para fugir,
mas para encontrar.
Dentro de mim há um universo calado,
um jardim que esperava pacientemente
a coragem de florescer de novo.
Sinto o coração pulsar
como um tambor antigo,
lembrando-me de quem sou,
do que já fui,
e do que ainda posso ser.
Deixo o passado repousar,
como folhas secas que o vento leva,
e acolho o presente
com mãos firmes e abertas.
Sou o retorno e a partida,
a cicatriz e a cura,
sou luz que se refaz
toda vez que a escuridão me visita.
Hoje, reencontro meu próprio olhar
no espelho da alma.
E enfim entendo:
a paz que procurei no mundo
sempre morou em mim.
Tem dias em que tudo dentro da gente vira ruído.
Pensamento demais, sentimento de menos, e uma vontade enorme de fugir até de si.
Nesses dias… eu fecho os olhos e falo baixinho:
“Fica, Deus. Fica em mim.”
Porque quando Ele habita,
o caos se aquieta,
e até o que eu não entendo encontra lugar.
Minha alma não quer respostas.
Ela só quer presença.
- Edna de Andrade
O "faça o que eu digo" sem o "veja o que eu faço" é o maior ruído na formação dos filhos.
trecho do livro Lá em casa
Os menos interessantes são aqueles que vivem pelo coletivo e pelo ruído, sem questionar, refletir ou enxergar além do óbvio.
Silêncio Escolhido
Há um instante em que o ruído do mundo se torna mais alto que o próprio coração.
Nesse instante, não é a fuga que chama, mas a clareza: compreender que a vida também exige portas fechadas.
Isolar-se não é negar a existência do outro; é afirmar a própria.
É um gesto de retorno — como o mar que recua antes de criar a próxima onda.
Quem se recolhe não desaparece: transforma-se.
No recolhimento, as vozes externas se dissolvem e surge a pergunta que nenhuma multidão consegue abafar: quem sou eu quando ninguém me olha?
Há quem tema o silêncio, porque nele não há disfarces.
Mas é nesse vazio aparente que se escuta o som mais nítido do ser.
O afastamento não é abandono; é a arte de respeitar a necessidade de repouso da alma.
Voltar — se voltar — é escolha futura.
Por ora, o presente é a pausa.
Um ato de coragem que se escreve com portas fechadas e luz suave,
onde a solidão deixa de ser ausência para se tornar presença de si.
No fim das contas,
a opinião dos outros
é só ruído sem sentido.
Quem xinga por prazer
tem o cérebro menor que um átomo.
A felicidade nasce
quando calamos
a boca dos demônios
lá fora.
Sem propósito, glória é ruído e fortuna é entulho; com propósito, tornam-se alavancas para um futuro coletivo melhor.
© 04 mai.1998 | Luís Filipe Ribães Monteiro
A Bússola Quebrada
Você sente? Esse ruído incessante, essa vibração no ar. É o eco de uma guerra fria que se recusa a morrer, um fantasma que assombra nossas conversas e congela nossas decisões. De um lado, o socialismo. Do outro, o capitalismo. Rótulos. Caixas. E nós, no meio, exaustos de uma batalha que não nos pertence.
Perguntamos "quem é melhor?", mas a pergunta já nasce errada. Enquanto as bandeiras são agitadas, a nossa verdadeira pátria, a "pátria educadora", adoece em silêncio. Nossas salas de aula se esvaziam de propósito, nossos jovens perdem o rumo, e nós continuamos a discutir o mapa, sem nunca dar o primeiro passo.
E se a resposta não estiver em nenhum dos lados?
Então, pare por um instante. Respire. Convido você a fazer um exercício: desvie o olhar das laterais. Ignore a direita, ignore a esquerda. Agora, olhe para a frente. Para o horizonte vasto de possibilidades que se abre quando abandonamos as velhas trincheiras. É lá que devemos procurar as respostas, não apontando o dedo, mas nos perguntando, com humildade: "Onde nós estamos errando? Será que estamos realmente pensando no outro?".
Algo dentro de nós está mudando. Conceitos que pareciam sólidos como rocha, como "moral" e "ética", hoje parecem se dissolver na maré do tempo. A nossa bússola interna parece ter perdido o norte. Clamamos por liberdade, um grito que ecoa em cada esquina, mas talvez estejamos confundindo liberdade com ausência de limites. Queremos ser livres, mas esquecemos que a liberdade floresce na responsabilidade.
É como entregar o leme de um navio a uma criança em meio à tempestade. Ela tem a liberdade de girá-lo para onde quiser, mas não tem a maturidade para entender as estrelas, as correntes, o destino. A liberdade sem sabedoria não é um voo, é uma queda.
Vemos a nobre ideia de uma sociedade que cuida de todos ser confundida com uma permissão para o caos. E vemos a força do capital, que poderia erguer nações, se tornar a ferramenta da ganância nas mãos de quem não tem o caráter para guiá-lo. O poder exige uma alma à sua altura, uma pessoa cuja sinceridade e responsabilidade sejam impecáveis.
Então, chega de olhar para o próprio reflexo. É hora de olhar em volta.
E aqui, a resposta se revela, não na filosofia, mas na pureza da matemática. Imagine a Direita (d) e a Esquerda (e) não como inimigos em uma linha reta, mas como duas forças que partem do mesmo ponto, formando a base de algo novo. Um ângulo reto. Uma fundação. O que acontece quando somamos suas potências? Pitágoras nos ensina:
Onde f é a Frente. O Foco. O Futuro.
A nossa jornada para frente não é a vitória de um lado, mas a resultante da união. É pegar a melhor qualidade de um e a melhor qualidade do outro. A disciplina e a inovação de um lado; a compaixão e o senso de comunidade do outro. Juntos, eles não se anulam. Eles se potencializam, criando um caminho muito mais longo e firme do que qualquer um poderia traçar sozinho.
Vamos parar de travar a guerra dos nossos avós e começar a construir o mundo dos nossos filhos. Juntando o que temos de melhor, para finalmente, e juntos, caminharmos para a Frente.
Em tempos de ruído, sanidade é combinar informação e conhecimento com cuidado e limitar a ação àquilo que controlamos.
©11 nov.2005 | Luís Filipe Ribães Monteiro
