Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra
NÃO VOTE errado, VOTE DIREITO!
EM QUEM?
Claro que você já sabe.
VOTE NELA!…
Não votar, anular é votar errado. Por que errado? pq o voto vai pra quem quer te ver abaixo da linha da pobreza, dependendo da bolsa, do gás, e vivendo enrolado.
QUAL O FEMININO DE DIREITO?
Quem me inspira e a minha mãe e o meu pai que sempre esta do meu lado todo dia e sempre brigando com migo mas eles sabem que eu amo eles mesmo sendo bravos eu amo muito ele
CHAMAS
Como pode alguém amar quem só retribuiu com silêncio?
Porque o amo tão intensamente e ele nem imagina...
Nem imagina que passo o dia me lembrando dos seus olhos,
da sua boca, dos seus cabelos cor de fogo e até do sorriso fofo
e do olhar que faz para mim quando quer me provocar.
Eu te amo, amo muito.
Mas, não aguento mais tanto silêncio e me questiono:
Como pode alguém não me amar?
Você fica aí pensativo, no seu trabalho, nos seus medos, na sua insegurança,
no seu mundo e nos seus flertes...
E eu aqui, te amando apesar do tempo, da distância e das tuas falhas.
Sem pedir permissão para amar sigo te amando como uma luz disposta a ser
tudo o que você um dia sonhou ter como mulher.
Como pode você não me amar?
Meu coração esquenta só de pensar no teu nome.
O choro me engasga a alma só de pensar que podemos nunca mais se
reencontrar e essa é uma dor que não sei se vou superar.
Queria ser o teu tudo, porque você foi alguém que me fez voltar a querer amar.
Porque esse amor surgiu das cinzas, do que nem achava ser mais possível
voltar a desejar.
Mas, infelizmente, não é recíproco.
Estamos em tempos diferentes...ou sei lá mais o que se utiliza como desculpa
para não se viver uma linda história de amor.
Se não me ama, eu me amo, me amo por nós dois.
E agora eu que me fecho para o meu autoamor.
Deixo então, para você, o seu silêncio que foi tudo o que me entregou.
Nunca pergunte quem sou
Não vou saber responder
Hoje sou uma pessoa
E outro ao amanhecer.
Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
13/08/2026
Há quem acorde às seis da manhã disposto a trabalhar, sem imaginar que o verdadeiro desafio do dia não estará nas tarefas, mas na imprevisível cartografia das limitações humanas que dividem o mesmo espaço e, ainda assim, tornam a convivência alheia mais desmotivante pela própria vaidade.
Quem sustenta a verdade, mesmo quando ela lhe custa, preserva a consciência; quem a abandona para preservar conveniências, perde muito mais do que aquilo que pretendia salvar.
Para quem não sabe... Lázaro é considerado o mártir dos pobres, mendigos e injustiçados socialmente. Leproso, apenas os cães de rua o acompanhavam. Sua história é marcada pela extrema pobreza, servidão e humildade, além de sua imensa FÉ inabalável e sua luta pelos mais necessitados e esquecidos pela sociedade.
... E me proteja de todo o mal...
O que seria da ciência sem Deus???!!!
É Deus Quem guia a mão do médico, Quem inspira, Quem revela segredos ocultados com o pecado de Eva.
O ser humano apenas possui ínfimos conhecimentos.
Somos limitados.
Jamais alcançaremos a sabedoria divina sem a graça de Deus.
Adoro amar a vida, porque o afeto é o que nos amarra à existência. Tenho pena de quem parte sem ter contemplado as belezas mais sublimes da Terra, e inveja de quem continuará por aqui quando eu me for
Crianças são especiais para quem ama a infância, pois proteger essa fase é a melhor missão que um adulto pode ter. Fica a dúvida: quem cuida de quem? O adulto cuida da criança ao dar atenção, limpar a roupa e defendê-la de quem é ruim. Mas a criança também cuida do adulto com um abraço sincero e com as palavras exatas que a gente precisava ouvir. É uma troca de ajuda e de amor. Diante de tanta pureza, é difícil entender por que existe quem queira fazer o mal contra elas, mas o futuro sempre cobra o preço de cada ato. Cuidar de uma criança é proteger o que há de melhor no mundo.
A infância é a melhor coisa para um adulto cuidar. Mas afinal, quem cuida de quem?
O adulto ajuda a criança limpando a roupa, dando atenção e defendendo do mal.
A criança ajuda o adulto com um abraço e com as palavras certas que a gente precisava ouvir. É um ciclo de amor e proteção. É impossível entender por que algumas pessoas escolhem o caminho do crime contra tanta inocência. Mas o futuro e a vida cobram o preço de cada ato.
Quem ama a infância sabe: proteger uma criança é salvar o próprio coração.
Se alguém pensa que os textos que publico são indiretas, sermões ou broncas para quem me acompanha, está olhando para o lugar errado. Eu escrevo sobre mim. Cada linha é uma confissão, uma prestação de contas que faço diante do espelho quando a madrugada já expulsou todas as desculpas.
Mas há algo mais aqui — uma segunda camada de confissão, mais silenciosa e mais desconfortável: a percepção de que existir não é estar parado, mas estar em travessia.
Eu não começo essa viagem — ela já está acontecendo quando percebo. E isso muda tudo o que eu acreditava sobre controle, direção e destino. A imagem da Terra como uma nave não é futurismo nem metáfora científica; é apenas a forma mais honesta que encontrei de olhar para o fato de que nada em mim, nem fora de mim, está fixo.
Escrevo como quem revisita a própria vida como uma casa abandonada. Abro portas que preferia manter fechadas. Encontro erros mofando nos cantos, covardias escondidas atrás de boas intenções e verdades que sempre estiveram ali, enquanto eu insistia em olhar para outro lado. Escrevo porque preciso organizar esses escombros antes que a cortina se feche. O fim não avisa o dia nem a hora. Apenas chega.
E no meio disso tudo, percebo que a ideia de “vida” muitas vezes foi apenas um nome mais confortável para o movimento. Uma tentativa de fingir estabilidade onde só existe deslocamento contínuo.
Não há um ponto de partida claro. Não há um retorno verdadeiro. O que chamei de começo e fim sempre foram apenas pausas dentro da mesma travessia. E aquilo que chamamos de “eu” talvez não seja mais do que o rastro momentâneo dessa viagem, algo que existe enquanto se move e desaparece quando tenta parar.
A *juventude acredita que sabe*. A idade descobre que quase nunca soube. Só o tempo nos concede a crueldade da lucidez — essa clareza de que muitas derrotas poderiam ter sido evitadas, mas também de que sem elas talvez nunca enxergássemos nada com precisão.
Há quem passe a vida tentando preservar a pele, o coração e a alma de qualquer cicatriz. Mas essa cautela não compra um minuto sequer. Não impede a travessia. Apenas reduz o que poderia ter sido vivido a uma forma mais leve de ausência.
Eu não escrevo para ensinar ninguém. Escrevo porque preciso encarar o fato de que estou dentro do que descrevo. Não há fora.
E se vou partir marcado, que seja. Que minhas rugas contem histórias. Que minhas cicatrizes denunciem os lugares onde a vida — ou melhor, onde essa travessia — me atingiu em cheio.
Prefiro carregar o peso de ter vivido ao vazio de ter apenas sobrevivido.
Eu fico olhando as árvores.
Elas perdem as folhas como quem perde dinheiro no bolso furado — sem drama, sem explicação. O vento leva, o chão recebe, e mesmo assim elas continuam de pé. Não imploram. Não negociam. Não fazem discurso sobre “resiliência” em rede social.
Elas sabem.
Sabem que não é perda. É troca.
A gente é que esquece disso e chama tudo de fim.
O homem se agarra no que já morreu dentro dele. Relacionamentos, ideias, versões antigas do próprio nome. Segura com força, como se a mão fechada pudesse impedir o mundo de girar.
Mas a árvore não.
Ela deixa ir.
E talvez seja isso a coisa mais próxima de liberdade que existe: não confundir queda com morte. Não confundir mudança com derrota.
As folhas caem e ninguém pede desculpa.
O tronco continua.
E de algum jeito que ninguém explica direito, isso ainda é vida.
O sujeito da mesa ao lado bebia como quem carregava um funeral dentro do peito.
Não havia enterro algum.
Só um ego grande demais para caber na cadeira.
Batia o copo no balcão com força suficiente para avisar ao mundo que sofria. Achava que o silêncio do bar era respeito.
Não era.
Era apenas gente ocupada demais tentando sobreviver para desperdiçar atenção com a tragédia particular de um desconhecido.
Pedi outro uísque.
A garçonete nem olhou para mim.
Nem para ele.
Estava cansada.
Os pés doíam.
O aluguel venceria na segunda-feira.
Mas aquele sujeito sairia dali convencido de que a indiferença dela era mais um capítulo da sua epopeia sentimental.
As pessoas têm um talento extraordinário para transformar o universo em um espelho.
Se chove, é contra elas.
Se alguém vai embora, é por causa delas.
Se um estranho não sorri, já imaginam um julgamento.
Se a mulher demora a responder, escrevem um romance inteiro antes do café esfriar.
Nunca lhes ocorre a hipótese mais ofensiva de todas:
Talvez ninguém esteja pensando nelas.
É engraçado.
Ele acreditava ser o protagonista.
Mal conseguia um papel de figurante.
Olhei para as mãos dele.
Tremiam um pouco.
Não pelo álcool.
Pelo medo.
O medo de descobrir que sua dor era comum.
Nenhuma dor gosta de ser chamada de comum.
A cidade inteira estava cheia de homens iguais.
Sentados em bares diferentes, convencidos de que eram a obra-prima da própria desgraça.
O mundo, porém, nunca teve vocação para plateia.
Continuou girando com a indiferença impecável de quem jamais prometeu assistir ao espetáculo.
Sorri.
Não dele.
De mim.
Porque, anos antes, eu também fazia discursos silenciosos para um copo de uísque, esperando que o teto, a fumaça ou qualquer divindade escondida no mofo do bar confirmasse que o universo tinha uma implicância particular comigo.
Demorei muito para descobrir a verdade.
O universo nunca soube meu nome.
E isso, estranhamente, foi um alívio.
O pior é que aquele homem nem podia ser culpado por completo.
Nem eu.
Você não escolhe nascer.
Não escolhe quem lhe ensina o medo.
Não escolhe a primeira humilhação.
Não escolhe o cérebro que insiste em acordá-lo às três da manhã para reabrir feridas antigas.
Nem escolhe o corpo que, um dia, começa a enferrujar sem pedir licença.
Recebemos tudo isso como quem herda uma casa velha.
Telhado furado.
Canos estourados.
Paredes rachadas.
E uma conta que nunca fecha.
Depois batizamos a herança de "eu".
Como se tivesse sido construída pelas nossas próprias mãos.
Que piada.
Boa parte do que chamamos personalidade é apenas a cicatriz tentando convencer a pele de que nasceu desenho.
O homem terminou a bebida.
Vestiu o casaco.
Foi embora acreditando que aquela noite havia sido escrita especialmente para ele.
A noite não percebeu sua partida.
Nem o bar.
Nem a lua.
Nem os carros.
Apenas a cadeira vazia permaneceu onde sempre esteve, esperando outro infeliz disposto a acreditar que o mundo acompanha seus pensamentos.
Acendi um cigarro.
O gosto era horrível.
Como sempre.
Continuei fumando.
Algumas coisas não melhoram.
Você apenas se acostuma.
Foi então que compreendi por que envelhecer cansa tanto.
Não é o peso dos anos.
É o esforço ridículo de sustentar um personagem chamado "eu", quando a vida inteira está ocupada demais para aplaudir a atuação.
Ainda assim, amanhã eu acordaria.
Pagaria contas.
Escreveria alguma coisa.
Talvez amasse alguém.
Talvez errasse de novo.
Porque a única maneira decente de atravessar este desastre é cuidar da própria vida como se tudo dependesse de nós...
...e aceitar, entre um gole e outro, que quase nada depende.
*O QUE A RAIZ SABE*
Às duas da madrugada eu acordei com aquela sensação desagradável de quem não tinha dormido direito, apenas tinha perdido algumas horas. Fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro. O silêncio não era exatamente silêncio. Havia um carro passando longe, um motor qualquer insistindo em existir, e os grilos fazendo seu trabalho de sempre, como se a madrugada ainda tivesse alguma importância.
O gato estava ao lado da minha cabeça. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois levantou uma das patas e colocou-a sobre a minha testa. Talvez fosse carinho. Talvez fosse um aviso. Talvez estivesse apenas tentando me mandar de volta para onde eu deveria estar.
Não funcionou.
Levantei.
Fui até a varanda e acendi um charuto. Eu já sabia que o sono não voltaria. Quando a cabeça decide andar pela casa às duas da manhã, não existe travesseiro capaz de fazê-la parar.
O gato veio atrás.
Parou na porta da varanda e ficou me olhando. Parecia querer dizer: volte para a cama, homem. Você já tem idade suficiente para saber que pensar depois da meia-noite nunca termina bem.
Ignorei.
Fiquei ali, fumando, ouvindo os grilos cantarem na boêmia da madrugada e alguns veículos atravessarem a distância. A cidade dormia. Ou fingia.
Comecei a pensar nas imagens que a gente carrega.
Não nas fotografias.
Nas outras.
Aquelas que ficam dentro da cabeça.
A imagem de quem fomos. A imagem de quem deveríamos ter sido. A imagem que alguém criou de nós e que, por alguma razão estúpida, decidimos acreditar.
Talvez uma parte da nossa desgraça venha daí.
Passamos anos tentando caber numa fotografia que já não existe.
Olhei para a fumaça do charuto.
A fumaça desaparecia.
Pensei que nós também fazemos isso.
Só que demoramos mais.
A gente passa a vida tentando ser reconhecido. Quer aplauso. Quer aprovação. Quer que alguém diga que valeu a pena. E quando isso não acontece, começamos a acreditar que fomos derrotados.
Mas talvez não exista derrota.
Talvez exista apenas a necessidade de encontrar um lugar onde ninguém esteja distribuindo medalhas.
Um pedaço de chão.
Qualquer um.
Mesmo escondido.
Porque às vezes tudo o que você precisa é parar de disputar o lugar onde os outros foram coroados.
Fincar os pés em outro lugar.
E ficar.
Pensei também naquilo que nos alimenta quando tudo dá errado.
Não estou falando de grandes discursos.
Às vezes é uma lembrança da mãe.
Um café.
Um abraço que aconteceu há vinte anos.
Uma conversa idiota que, por algum motivo, ainda mora na memória.
É estranho como a vida consegue nos manter vivos com coisas pequenas enquanto o mundo inteiro insiste em vender soluções enormes.
Talvez sobreviver seja isso.
Aprender novamente o tamanho das coisas.
Uma respiração.
Um copo d’água.
Um cigarro.
Um gato colocando a pata na sua testa às duas da manhã.
Não parece muito.
Mas, quando tudo desaba, quase nada parece muito.
E ainda assim é o suficiente para atravessar mais uma noite.
A graça também não é gentil o tempo inteiro.
Essa é outra mentira que contamos para nós mesmos.
Às vezes a vida acolhe.
Às vezes ela bate.
Às vezes ela simplesmente passa por cima.
Há coisas que não se resolvem com frases bonitas. Há perdas que não ensinam nada. Há abandonos que não escondem nenhuma lição. Há pessoas que vão embora e deixam apenas um espaço vazio onde antes havia rotina.
E você fica olhando para aquilo.
Esperando alguma explicação.
Ela não vem.
Então você aprende a respirar sem ela.
Foi aí que pensei nas chances.
Elas raramente chegam em horário conveniente.
Quase nunca batem na porta.
Algumas aparecem quando você está cansado, quebrado, desconfiado, com o coração fechado e uma lista enorme de motivos para dizer não.
E talvez esse seja o problema.
A gente espera estar inteiro para começar de novo.
Só que ninguém está inteiro.
Não depois de certa idade.
Depois de algumas perdas, algumas traições, alguns funerais e algumas noites mal dormidas, você descobre que inteiro é uma palavra para quem ainda não prestou atenção.
O que resta é o que interessa.
Aquela parte que sobreviveu.
É dali que você tira alguma coisa.
Não porque a dor seja bonita.
Dor não é bonita.
Dor é dor.
Mas às vezes ela deixa alguma coisa escondida.
Uma habilidade.
Uma lucidez.
Uma coragem que você não sabia que tinha.
Um tipo de ouro ordinário, desses que não servem para comprar nada, mas servem para lembrar que você ainda está aqui.
O problema é que também carregamos nossas próprias imagens como condenados.
Repetimos insultos antigos.
Vozes de pessoas que já foram embora.
Frases ditas por quem nunca nos conheceu de verdade.
Você é isso.
Você não consegue.
Você nunca vai mudar.
Você não é suficiente.
E, depois de algum tempo, nem sabemos mais quem disse.
Somos nós.
A voz foi incorporada.
Virou morador.
E continuamos pagando aluguel para ela.
Talvez seja preciso expulsar algumas imagens.
Não esquecer.
Expulsar.
Porque aquilo que você repete todos os dias acaba parecendo verdade.
E algumas verdades são apenas feridas com boa memória.
O charuto estava quase no fim.
O gato continuava na porta.
Agora parecia menos paciente.
Olhei para ele e pensei que os animais talvez tenham entendido alguma coisa que nós complicamos demais.
Eles não ficam tentando justificar a existência.
Eles dormem quando têm sono.
Comem quando têm fome.
Vão embora quando querem.
E, quando gostam de você, simplesmente ficam.
Nós transformamos tudo em contrato.
Até o afeto.
Até a saudade.
Até o abandono.
Quando alguém parte, queremos explicações.
Quando alguém fica, queremos garantias.
Quando tudo termina, queremos saber por quê.
Mas o rio não explica por que seca.
Ele apenas seca.
E talvez algumas pessoas sejam assim.
Elas atravessam a nossa vida, deixam alguma coisa, levam outra e desaparecem.
Não é justo.
Nunca foi.
Então chega a hora de quebrar.
Não necessariamente por fraqueza.
Às vezes quebrar é a única maneira de deixar alguma coisa ir embora.
A gente segura tanto que começa a confundir apego com amor.
Não é a mesma coisa.
Amor sabe partir.
Apego exige cadáveres.
Fiquei olhando para a rua vazia.
Pensei no medo de esperar.
A espera é cruel.
Ela coloca você diante de si mesmo sem distração.
Sem barulho.
Sem pessoas.
Sem a próxima novidade.
E talvez seja justamente ali que estejam os tesouros que ninguém encontra porque ninguém suporta ficar tempo suficiente no escuro.
A gente foge.
Liga a televisão.
Abre o celular.
Procura alguém.
Procura qualquer coisa.
Tudo para não ficar sozinho com a própria cabeça.
Eu também fiz isso.
Muitas vezes.
Talvez ainda faça.
Mas naquela madrugada eu estava ali.
Sem fugir.
E percebi uma coisa desagradável.
A vida não estava me devendo nada.
Nem explicações.
Nem reparações.
Nem um final bonito.
Ela simplesmente continuava.
O mundo continuaria girando depois de mim.
Os grilos continuariam cantando.
Os carros continuariam passando.
Alguém estaria beijando alguém.
Alguém estaria chorando.
Alguém estaria nascendo.
Alguém estaria morrendo.
E nada disso pediria minha autorização.
Talvez maturidade seja aceitar essa humilhação.
Você não é o centro.
Nunca foi.
Mas isso não significa que sua vida não tenha valor.
Significa apenas que você precisa parar de esperar que o mundo confirme isso.
A Terra continua.
Ela parece cansada.
Mas continua.
E talvez ainda queira ser tocada.
Não com discursos.
Com presença.
Com verdade.
Com coragem para sentir novamente aquilo que você passou anos tentando anestesiar.
Inclusive a partida.
Porque todo recomeço cobra alguma coisa.
Às vezes cobra uma pessoa.
Às vezes uma versão antiga de você.
Às vezes uma esperança que já estava morta e você ainda carregava como se fosse viva.
Eu terminei o charuto.
O gato continuava olhando.
Talvez fosse hora de voltar.
Talvez não.
Fiquei mais alguns minutos.
Pensei nas raízes.
Elas não são bonitas.
Ficam enterradas.
Ninguém fotografa uma raiz.
Ninguém elogia uma raiz.
Ela trabalha no escuro.
Aguenta a terra.
Encontra água onde parece não existir nada.
E, se tiver sorte, algum dia aparece uma flor.
Talvez seja isso que nos resta.
Não tentar parecer flor o tempo inteiro.
Aceitar a raiz.
Aceitar o escuro.
Aceitar a parte de nós que ninguém vê e que talvez nem nós mesmos gostemos muito.
Porque pode ser justamente ali que alguma coisa esteja começando.
Não uma versão melhor.
Não uma versão perfeita.
Apenas uma versão verdadeira.
Olhei novamente para o gato.
Ele virou e voltou para a cama.
Sem discurso.
Sem terapia.
Sem conclusão.
Fui atrás.
A madrugada continuava lá fora.
E, pela primeira vez naquela noite, não precisei que ela me dissesse nada.
Eu já tinha entendido.
Algumas coisas precisam morrer.
Algumas precisam ser deixadas.
Algumas precisam ser perdoadas.
E algumas precisam permanecer enterradas.
Não para desaparecer.
Mas para criar raiz.
Porque, no fim, talvez reescrever a própria vida não seja começar do zero.
É olhar para o que sobrou.
Parar de mentir sobre isso.
E decidir, mesmo com medo, que ainda dá para plantar alguma coisa.
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