O sujeito da mesa ao lado bebia como... Paulo H Salah Ad din
O sujeito da mesa ao lado bebia como quem carregava um funeral dentro do peito.
Não havia enterro algum.
Só um ego grande demais para caber na cadeira.
Batia o copo no balcão com força suficiente para avisar ao mundo que sofria. Achava que o silêncio do bar era respeito.
Não era.
Era apenas gente ocupada demais tentando sobreviver para desperdiçar atenção com a tragédia particular de um desconhecido.
Pedi outro uísque.
A garçonete nem olhou para mim.
Nem para ele.
Estava cansada.
Os pés doíam.
O aluguel venceria na segunda-feira.
Mas aquele sujeito sairia dali convencido de que a indiferença dela era mais um capítulo da sua epopeia sentimental.
As pessoas têm um talento extraordinário para transformar o universo em um espelho.
Se chove, é contra elas.
Se alguém vai embora, é por causa delas.
Se um estranho não sorri, já imaginam um julgamento.
Se a mulher demora a responder, escrevem um romance inteiro antes do café esfriar.
Nunca lhes ocorre a hipótese mais ofensiva de todas:
Talvez ninguém esteja pensando nelas.
É engraçado.
Ele acreditava ser o protagonista.
Mal conseguia um papel de figurante.
Olhei para as mãos dele.
Tremiam um pouco.
Não pelo álcool.
Pelo medo.
O medo de descobrir que sua dor era comum.
Nenhuma dor gosta de ser chamada de comum.
A cidade inteira estava cheia de homens iguais.
Sentados em bares diferentes, convencidos de que eram a obra-prima da própria desgraça.
O mundo, porém, nunca teve vocação para plateia.
Continuou girando com a indiferença impecável de quem jamais prometeu assistir ao espetáculo.
Sorri.
Não dele.
De mim.
Porque, anos antes, eu também fazia discursos silenciosos para um copo de uísque, esperando que o teto, a fumaça ou qualquer divindade escondida no mofo do bar confirmasse que o universo tinha uma implicância particular comigo.
Demorei muito para descobrir a verdade.
O universo nunca soube meu nome.
E isso, estranhamente, foi um alívio.
O pior é que aquele homem nem podia ser culpado por completo.
Nem eu.
Você não escolhe nascer.
Não escolhe quem lhe ensina o medo.
Não escolhe a primeira humilhação.
Não escolhe o cérebro que insiste em acordá-lo às três da manhã para reabrir feridas antigas.
Nem escolhe o corpo que, um dia, começa a enferrujar sem pedir licença.
Recebemos tudo isso como quem herda uma casa velha.
Telhado furado.
Canos estourados.
Paredes rachadas.
E uma conta que nunca fecha.
Depois batizamos a herança de "eu".
Como se tivesse sido construída pelas nossas próprias mãos.
Que piada.
Boa parte do que chamamos personalidade é apenas a cicatriz tentando convencer a pele de que nasceu desenho.
O homem terminou a bebida.
Vestiu o casaco.
Foi embora acreditando que aquela noite havia sido escrita especialmente para ele.
A noite não percebeu sua partida.
Nem o bar.
Nem a lua.
Nem os carros.
Apenas a cadeira vazia permaneceu onde sempre esteve, esperando outro infeliz disposto a acreditar que o mundo acompanha seus pensamentos.
Acendi um cigarro.
O gosto era horrível.
Como sempre.
Continuei fumando.
Algumas coisas não melhoram.
Você apenas se acostuma.
Foi então que compreendi por que envelhecer cansa tanto.
Não é o peso dos anos.
É o esforço ridículo de sustentar um personagem chamado "eu", quando a vida inteira está ocupada demais para aplaudir a atuação.
Ainda assim, amanhã eu acordaria.
Pagaria contas.
Escreveria alguma coisa.
Talvez amasse alguém.
Talvez errasse de novo.
Porque a única maneira decente de atravessar este desastre é cuidar da própria vida como se tudo dependesse de nós...
...e aceitar, entre um gole e outro, que quase nada depende.
