Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra

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Tem-se por inocente desejar e atroz que o outro deseje.

A verdade não tem que ser aceita com fé. Os cientistas não seguram suas mãos todo domingo, cantando: 'Sim, a gravidade é real! Eu vou ter fé! Eu devo ser forte! Amém!'.

Os bons trabalhadores têm sempre a ideia de que ainda poderiam trabalhar mais.

Toda a paixão tem o seu caminho de calvário.

Quando se tem a lanterna de Diógenes, tem que se ter o seu cajado.

Ter experimentado muitas coisas ainda não quer dizer que se tem experiência.

Se o coração tem razões que a razão desconhece, isso deve-se ao fato da razão ser menos sensata do que o coração.

A verdade é como a religião: ela tem apenas dois inimigos, o demasiado e o insuficiente.

Aquilo que os princípios têm de cômodo é que podemos sempre sacrificá-los quando é necessário.

Todos os homens têm o seu instinto; e o instinto do homem, fortalecido pela razão, leva-o à sociedade, como à comida e à bebida.

Política tem esta desvantagem: de vez em quando o sujeito vai preso em nome da liberdade.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

Todo o país escravizado por outro ou outros países, tem na mão, enquanto souber ou puder conservar a própria língua, a chave da prisão onde jaz.

Ter razão é fácil. Perceber que os outros a têm - eis o problema.

Não procure goteira no telhado dos outros, lembre-se que o seu telhado também e de vidro.

Se o seu telhado é de vidro que pelo menos seja blindado. Ajuda para continuar sendo hipócrita.

Se houver telhado no coração de um poeta...
Creio ser de vidro...e não duvido...
Apenas me cuido...

O Cão Sem Plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Ventos nos umbrais
janelas antigas,
modernos varais.

Laços sonoros
asas e afagos - cacos -
tragos de luz.