Quase
“O sal desaparece para dar sabor — talvez por isso as maiores forças da vida quase sempre sejam invisíveis.”
Não me apego no quase,
Talvez é dúvida, incerteza.
Que não leva a lugar algum,
É ausência de verdade e vontade.
Passei tanto tempo sendo forte por todo mundo, que quase ninguém percebeu o quanto isso me custou.
Eu estive ali quando precisaram de mim.
Segurei minhas dores em silêncio.
Engoli o cansaço, escondi minhas lágrimas e continuei, mesmo quando por dentro eu só queria parar.
As pessoas se acostumaram a me ver como uma rocha, mas esqueceram que dentro de mim também existe um coração cansado, ferido e cheio de peso.
E o que mais dói não é lutar por todos.
É sentir que, enquanto eu cuidava de tudo e de todos, quase ninguém percebeu que eu também precisava de cuidado.
Eu também preciso de abraço.
Também preciso de colo.
Também preciso ouvir que está tudo bem descansar.
Porque a verdade é que eu não queria ser forte o tempo todo.
Eu só não queria decepcionar ninguém, mesmo estando em pedaços por dentro.
« Jesus morreu por amor a nós.
Paulo morreu por amor a Jesus.
Áquila e Priscila quase morreram por amor a Paulo.
E eu e você?
Morremos pra esse mundo por amor a Deus? »
Uma pedra tem um mínimo de vibração
Quase nada, por isso: dureza...
O universo, o invisível
O máximo de vibração
O que não se vê está na sublime potência
Uma consciência pura e que se você
Em ressonância entrar
Será a sua plenitude
O seu lar doce lar
Paz no 💓
Chegou, fez silêncio em meu abraço.
O cansaço quase que fica,
mas foi.
Foi neste dia que percebi
que amar também é silêncio,
e calei.
Nildinha Freitas
*VOCÊ NÃO É A CASA*
Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais.
Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia.
Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída.
Fiquei algum tempo olhando aquilo.
Não sei por quê.
Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada.
Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo.
Ela subia.
De costas.
Não dava para saber quem era. Nem precisava.
O que importava era que ainda estava subindo.
Pedi outra dose.
O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse:
— Lugar perigoso.
Eu disse que sim.
Mas não era a escada que me preocupava.
Era reconhecer a casa.
A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida.
Depois começam as rachaduras.
Primeiro ninguém percebe.
Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar.
Depois vem o resto.
A casa começa a perder pedaços.
Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo.
O corpo diminui um pouco.
A paciência também.
A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás.
Olhei novamente para a mulher.
O vestido branco destoava daquela destruição toda.
Aquilo me incomodou.
Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar.
Não é.
Você pode estar cansado e continuar.
Pode ter perdido gente e continuar.
Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho.
E continuar.
A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada.
Isso bastava.
A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir.
Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender.
Eu não sou a casa.
Passei muito tempo confundindo as duas coisas.
Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim.
Talvez não.
Talvez algumas coisas apenas precisem cair.
Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las.
A música terminou.
O dono do bar não colocou outra.
Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia.
Paguei a conta e saí.
Na calçada, o ar estava frio.
Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas.
Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença.
Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim.
Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre.
E então sobe.
Mesmo descalço.
Mesmo tarde.
Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima.
Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha.
E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.
Era assim...
Tinha quase tudo...
Vacilou, escorregou...
Deixou-se levar pela emoção...
Tomou uma rasteira...
Escolheu mal a semente
Hoje vive reclamando,
Cultivando o que plantou.
Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.
Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.
Quando amamos – e o amor é espiritual – a presença quase não se faz necessária, pois os espíritos se reconhecem e se complementam.
A PALAVRA “QUASE” RESPONDIDA A KARDEC: A QUESTÃO DOS ANIMAIS, O PRINCÍPIO INTELIGENTE E O BOM SENSO DIANTE DOS FATOS ESPIRITUAIS.
Marcelo Caetano Monteiro.
Há temas dentro do estudo espírita que exigem mais do que opiniões rápidas: exigem leitura integral das fontes, análise histórica, compreensão filosófica e, sobretudo, o mesmo método que Allan Kardec utilizava diante dos fenômenos: observar, comparar, analisar e aguardar o amadurecimento das conclusões.
Entre esses temas encontra-se a questão da sobrevivência do princípio inteligente dos animais após a morte física. Muitos negam qualquer possibilidade de continuidade espiritual ligada aos animais, utilizando apenas uma interpretação superficial de algumas respostas de O Livro dos Médiuns. Entretanto, o próprio Kardec demonstra que determinados assuntos não devem ser encerrados precipitadamente, pois o conhecimento espiritual também possui etapas de desenvolvimento.
A chave para compreender esse assunto está em uma palavra aparentemente simples, mas profundamente significativa:
QUASE.
A QUESTÃO 600 DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS: O SENTIDO DO “QUASE IMEDIATAMENTE”
Em 18 de abril de 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec apresenta a questão 600:
“Depois da morte do animal, o princípio inteligente que nele havia se acha em estado latente e é logo utilizado quase que imediatamente, por certos Espíritos incumbidos disso, para animar novos seres, em os quais continua a obra de sua elaboração.”
A resposta afirma que o princípio inteligente dos animais é aproveitado rapidamente para novos processos evolutivos.
Mas é necessário observar cuidadosamente: a ideia não é apresentada como um desaparecimento absoluto do princípio inteligente, mas como uma continuidade evolutiva em outro estágio.
E aqui surge uma palavra fundamental:
QUASE.
Se a resposta fosse “imediatamente”, indicaria uma transição automática, sem qualquer intervalo ou condição intermediária. Porém, ao utilizar a ideia de algo que ocorre “logo” ou “quase imediatamente”, abre-se uma margem filosófica importante: existe uma passagem, um estado de transição, um período intermediário.
A palavra “quase” demonstra que Kardec não estava tratando de um mecanismo simples e matemático, mas de um processo da Natureza, envolvendo leis espirituais ainda não totalmente conhecidas.
O próprio codificador do Espiritismo jamais transformou aquilo que estava em estudo em dogma fechado.
O LIVRO DOS MÉDIUNS: UM NOVO MOMENTO DE INVESTIGAÇÃO.
Em 1861, Kardec publica O Livro dos Médiuns, obra dedicada ao estudo das manifestações espirituais.
No capítulo XXV, item 283, encontramos a análise sobre:
“Evocações dos animais.”
Ali aparece a orientação:
“Depois da morte do animal, o princípio inteligente que nele havia se acha em estado latente e é logo utilizado...”
A princípio, alguns interpretam essa passagem como uma negação definitiva de qualquer manifestação espiritual relacionada aos animais.
Contudo, é preciso compreender o método de Kardec.
O assunto não terminou em 1857.
Em 1865, na Revista Espírita, Kardec volta ao tema diante de um fato novo: uma comunicação envolvendo uma cadela chamada Mika, relatada por um correspondente de Dieppe.
E qual foi a postura de Kardec?
Ele poderia simplesmente negar.
Poderia afirmar:
“Isso é impossível, a questão já está resolvida.”
Mas não fez isso.
O MÉTODO DE KARDEC: NEM CREDULIDADE, NEM NEGATIVISMO.
Kardec escreve, diante do caso:
“Nosso honrado correspondente faz bem em não considerar definitivamente resolvida a questão. De um fato único, que além disso não passa de uma probabilidade, ele não tira uma conclusão absoluta.”
Essa frase revela o verdadeiro espírito científico de Kardec.
Ele não aceita qualquer fenômeno sem análise.
Mas também não rejeita um fato apenas porque ele parece contrariar uma compreensão anterior.
Esse equilíbrio é uma das maiores marcas do pensamento kardecista.
O verdadeiro investigador não diz:
“Já sei tudo.”
Ele diz:
“Examinemos.”
O ANO DE 1865: UM PONTO NOVO PARA REFLEXÃO.
O caso estudado em 1865 representa um momento posterior à publicação de O Livro dos Médiuns.
Portanto, não se trata de ignorar o que Kardec havia publicado anteriormente, mas de compreender que o próprio método espírita admite o aprofundamento progressivo.
A ciência humana funciona assim.
Uma descoberta posterior não destrói necessariamente um conhecimento anterior; ela pode ampliá-lo, refiná-lo ou demonstrar que determinados aspectos ainda necessitam de investigação.
Foi exatamente essa atitude que Kardec adotou.
Ele afirma na Revista Espírita:
“A questão do princípio e do fim do Espírito dos animais apenas começa a surgir.”
Essa declaração é extremamente importante.
Kardec não disse:
“Tudo está definitivamente encerrado.”
Ele reconheceu que havia uma questão em desenvolvimento.
O PONTO CENTRAL:
NÃO EXISTEM ESPÍRITOS DE ANIMAIS COMO ESPÍRITOS HUMANOS ERRANTES.
O ensino predominante. apresentado por Kardec é claro:
Não existem, no mundo espiritual, animais desencarnados vivendo em uma condição semelhante à dos Espíritos humanos.
O animal não possui o mesmo desenvolvimento intelectual e moral do ser humano.
Por isso, não se pode atribuir ao animal uma comunicação mediúnica humana, com linguagem, raciocínio e elaboração de ideias equivalentes.
A comunicação apresentada por um animal, como se fosse um Espírito humano, deve ser analisada com cautela.
Kardec alerta contra as aparências:
“Evoca um rochedo e ele te responderá.”
Ou seja: uma manifestação pode ocorrer através de um Espírito que assume determinada forma ou identidade para responder ao evocador.
O fenômeno mediúnico exige discernimento.
MAS A QUESTÃO NÃO É TÃO SIMPLES.
O próprio Kardec reconhece que existem fatos envolvendo animais que merecem estudo.
Ele afirma:
“Se os animais veem os Espíritos, evidentemente não é pelos olhos do corpo. Então, também eles têm uma espécie de visão espiritual.”
Aqui encontramos um ponto profundo.
Se existe percepção espiritual nos animais, então existe uma dimensão além da simples matéria.
A questão deixa de ser:
“O animal possui espírito igual ao homem?”
A resposta é: não.
A questão passa a ser:
“Como ocorre o desenvolvimento do princípio inteligente na escala da criação?”
E essa é uma pergunta muito mais ampla.
A AFINIDADE ENTRE O HOMEM E O ANIMAL.
Na comunicação apresentada em Paris, em 21 de abril de 1865, surge uma reflexão sobre os laços entre animalidade e humanidade.
O texto aponta para uma continuidade evolutiva, onde existem fases intermediárias e períodos de transformação.
A ideia central é que a Natureza não trabalha com rupturas absolutas, mas com processos graduais.
A evolução espiritual não seria um salto inexplicável, mas uma longa construção.
O animal não é um homem incompleto.
O homem, porém, representa uma etapa superior no desenvolvimento do princípio inteligente.
A IMPORTÂNCIA DA PALAVRA “QUASE”
A palavra “quase” impede interpretações rígidas.
Ela nos lembra que estamos diante de um processo espiritual complexo.
O princípio inteligente animal não permanece indefinidamente como Espírito individualizado semelhante ao humano, mas também não devemos transformar a expressão “logo utilizado” em uma negação de qualquer possibilidade de estados intermediários.
A própria investigação de Kardec em 1865 demonstra prudência:
Não afirmar além dos fatos.
Não negar além das evidências.
CONCLUSÃO:
O VERDADEIRO ESPÍRITO KARDECISTA É O DA INVESTIGAÇÃO.
Negar rapidamente uma possibilidade espiritual porque ela parece desconfortável não é o método de Kardec.
Aceitar tudo sem exame também não é.
O caminho espírita é o caminho do equilíbrio:
Razão iluminando a fé.
Observação guiando a conclusão.
Humildade diante das leis da Natureza.
A questão dos animais permanece como um convite à reflexão sobre a grandiosidade da criação.
O Espiritismo não apresenta um universo fragmentado, onde a vida humana está isolada do restante da existência.
Ele apresenta uma marcha ascendente do princípio inteligente, em uma obra divina onde cada ser participa do desenvolvimento universal.
E talvez a maior lição esteja justamente na palavra aparentemente pequena:
QUASE. Porque, no estudo das leis espirituais, muitas vezes uma única palavra revela que a sabedoria ainda está em movimento.
FONTES:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 18 de abril de 1857. Questão 600.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1861. Capítulo XXV — Das Evocações. Item 283 — Evocações dos animais.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Maio de 1865. “Manifestação do Espírito dos Animais.”
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Junho de 1860. “O Espírito e o cãozinho.”
KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XI — Gênese espiritual.
