Poesias sobre palavras
A teologia dogmática tenta mapear o infinito: é a arte de inventar certezas sobre o que simplesmente não dá para saber.
Histórias extraordinárias sobre revelações divinas exigem provas reais — coisa que a religião nunca deu.
A laicidade não é uma negação da fé; é uma limitação da autoridade estatal sobre aquilo que não pode demonstrar.
O consumidor contemporâneo compra produtos enquanto produz dados sobre si; talvez seja esse o primeiro mercado em que o comprador paga e, ao mesmo tempo, fornece matéria-prima.
A ciência pode demonstrar que determinada afirmação sobre a natureza é falsa sem demonstrar que toda experiência religiosa seja falsa; entre uma conclusão e outra existe um território que exige cautela.
A ciência pode informar o Direito sobre riscos biológicos, climáticos ou tecnológicos; o agnosticismo lembra que modelos científicos também possuem margens de incerteza.
Quando uma afirmação religiosa sobre o mundo físico pode ser testada, ela entra no território da ciência; quando não pode, sua avaliação exige outra linguagem epistemológica.
A razão não reina sobre o homem; muitas vezes apenas redige, em linguagem lógica, os decretos secretos de suas paixões.
A imaginação constrói pontes sobre abismos que a razão reconhece, mas que a vida cotidiana não pode esperar que permaneçam sem travessia.
Viver é agir sobre probabilidades enquanto a consciência sonha com certezas que a própria realidade não prometeu.
A aliança no dedo pode simbolizar a permanência, mas nenhum metal possui jurisdição sobre a impermanência do coração.
A ignorância confessada é intelectualmente mais nobre que uma certeza construída sobre evidências inexistentes.
A existência guarda forças que permanecem invisíveis enquanto apenas pensamos sobre a vida; certas verdades só aparecem quando finalmente nos arriscamos a vivê-las.
O ódio alimenta-se da própria chama que pretende lançar sobre o outro; somente quando renuncia ao incêndio encontra a possibilidade da paz.
A consciência não paira sobre as coisas como um espectador; ela se compromete com o mundo através da espessura concreta do corpo.
Antes de possuir uma teoria sobre o mundo, já estamos lançados dentro dele, respirando sua presença e suportando sua resistência.
O Direito procura a justiça entre os homens; a ciência procura evidências sobre o mundo. Confundi-los é tão perigoso quanto separá-los completamente.
O Estado laico não precisa ser ateu; precisa apenas não transformar uma hipótese sobre o absoluto em obrigação jurídica para todos.
Quanto maior o poder de uma afirmação sobre a vida alheia, maior deveria ser a exigência de evidência para sustentá-la.
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