Poesia Felicidade Fernando Pesso
A porta aberta
A porta se abriu, de repente
tudo se revelou, o mundo se expôs
aos olhos do homem,
que se encontrava preso.
Quebraram-se os grilhões
as marravas, removeram
a venda dos seus olhos.
Mas o homem não tinha pernas
nem braços para abraçar o mundo
foi lhe dito que poderia ir, estava livre,
enfim cumprira sua pena.
Mas o homem continuou mudo
não disse palavra. Por dias e noites
ficou espantado com o tamanho do mundo
e com a liberdade da porta aberta em sua frente.
Até que seu carcereiro lhe disse:
Vaz embora ou ficarás aí até morreres de fome e de sede?
O homem tentou respondeu, mas não teve fôlego nem voz.
Então, com olhar triste de profundo desânimo
olhou para suas amaras, vendas e grilhões
e, apontando-os, fez um sinal de que preferia a prisão
pois havia perdido o intersere pela liberdade.
Morreu a esperança
Nossa maior invenção foi a esperança,
com ela justificamos o caos,
e acreditamos na justiça
de deuses e dos homens.
Mas a esperança está morta
seus inventores a destruíram.
Agora o que restou
foi a generalização
da injustiça,
todos a cometem.
Não há juízes nem réus
o crime foi implantado
como auto defesa
no planeta irracional
Voltou a barbárie
todos estão livres
para executar
seus massacres
seus holocaustos.
Deus não se importa
pelo menos
o Deus dos assassinos.
Matem as mulheres
e as crianças,
são todos ocidentais
incrédulos
ou orientais sem pátria.
Ainda há pouco lamentávamos
a morte de Deus, acreditando
que sobreviveríamos
Agora enterramos
sem lágrimas
sem pudor,
... a esperança.
Não sou místico nem metafísico,
sou de barro, holístico como
Aristóteles, como o passarinho
de Manoel...
Acredito que com o feitiço
das palavras se cria
anjos e demônios
bênção e maldição.
um olhar no passado
Todos os dias, às seis da tarde, ele se sentava na mesma cadeira, na mesma calçada, esperando por alguém que um dia viu passar, na mesma calçada, da mesma cidade, daquele imenso mar
Era um bar à beira-mar, onde passava muita gente, mas este solitário observador nunca conseguiu realizar seu antigo sonho, o sonho de ver passar, na mesma calçada aquela figura que um dia lhe roubou alma.
Agora, depois que o mar avançou e cobriu a calçada, o homem continua a olhar, do mesmo ponto, o mesmo mar, da mesma cidade, onde não existe mais calçada nem transeuntes, apenas existe o mar e uma dor que não serena...
Poemas são como flores
Poemas são como flores
não se deve dar para qualquer um
há sempre um espanto de quem recebe
ou um desespero para quem oferece
Poeta escreve e chora
Poeta escreve e chora, depois ri,
como criança confunde sentimentos
quando erra não sabe a quem recorrer
sua poesia é oração que não se ouve
a musa foge e o verso quebra
a mão se eleva… Deus não escuta.
O amor não se compra, disto todos sabem, mas poucos compreendem um principio universal sobre o valor do amor, como se adquiri e como se perde.
O amor está em outra esfera de razão e entendimento humano, quem ama tem a força de um deus, e quem recebe a dedicação de alma de um deus, se torna um deus também, poderoso e humilde, sobretudo generoso e bom, quem ama cuida, alimenta e vibrar a cada sorriso e conquista do bem amado, quem ama liberta e nunca está preso ou limitado.
Ati, Iranete alma irmã da minha alma
A completude do ser
Você que ri sem motivo
você que chora sem dor
você que sabe o segredo
das asas do beija-flor
você que nunca desiste
você que tem esperança
você que não fica triste
você que é feito criança
você que busca um destino
você que sedo madruga
você que não sofre a ruga
você que é feito menino.
você que nunca tem medo
você que não desatina
você que canta e afina
as cordas do coração
você que anda sem pressa
você que perdoa a mágoa
você que enxuga a lágrima
você que planta uma flor!
você que é brisa e calma
você que é um mar sereno
você que é corpo e alma
você, antídoto e veneno
Eternidade, delírio da razão....
Quem salvará o homem do abismo
do silêncio que há entre o tudo e o nada?
A arte, a fé, ou o absurdo do não crer?
O que nos resta é a beleza
com o seu encantamento desmedido
a poesia irreprimível
do riso gratuito das crianças.
Se tudo isto nos faltar
apelemos para o amor
e para amizade...
Mas não esqueçamos
que sem o delírio da razão
não poderá existir
... eternidade.
Viver não é nada extraordinário,
se não fizermos algo relevante
algo extraordinariamente belo
e necessário, enquanto vivos.
Viver não significa nada
se não experimentarmos
o êxtase e o encanto
de um verdadeiro amor.
Entre o belo e o absurdo
entre o belo e o absurdo
mora o silêncio, orquídeas
margaridas e hortênsias
de um jardim esquecido.
entre o belo e o absurdo
há dois caminhos, duas escolhas
um homem e uma mulher
uma porta aberta e um criado mudo.
entre o belo e o absurdo
há um arco-íris e um temporal
um desejo ardente, agridoce
uma fome santa, de mel, de sal.
entre o belo e o absurdo
há música de Wagner
delicadeza de Chaplin
e a poesia o mundo.
entre o belo e o absurdo
há cinzas de uma história
perdida, lágrima de sangue derramada
e uma taça de vinho a ser bebida.
Homens ocos, de Eliot
a tabacaria de Pessoa,
a temporada
no inferno, de Rimbaud
as flores do mal de Baudelaire
as cinzas da horas de Bandeira
Tente não naufragar nessas águas,
caso sobreviva se tornará poeta.
aos verdadeiro poetas.
existe uma porta estreita
por onde entra o encantamento
porta que por um descuido ficou aberta
em hora improvável, não foi proposital
que o dono da casa permitiu tal vacilação
a alma estava satisfeita, não reclamava por atenção nem por sossego.
o encanto é um espírito magnético
que não pode fugir das algemas da beleza
um espírito que habita nos amantes da arte
e da poesia do mundo, são presas fáceis
que trocam suas vidas por um instante
de encantamento e paixão.
Talvez o amanhã seja uma incógnita
talvez o amanhã seja pleno de certezas
de realizações e esperanças, talvez, talvez
mas de incertezas se faz também o hoje
e o ontem...
nunca esperamos o dia seguinte
com a mesma expectativa positiva
com que esperamos o ontem
já superado, ele sempre
surgirá dispare dos dias que
formam o nosso passado
nem como os que idealizamos no futuro.
Talvez o amanhã não seja mais que o nosso hoje,
talvez, talvez!!!
“sobre o nada da morte
aos homens indoutos,
a outros crédulos:
a razão e a ciência informa:
não há descanso na morte,
apenas inexistência
vaco cósmico, buraco negro
nem solidão nem medo
nem esperança supra física
nem segredo metafísica
ou revelação sublime
a morte é o fim da ilusão eterna
é um encolher dos ombros de Deus
e um esticar das pernas dos mortais
com tudo dito ainda escutamos
dos amigos: "descanse em paz,
meu rapaz."
não espero corda nem discorda
isto é poesia, antídoto para ilusão.”
Se fosse definir o homem
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir a beleza
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir o amor
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir o mundo
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir a guerra
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir a esperança
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir fé
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir o universo
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir eternidade
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir o ciúme
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir a paixão
o faria com uma palavra:
absurdo.
Se fosse definir o que não se define
o faria com uma palavra:
absurdo.
Não sou cristão nem ateu, sou poeta!!!
Não tenho cor nem ideologia
Não sou a favor da morte
Nem a favor da vida, sob a pena capital
Da neutralidade e da covardia
Se julgo as razões de outrem
Faço isto à revelia...
no fundo dos olhos
mora um abismo
que a alma atrai
viril e otimista
não há segredo
que afugente
o encantamento
da segunda vista...
