Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Discussão pública não é mera troca de opiniões pessoais, nem torneio de auto-imagens embelezadas: é eminentemente intercâmbio de altos valores culturais válidos para toda uma comunidade humana considerada na totalidade da sua herança histórica e não só num momento e lugar.
O direito de cada um à atenção pública é proporcional ao seu esforço de dialogar com essa herança, de falar em nome dela e de lhe acrescentar, com as palavras que dirige à audiência, alguma contribuição significativa. O resto, por 'bem intencionado' que pareça, é presunção vaidosa e vigarice.
A ética libertária é apenas um truque de retórica, um gerador de argumentos, para não dizer de lero-lero.
Ela não ajuda nem atrapalha.
Se o cristianismo fosse apenas uma doutrina, não haveria problema em reinterpretá-lo mil vezes até que se transformasse, como ocorreu com o marxismo, até mesmo no seu oposto dialético.
Mas a Ressurreição de Cristo é um fato único e imutável, de modo que, para mudar o sentido da fé cristã que esse fato determina, será preciso esperar pela ressurreição do Leonardo Boff.
"'Meritocracia' é um slogan publicitário e um mito. Não corresponde a nenhum fenômeno identificável na economia de mercado, sistema infinitamente complexo onde fatores incontroláveis como o acaso e as simpatias pessoais podem contar muito mais que o mérito objetivo. Meritocracia, a rigor, só pode existir em organizações hierárquicas fortemente regulamentadas onde até os chefes estão atados por um compromisso de obediência, como por exemplo um exército. Há mais meritocracia na KGB do que no capitalismo.
A superioridade prática do capitalismo é um fato inegável, mas dela os teóricos liberais e libertarians tiram, com freqüência, conclusões absurdas, que, é claro, seus discípulos tupiniquins repetem como mantras sagrados."
A acumulação de fatos concordantes é um meio de PERSUASÃO, não de PROVA.
Para provar uma hipótese você não precisa de muitos fatos: precisa de apenas um que não admita outra explicação.
NENHUM acúmulo de fatos prova jamais uma hipótese. Só o que a prova é a sua confrontação vitoriosa com as hipóteses alternativas. A acumulação espetacular de fatos concordantes é, muitas vezes, apenas um meio engenhoso de fugir a essa confrontação.
Uma teoria ambígua não é NUNCA uma hipótese legitima, capaz de submeter-se a um teste científico. O marxismo e a teoria da evolução são exemplos: mudam de interpretação cada vez que são refutados.
[...] uma segunda hipótese NÃO É uma segunda 'interpretação' dos fatos mas uma segunda EXPLICAÇÃO deles. Enquanto subsistem interpretações divergentes, é impossível formular uma hipótese.
A coisa que mais me enoja num escrito é o autor que não escolhe as palavras pela precisão com que correspondem ao objeto descrito, mas pela impressão emocional que, em total prejuízo da exatidão descritiva, deseja despertar no leitor. Esse procedimento é ainda mais perverso e revelador quando se trata de termos técnicos que, por possuírem significados convencionais bem definidos, só se prestam a essa operação mediante distorções forçadas que denotam precário domínio do idioma. [...] O estilo é o homem, mesmo quando a criatura em questão tem, de homem, pouco mais que o rótulo taxonômico.
Esse tipo de eloquência, que é menos canina do que simiesca, nunca funciona, exceto ante plateias previamente dessensibilizadas para as propriedades do idioma.
Ante plateias normais e cultas, ao contrário, a precisão é a condição primeira e indispensável da força persuasiva.
Se você é burro, não desanime. Todos nascemos burros, inclusive os gênios. Só o que não pode é dizer, como um amigo do Pedro aos dez anos de idade:
— Sou burro com muito orgulho.
O discurso ideológico é, no fundo, nada mais que retórica – o tipo de pensamento que não é voltado para o conhecimento, mas para a ação imediata. A persuasão retórica é absolutamente indispensável à ação prática, na esfera privada como na vida pública. Querer eliminá-la é tão utópico – e tão ideológico – quanto querer suprimir o mercado.
O mal não está na mera existência do pensamento ideológico, nem mesmo na sua onipresença na vida social. O mal aparece quando as esferas de atividade que deveriam ser orientadas por formas de pensamento mais exigentes e mais voltadas à descoberta da verdade se deixam infectar de ideologismo, como acontece, no Brasil, com a quase totalidade do que se produz sob o rótulo de 'ciências sociais'.
Desenvolver a noção desse juiz interior, que é assinalado não só pela credibilidade,
pela racionalidade e pela consistência, mas também pela seriedade e pela sinceridade: esse é o primeiro ponto. Você vai tentar exercer a filosofia tão sinceramente quanto Sócrates o fez. Sinceridade significa, no caso, simplesmente presença da sua consciência, ou seja, você não vai dizer coisas que saiam da periferia do seu ser, que no dia seguinte você vai esquecer, ou que você mesmo não vai levar a sério, porque se não nosso estudo vai virar apenas uma imitação da filosofia acadêmica contemporânea.
A renda básica moralmente está certa. Mas não adianta se não se especificar quem tem que dar esse dinheiro e de onde tem que sair. Se não é assim: você tem direito a esse dinheiro, mas ninguém tem a obrigação de te dar esse dinheiro.
Se você tem o direito, mas não tem a garantia, na prática, você não tem direito nenhum.
A expressão 'não merece resposta' é das mais típicas. Autêntica mensagem cifrada, para compreendê-la é preciso decompor analiticamente suas várias camadas de significado em cada exemplo concreto. No caso presente ela significa:
(a) Não tem resposta, porca miséria. É verdade mesmo.
(b) Não podemos deixar sem resposta.
(c) Portanto responderemos que não vamos responder nada, de tal modo que a falta de resposta funcione como prova da nossa superioridade olímpica que não consente em responder a qualquer um.
Os três significados aparecem, mesclados e fundidos, na expressão 'Não merece resposta'. Por meio dela, o sentimento vil de humilhação e derrota ante fatos irrespondíveis se transfigura em jactância triunfalista, a qual, sendo totalmente deslocada da situação real, não poderia mesmo deixar de denunciar involuntariamente sua própria farsa, ao inflar-se em arremedo grotesco da autoridade divina.
Não vejo por que a pergunta pela identidade nacional deva se concentrar na busca de 'constantes'. Uma identidade nacional, como uma consciência pessoal, é sobretudo uma história, uma narrativa cujo sujeito não vem pronto, mas se forma e se deforma, se acha e se perde, se salva e se dana no curso dela mesma.
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Nenhuma conclusão frutífera se obterá sobre a questão da 'identidade nacional' sem fazer primeiro uma 'história da consciência nacional', mapeando, na vasta bibliografia disponível, o horizonte de consciência dos nossos intelectuais e suas mutações ao longo das várias gerações. Tenho a visão clara do que pode ser essa história, mas jamais terei o tempo de escrevê-la, embora alguns artigos meus sejam capítulos inteiros dela. Uma coisa eu garanto: esse horizonte de consciência jamais foi tão estreito quanto é hoje.
Há verdades nas religiões não-cristãs? Como poderia não haver, se verdades existem até no marxismo?
Só que há verdades irredutíveis entre si, separadas por universos epistemológicos intransponíveis. Tente, por exemplo, fazer uma síntese do marxismo com a geometria de Euclides.
Na adolescência eu já tinha o pressentimento de que tudo o que não dissesse respeito diretamente ao destino e aos sofrimentos dos seres humanos era só algum tipo de frescura. Praticamente todos os adultos em torno me pareciam crianças brincando. Ninguém era sério.
Cheguei a essa conclusão não porque tivesse sofrido muito, pessoalmente, mas porque tinha VISTO muito sofrimento, muito acima do que eu podia explicar ou consolar.
Aos quatorze anos, meus olhos já estavam cansados de ver tristezas.
O universo que eu via era uma imensa creche, onde todo mundo estava dodói, mesmo com os bolsos cheios e estourando de saúde.
Nada me deprimia mais do que a autocompaixão do homem rico, que cuidava de si mesmo como se fosse um doente terminal.
O único exemplo de força que me chegou, e isto só por volta dos vinte anos, veio do meu amigo Otto. Ele NUNCA era o coitadinho que não tinha tempo para os problemas dos outros.
Se o trabalho a que você se dedica já não é sua própria recompensa, toda recompensa será prejuízo.
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O dever, a verdadeira vocação, está infinitamente acima do prazer e da dor que acompanham todo esforço.
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O dever, por mais tedioso ou doloroso que pareça, é o único sentido da vida.
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A vida, dizia José Ortega y Gasset, é como um soneto que recebemos pronto com um verso faltante. O dever consiste em completá-lo com métrica e rima.
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Seu dever, ensinava Victor Frankl, é aquilo que a situação exige de você e só de você.
A apologia do capitalismo contra o socialismo é fútil e vazia se não levar em conta a crítica do capitalismo empreendida em três fronts principais: (a) a tradição marxista; (b) o socialismo nacionalista ítalo-germânico (aparentado ou não ao nazifascismo); (c) a literatura católica (Chesterton, Bloy, Péguy, Bernanos e tutti quanti). Dedicar uns três anos ao estudo dessas fontes não faria mal nenhum aos liberais mais assanhadinhos.
Todo idiota acredita piamente que qualquer corrente de pensamento que ele desconheça — e da qual não ouça falar na mídia todos os dias — já está, por definição, “superada”.
Um dia darei um curso sobre as tradições anticapitalistas. Vocês ficarão impressionados não só com a riqueza de idéias aí contida, mas com a superficialidade da resposta liberal. Depois de haver absorvido esse material, continuo cem por cento pró-capitalista, com uma diferença: eu SEI das responsabilidades envolvidas nisso.
Liberalismo, em noventa e nove por cento dos casos, consiste em estar a favor da coisa certa pelos motivos errados.
"Não tenham pressa de encontrar o seu caminho. Encontrei o meu muito tarde. Posso até datar: foi aos 43 anos. Antes disso, minha vida foi apenas uma luta feroz pela subsistência, e só não posso dizer que foi tempo perdido porque eu aproveitava cada minuto livre para estudar e estudar, sem ter a menor idéia do que iria fazer depois com tanto estudo. Na verdade eu não estava nem buscando caminho nenhum. Aquele que encontrei foi simplesmente seguindo o conselho do meu amigo Juan Alfredo César Müller: 'Quando você não sabe o que quer fazer, faça o que é do seu dever.' Isso simplifica muito as coisas.
P. S. – Quando falo em estudos, não são só livros. Fiz muitas investigações 'in loco', experiências vivas que às vezes me botavam em encrencas danadas. Mas valeu a pena. Usei muito o método do 'observador participante' que aprendi nos livros do B. Malinowski."
"É típico da mentalidade inferior fazer pose de superioridade para não ter jamais de superar porra nenhuma.
A pose transfere a questão para o reino do faz-de-conta e infunde no posudo um reconfortante sentimento de que resolveu tudo, quando não fez é bosta nenhuma."
