Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Pera que essa pera é minha.
Troco o pelo pelo pelo
e não me pela pela angústia.
Somente para para ver
a diferença em pôr e por,
se vou pôr tão só por pôr
ou se afinal vou pôr por ti...
Pra não se sabe até quando
tardar a própria extinção,
tem muito hífen pensado
em se forjar travessão.
Hoje quase posso dizer as medidas exatas do sofrimento. Na verdade, não louvo nem maldigo a vida, por causa disso. Sequer mandingo na tentativa de uma possivel fuga, pois entendo que a sina se constrói ou aluga o nosso corpo enquanto há pulso.
Muito mais do que isso, agora sei da verdade, face a toda mentira que ela acomoda. Entendo, resignado, que os contentos que a entrecortam são feito modas ou viroses. Só a tristeza é vida, pela tradição que a perpetua enquanto há. Tristeza é lua que rege nosso tempo em nós.
Bem sei que nada nos livra desta história; deste livro de folhas entreabertas que enseja penumbra e solidão. Tenho chances cada vez mais desertas e mesmo assim vou relutando contra todos os lutos do viver, para ver se cumpro meu luto vital e uma certa missão que os clichês impõem a todos.
Sobre tudo o que dói sei quase tudo, e quase nada restou de se atinar sobre as coroas de farpas da conquista exangue dessa cruz que se carrega. Do sangue ralo e coalhado com que se rega o caminho na ilusão de um tempo que ninguém viu.
Há mais grilo do que esperança... Mas parece que a segunda é a última que morre... Por isso vivo. Com que pretensão nem sei, mas vivo.
Só se reconhece e critica a acomodação dos que não lutam por bens, cargos e fama. No entanto, existem muitas outras acomodações, quase todas mais graves, e das quais geralmente são portadores os mais fartos, influentes e famosos. Há aqueles que se acomodam com a distância dos filhos, a mesquinhês, a falta de privacidade, a solidão, a pobreza de caráter... Muitos se acomodam com a obesidade, a falta de conhecimento, a insensibilidade, a arrogância, e uma profunda carência de humanidade.
Mais grave ainda, tantos outros se acomodam com a violência que os cerca, julgando que ela não os atinge. Acomodam-se também com o incômodo sentimento de querer mais e mais aquilo que já possuem com fartura. No fim das contas, não existem pessoas não acomodadas, e sim, uma imensa variação de acomodações que se acomodam em criticar as acomodações mais previsíveis, talvez as menos nocivas.
Lutei pela vida,
mas não soube lidar
capoeira da estrada
no chão do meu ser...
Ter um bom karatê
não me trouxe medalhas
nem me fez faixa preta
de caráter.
O que mais dói no menino agora vacinado, e o faz chorar, não é simplesmente a vacina. É a certeza de que tudo isso estava planejado e de nada valeu seu pranto... Sua birra.
Dói também o cinismo da promessa de que a picada não dói. A promessa, por si só, fere seu brio pela constatação da mentira. Mesmo que a mentira seja verdadeira, como no fundo não é. Não será em tempo algum.
Ao reclamar dos espinhos nos meus rumos difíceis, e do velho espinho na carne por um conflito qualquer, sei que o menino já sabe do que falo. Tem experiência. Certamente o magoa bem mais do que a fisgada, ver que foi atraído para ser traído por todos. Dói demais, doendo ou não, é não ter contado com clemência.
Tanto quanto a criança, entendo bem de ser traído. Porém, o que o menino ainda saberá é que as traições crescem. Ficam muito mais sórdidas e desnecessárias à medida que se vive. É desumano saber, mas é real.
No fim de tudo, a vacina é um aperitivo. É a simulação de um contexto que se agravará em tempos vindouros. Pobre menino... Só está começando a conhecer as pessoas.
INSPIRAÇÃO E POETA
Sendo poeta
(um sonhador),
não choro versos
sem conhecer
tristeza e dor...
Também decanto
em riso farto,
se for de parto
bem natural;
só se meu canto
não for postiço...
Para ter carro,
tenha-se casa;
quero ter asas,
mas antes vou
compor meu céu...
Sentir se a poça
é funda ou rasa
dirá, com calma,
se vale a pena
pescar a lua;
lançar minh´alma...
A INSPIRAÇÃO E O POETA
Sendo poeta
(um sonhador),
não choro versos
sem conhecer
tristeza e dor...
Também decanto
em riso farto,
se for de parto
bem natural;
só se meu canto
não for postiço...
Para ter carro,
tenha-se casa;
quero ter asas,
mas antes vou
compor meu céu...
Sentir se a poça
é funda ou rasa
dirá, com calma,
se vale a pena
pescar a lua;
lançar minh´alma...
MOSCA MORTA
A mosca no chão
não me livrou
das tantas mais,
como pensei...
Cruel conclusão:
Acertei na mosca...
Mas errei.
DITO E NÃO FEITO
São palavras demais pra poucos atos;
muito arroto pra pouca digestão;
tantos tratos, tão raros cumprimentos,
combustão de falácias e fachadas...
Há discursos banais, nenhum decurso
que se mostre fiel aos seus efeitos;
medram pleitos, comícios, pregações,
faltam obras; empenhos; atitudes...
Vejo línguas e farpas, ouço brados,
punhos "brabos" se fecham nos coretos
ou nos guetos; estádios; avenidas...
Mas as vidas não seguem seus glossários;
todos querem calvários vantajosos;
guerras feitas de festas e festins...
FEIOSO DE BRIO
Queira tudo que trago;
não se faça de lua,
que não sou lago,
só a quero se for
pra ter mais que o perfume;
o fruto e a flor...
Jamais fui abstrasto,
afinal tenho corpo,
não só extrato;
sua voz não me acalma
no discurso profundo
sobre minh´alma...
Nunca mais enalteça
minha musculatura
da cabeça
nem me dê de presente
afirmar que sou belo...
mas "diferente".
CARÊNCIA DE PAI
Quando saio de nós não vejo vida;
sou a duna que o vento varre ao léu;
é um tombo do céu, do sonho bom
que me abriga dos velhos temporais...
Há um caos que me aguarda feito bonde
para onde não sei nem faço caso,
toda vez que as desato e me desprendo
rumo ao nada, no rastro da saudade...
Reconheço a carência deste afeto;
muitas vezes deploro a transparência
que lhes cobra respostas viscerais...
A minh´alma desaba, tem vertigens,
falta fundo, esta queda não tem fim;
quando volto pra mim acaba o mundo...
PRECE DOS DESESPERADOS
Pão nosso do dia sim dia não. Não nosso de cada dia. Na busca do que é nosso, esse desespero de cada pão. Mãos nossas que apertam nossas cabeças na fome de cada passo. Dor nossa de cada soco da polícia, morte nossa de cada dia entre as grades. Quando não das cadeias, de realidades mais amargas ainda.
Emprego de cada placa de não há vaga. Vaga de cada emprego reservado a outro. Desemprego nosso de cada chance negada por faltar currículo... Currículo insuficiente nosso, por educação escassa. Escola sofrível de cada dia, pois o dia a dia do poder o assusta, mostrando como seria um país bem educado.
Pai nosso de cada prece que já perde a fé. Prece de cada laivo do instinto que busca um deus inútil. Igreja nossa de cada culto que distorce a vida e leva o quase nada que nos resta. Restos nossos de uma dignidade roubada por todos os lados, numa sociedade cercada por quadrilhas legais.
Destino! Por favor, caro destino! Tira-nos da margem desta sociedade marginal por natureza! Orienta-nos a mudar o mundo a partir dos nossos filhos! Cura em nós as mordidas desta vida cadela e nos mostra o caminho do pão, da educação, da cultura e da saúde física, emocional e psíquica! Queremos de volta nossa cidadania!
GROSSERIA NÃO É FRANQUEZA
À franqueza destrambelhada, que julga e condena sem o menor jeito - e por isso fere a tudo e todos -, prefiro aquela falsidade criteriosa, desgrudada e sutil.
É que o franco destrambelhado não tem ética; noção de hora, contexto e lugar. Além do mais, é franco apenas com os outros. Consigo próprio é falso, ao fazer apologia de sua maior virtude, a franqueza - que no fundo é seu maior defeito - e se orgulhar dos constrangimentos que gera em derredor.
Quanto ao falso criterioso, este pelo menos age de modo a não melindrar o próximo. Só o distante, que não tem como ser melindrado, justo por estar distante. Ter critério não lhe permite ser inconveniente, além de forçá-lo a ser bem educado; cuidadoso com gestos e palavras; discreto com tudo e todos sobre o que sente por esta ou aquela pessoa, pois sabe das saias justas que poderia sofrer por causa das línguas-de-trapo que o rodeiam, inclusive as dos francos destrambelhados, invariavelmente a postos e atentos.
Ao contrário do franco em questão, o falso criterioso - profundo conhecedor da própria falsidade - só é falso com os outros. Consigo mesmo é franco, pois reconhece que não saberia ser claro, direto e contundente sem se tornar um franco destrambelhado... Seu antônimo natural.
Em outras palavras, qualquer extremo é inconveniente; muitas vezes perigoso. Se acho que a falsidade sempre será uma praga, também não me deixo iludir por por aqueles que vivem armados de grosseria, intransigência e suas velhas certezas fora de validade, há muito mofadas, em nome da franqueza.
Eis a minha franqueza. Talvez, para muitos, com ares de falsidade, porque não a imponho. É que se trata de uma franqueza que tenta ser criteriosa e sutil.
VIDA PLENA
Demétrio Sena
Cheguei ao ponto em que o ponto
já não exclama, interroga
nem salienta.
Estou em câmera lenta
e meu sorriso, meu pranto
vão ficando à meia-luz.
Cheguei ao ponto em que o ponto
faz ponto cruz.
Porque no fundo me sinto
alguém ou algo já pronto
pra dar partida.
Pois tive tudo que a vida
pudesse dar de mais vário,
agora o tempo me gasta.
Cheguei ao ponto em que o ponto
é ponto e basta.
CÃO SOCIAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Protestar porque deixam, pois não dói,
ser somente um herói padronizado,
este fora-da-lei que a lei permite
porque sempre será dentro da lei...
Fazer greves legais, gritar chavões,
palavrões quando faltam as palavras,
ter coragem segura, encorajada,
como nada proíbe ou ninguém pune...
Tudo isso é bravata sem valor,
minha espada não fura uma gravata
nem a língua ferina os fere a sério...
Sou apenas um cão ladrando a esmo
para rodas que nunca morderei;
contra tudo que sei no que não dá...
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Trabalhar não provê apenas nossa despensa ou realiza os sonhos e caprichos. Trabalho é dignidade; amor próprio; cidadania... Mesmo quem não precisa, precisa trabalhar.
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Morrermos de fato é não termos feito nada que doravante substitua nossa existência física.
PROCESSO EDUCATIVO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Educar não é um ato, como sentenciam educadores modernos. É, na verdade, quase um processo judicial. A depender de como educamos, podemos salvar ou condenar uma vida.
NÃOS OCULTOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei do não que se oculta num sim de soslaio,
num balaio de olhares; meneios; trejeitos;
ouço cada palavra do discurso mudo
cujo nada diz tudo e não discuto além...
Quero sempre o querer de quem ouve a proposta,
quem aposta em meus olhos e ganha comigo,
nunca o jogo de falas de quem não declara,
mas me cerca; me apara; me faz retornar...
Não aceito que aceitem por temor velado,
meu projeto, meu sonho, meu dado na mesa;
neste caso prefiro a leitura das costas...
Tenho apego à palavra que soa incisva,
nasce viva; desnuda; legível; direta;
linha reta pros olhos, ouvidos e mente...
