Poemas de Hilda Hilst

Cerca de 57 poemas de Hilda Hilst
Hilda de Almeida Prado Hilst (1930-2004), conhecida por Hilda Hilst, foi uma poetisa, cronista, ficcionista e dramaturga brasileira.

Toma-me

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst
Prelúdios-Intensos para os Desmemoriados do Amor

Poema V

A Federico García Lorca

Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
que bebi na tua boca a fúria de umas águas
eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah! Se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
e cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.

Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?

“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”

E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.

Hilda Hilst
Poemas aos Homens de Nosso Tempo

⁠Vida da minha alma: Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
Revi os cães. Não os mesmos.Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.

E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.

Hilda Hilst
HILST, Hilda. Do desejo. São Paulo: Globo, 2004.

Nota: Trecho do canto IX, de "Amavisse".

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⁠Árias Pequenas. Para Bandolim

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

Hilda Hilst
Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Inserida por EEP060508

⁠Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

Hilda Hilst
Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Inserida por pensador

As mulheres em geral são chatíssimas; em literatura a gente escolhe a dedo uma ou outra; e depois eu quero é que elas não me aborreçam.

Hilda Hilst
Entrevista de Hilda Hilst. In: Jornal de Letras, São Paulo, 1954.
Inserida por gabriela_vidal

⁠O que faz nascer a minha poesia é a não aceitação de que um dia a vida se diluirá e, com ela, o amor, as emoções do sonho e toda essa força em potencial que vive dentro de nós.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1952.

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Inserida por pensador

⁠É preciso estimular a mente do outro. Nem que esse outro não entenda direito, não tem importância. O estímulo foi dado.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1969.

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Inserida por pensador

⁠Eu sempre vi o mundo de uma forma mágica, eu vivo em um estado de comoção contínua, renovada, diante das coisas…

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1977.

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Inserida por pensador

⁠No mundo de hoje só um louco é que não pode pensar em utopias. Temos que desejar a utopia, sonhar com a utopia.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1980.

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Inserida por pensador

⁠É o processo da vida que é tão complexo! Eu não saberia simplificar esse processo para ser mais compreensível, é o meu próprio processo dificultoso de existir que faz com que venha essa avalanche de palavras, umas assim barrocas demais, e que tudo seja misturado.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1986.

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Inserida por pensador

⁠Talvez eu seja uma pessoa com uma intensidade meio desesperada, uma lucidez também desesperada.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1986.

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Inserida por pensador

⁠Eu acho que a vida transborda, não existe uma xícara arrumada para conter a vida!

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1986.

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Inserida por pensador

⁠Eu acho que a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1987.

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Inserida por pensador

⁠Não sei nada sobre a minha obra. Só sei que a escrevi. Durante cinquenta anos pude escrever tudo o que queria escrever.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 2001.

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Inserida por pensador

⁠Considero ignorante quem não ousa se aproximar das coisas absurdas, do indizível.

Hilda Hilst
Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst. São Paulo: Globo, 2013.

Nota: Trecho de entrevista dada em 1993.

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Inserida por pensador