Poemas de Saudade de Poetas Portugueses
Atropelada
Como posso abandonar
Algo que nunca tive
Como posso amar
O que nunca conheci
Como posso sentir saudades
Do que nunca me pertenceu
Como posso sentir tudo
E ficar tão vazia
Como posso
Agora desistir
Se nada aconteceu
Onde mora
A divindade dos sentimentos
Que tanto desejei
E nunca compartilhei.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Sem Fim
Por favor, me espere e não desesperes porque chego tarde.
Não tropeces no conflito do dia porque chego fora de hora.
Deixe as horas correr, não as esperes exatas porque ando acompanhada e tenho que aguardar a brecha do dia para te abraçar.
Não penses
Não conclua
Porque não aconteceu nada...
Nada?!
Só o meu desejo que te procura e te apalpa pelas ruas e esta vai ser uma história até agora sem fim!
Fim não existe, você vais voar eternamente sem saber onde pousar teus sentimentos, e eu ficarei louca avistando a tudo, despida ou coberta de seus fragmentos e ainda serei um mosaico de palavras sem sentido porque:
Nunca é um tempo
Longo demais
Para não amar.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Código
Havia em você uma ética e um código que nunca decifrei
Havia alamedas em seu falar onde nunca andei
Havia sabores em seus beijos que nunca experimentei
Havia muito mais
Que nunca descortinei
Medo
Muito medo
Você não sinalizou
E me perdi
Hoje você passa
Me desconhece
E no paralelo
Desse desencontro
Vestígios
Alucinada
Inesperada
Incendiária
Inconseqüente
Eu fui
Em avançar sobre você
Não me inscrevi
Assediei
Havia exercícios
Que nunca professei
Simplesmente
Tropecei
Na ordinária declaração
Do regulamento
Abri meus braços
Meu coração
Depus minha oração
E você
Não me viu
Me desculpe
Por favor
Não se assuste
Isto passa
Com o tempo
Vira páginas
Mas repagina
Meu
Viver.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Exercício
Não posso ver
Mas posso sentir
Não posso tocar
Mas posso vibrar
Não posso falar
Mas possuo imaginação
Não posso caminhar até você
Mas posso voar até você
Não posso vociferar seu nome
Mas posso flutuar em suas palavras
Posso
Posso
Posso
Até que tudo passe
Vire outra paisagem
E nesta
Miragem
Você ainda
Me pertence.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Meu Deus
Quero ir embora
Quero ir para o meu Goiás
Lá ando nu
Pelas savanas
Escondo-me no capim dourado
Vestido de bicho bravo
Quero ir embora, meu Deus.
Quero ir para o meu Goiás
Ficar debaixo do sol
Manobrando meus instintos
Atento aos ruídas do dia
Beber água do absoluto Araguaia
Ficar lá só e somente
Onde nada toca insistentemente
E tudo roça levemente
Ai, meu Deus,
Quero ir embora
Quero ir para o meu Goiás
Onde a lua cheia
Clareia as queda d’água
E polvilha de choro
Que as avista
Quero ir embora, meu Deus.
Mergulhar à noite
Em seus grãos dourados
Sentir-me empoeirada
De ventas de todo Brasil
E neste batismo
Quero ir para o meu Goiás
Chegará planície
E nesta lonjura
Avistar a chuva
Esconder nas vielas
Cheirar outros tempos
Amainar a saudade.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Inverno Intenso
Não era verão
Mas choveu
Era inverno
E a água desceu
Não era hora
Mas agora
Aconteceu
E com a terra encharcada
O que há de se fazer?
O frio seria intenso
Com a terra molhada
Brota
Tudo brota
E eu nesse sentimento
Nesta terra sem tempo exato
Vou trocar de roupa
Viver outros sentimentos
Outros tempos
Passar
Outras horas
Até que tudo se resolva
No tempo exato
Do coração.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Espera
Você me cozinhou
Não sei dizer se
Por aflição
Ou compaixão
Cozinhou
Verbalizou
Sentiu e
Aconteceu
Do seu lado
Do meu lado
Aqueceu
Dourou sentimentos
Te esperou
Te agradou
E escorreu
Pelo meu rosto
Subscrição
Apalermada
Abalada
Assustada
Do seu rosto
Ousado
Audacioso
Arrojado
Atrevido
Abalanceado
E no tremor
Do quebra-luz
Aquém
Do subornável
No agitar dos sedimentos
Estremecimentos
Nós
Apesar de tudo
Vivemos o todo.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Morta
Eu sonhei com você
Mas você não existe
Tem sua cara quadrada
Mas
Possui minhas palavras
Tão sonhadas
Sonhei profundo
Desejei demorado
E os movimentos
Que articulou
Eu inventei
Para você fazer
É imaginário
Não existe
Resiste em meus pensamentos
Voa sobre eles
Mas você não existe
É ilusão
É minha invenção
Sobre o seu calor em meu corpo
Você não existe
Resiste
Mas agora vou desistir
Em sonhar
Sobre você
É só mentira
De um corpo vivo
Sem alma
Sem vida
Para viver
O que sinto por você.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
“A cidade dos Muros"
Na sua vida muros
Minha vida pontes
Ultrapassar
Indecisão
Te esperei
Aos pés das pontes
Você não apareceu
Ficou rente aos muros
Não me viu
Talvez estivesse
Me esperando
Assim
É mais romântico
Murros quero dar
Destruir estes muros
Para que me veja
Te esperando
Nas pontes
Interligando canais
Navegue entre eles
Como todo carma
Talvez algum dia
Nos vejamos em
Veneza
Nesta hora
Tenho certeza
Seremos carnais
Ou
Assim
Murros quero dar
Destruir muros
Ficar somente pontes
Interligando canais
Como todo carma
Te espero em Veneza
Ou
Assim
Vou destruir muros
Para que me veja
Navegue nos canais
Carnais
Talvez algum dia
Nos vejamos em Veneza.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Não Sei
Eu não sei se o que você sente
É tão intenso
Como eu sinto
...mas...
Você não quis sentir comigo
O quanto sinto por você
Virtual
Antigo
Metafórico
Platônico
Muito econômico
Talvez
Até impossível
...e você diz:
...você é rica!
Respondo:
Minha maior riqueza
Nesta hora
E você
Deixe-me
Me diz:
Não
Não
Não
Você discorda
De brincadeira
Diz:
Sim
Sim
Sim
Sou tão simples
Que lhe mete medo
Há certos sentimentos
Que não têm preço
Mas tem
Um apreço enorme.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Fale
Se você não quer falar comigo
Não tem problema
Eu falo por você
Nesta hora sua mudez
Vira conto.
Verso,
Metáfora
Aí tenho as rédeas
Sou dono de suas palavras
Impero e domino seus movimentos
Eu olho para você
Você olha em mim
E em versos
Dialogamos
E nos amamos para sempre.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
O poeta é inventor
Um poema é ilusão
Expressão de sentimento
Mera imaginação
Distante da realidade
Pura criatividade
Ninguém fala em verso, não
Identidade
Tem paixão
Pitadas de loucura
Com volúpia
É líquido
Intenso
Momo
Resoluto
Absoluto
Penetrante
Tem mais versos
Para você
Do que imagina
Você não imagina
Você voa perdido
Não tem magia
Vive fechado em si mesmo
Recolhido em egoísmo
Não revirou
minhas páginas
Não se interessou
Somente em si olhou
E não me admirou
Não viu minhas cores
E nem disse palavras mágicas
Sai de mim
Não sou seu encosto
Nem empresto minhas cores
A quem desbotado vive.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Amanhã
Amanhã é outra história.
Amanhã é outro dia.
O descortinar é diferente.
Observe:
Difere dos outros dias
Das tardes
Dos céus cobertos
Ou encobertos
Simplesmente
É outro dia
Outra decisão
Outras palavras
E não foi tudo em vão
Não aconteceu nada
Mas é outro dia
Porque:
Nenhum dia pela manhã é igual
Nem você é igual
A todos os dias
E único.
Profundamente
Especial.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Preste Atenção:
Minha casa tem quatro janelas
Sopram ares de toda natureza
Primavera,
Verão,
Outono,
Inverno.
Minha casa tem três portas
Por onde ventam
Saúde,
Paz,
Prosperidade.
A casa tem quintal
Onde circundam muros centenários
Dentro deles,
Histórias ancestrais.
Nela tudo tem vida
Em cada canto e recanto.
ENTRE:
A cada tábua que range
Ao seu pisar
Preste atenção: a casa FALA.
Em cada prato dependurado na parede
Que se curva a sua passagem
Preste atenção: a casa te OBSERVA.
Em cada cortina que balança
Preste atenção: a casa RESPIRA.
E se o café perfumar e cheirar seus ares:
Preste atenção: ela é VAIDOSA.
Minha casa
"Encantada"
Espelho da minha intenção
É muito bom te receber.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Vista Manhã
Silenciosamente, te olhei.
Admirei:
Seu perfil distraído.
Suas sobrancelhas arqueadamente atrevidas,
Sua boca decidida,
Suas mãos carinhosas.
Você, a minha melhor paisagem.
Sua companhia, a minha maior viagem
SEMPRE.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Nunca
Nunca
Nunca devia ter te beijado
Nunca
Deverias ter deixado
Seu rastro em mim
Tanto amor
Fiquei violeta
Chamaram médicos
E não viram
Que mal você causou
Porque o fogo que sinto
É febre
Causa
Caldo
Ferida
Onda
Pranto
Crepúsculo
Que cai nas tardes
Em febre
Sou consumida de ti.
Livro: Não Cortem Meus Cabelos
Autora: Rosana Fleury
Teatro de sombras
Tarde angustiante
Vento sorrateiro,
Quarto fechado
Espelhos iluminados.
Frio.
Vestiu-se com apuro.
Preto e prata.
Amoras colorindo a boca.
Amores secretos.
Silêncio
Brincos aprumados,
Nos dedos anéis engessados.
Gritos no estômago,
Alarde de afetos famintos.
Palavras alteradas,
Olhares esvaídos
Pulseiras.
Encanto nos aros,
Apegos secretos aprisionando o calo.
No pulso
Compasso
O sufoco de um bandorion afogado.
Passos acre.
A calúnia dos dias.
Edificação de inverdades
Aperfeiçoamento embebedado de ternura.
Marcha e ditado.
Guerra.
Mortos.
Feridos.
Fuga
Escoamento.
No luto,
A rua,
O mundo,
A diversidade,
O conceito,
A lâmina da integridade.
Palco.
Episódio
Enfeitado de sombras.
Marionetes e palavras.
Malabaristas equilibrando sonhos.
Frases perfumadas com cardamomo.
Formato e bastidores.
Escrita
Lacrimejado em letras
Literatura,
Teatro do amar
Livro Pó de Anjo
Autora: Rosana Fleury
Formas
Não decidirei
Em poesia
Não foi poético
Nosso fim
Foi na rua
Minha dor
Avançando desesperada
E você jogou
Seu beijo
No espaço
Como resposta
E com quantos
Beijos se arranja um amor
Da dor eu sei
Do amar é passado
E do resto
Escreverei amanhã
Livro Pó de Anjo
Autora: Rosana Fleury
Inconstante
Ficava ali, presa ao chão, porque nela morava a inquietude permanente amarrada aos ventos.
Fecharam todas as portas e janelas para que não viajasse desavisadamente e flutuasse entre as fechaduras espalhando segredos.
De vez em quando era posta ao sol a aliviar bolores e choros que avisavam os anjos de sua dor, dos quais sempre conversava.
Eles a espreitavam e comungavam com sua dor.
Seu lamento estava inconveniente e colocava a felicidade no embaraço.
E não adiantava água benta, somente lágrimas salgadas silenciavam sua inquietude.
Ninguém a alcançava, dançava solitária com seus pensamentos.
Navegava.
E os acontecidos passados espirravam em seu rosto como recordações enganadas.
Muito tempo se passou e amanheceu diferente, com os olhos claros de cílios alongados de negro.
Na porta alguém trouxe a correspondência.
No desembalar, uma carta sem remetente, amarfanhada, com uma pérola quase imperceptível dançando entre letras descritas, grafada nas sílabas:
“Única”.
E o sorriso de sua boca eclodiu como resposta.
Livro Pó de Anjo
Autora: Rosana Fleury
