Poemas de Luto
EU PERTURBADO
Que mulher perturbadora
Não sei se ela está em mim,
Ou sou eu que estou nela!
E assim perturbadamente,
Me perturbo!
Não sei se sou um tolo apaixonado,
Ou apaixonado sou tolo!
Eu sei que esta mulher perturbadora,
Na minha mente deu um nó.
E sigo perturbadamente apaixonado
Por esta mulher perturbadoramente sedutora
Talvez seja eu o perturbado,
Ela apenas a mulher sedutora.
Algumas pessoas fazem de tudo
Para se darem bem
Algumas acreditam na teoria
Do "tudo vem"
Outras querem estar por cima
Humilhando a quem realmente precisa
A única coisa que eu preciso
É do seu sorriso
Pois você pode ter certeza
Que você feliz, é minha fortaleza.
O teu silêncio
O teu silêncio me ensurdece de saudade.
A memória insiste no perfume de instantes
abreviados por uma fronteira que nunca existiu.
E quanto a mim, perdido estou em sonhos flutuantes,
recostado à cabeceira, numa noite de lua minguante.
Meu coração míngua também, ele apequena
e a saudade só aumenta.
O teu silêncio, eu quereria no instante de um abraço.
Mas o silêncio é a presença de tua ausência.
E eu nada poderei.
Sua presença amável e sorridente
Carinhosa, linda sempre surpreendente
Como posso esquecê-la e ficar mudo
Em nossos momentos era meu tudo.
DOS PLAGIATOS
Das vezes de quem me escreve,
uma inteira contrafação.
Momentos, do qual me padece,
faz-se morrer meu coração.
Não sinto qualquer coisa minha
a vaguear dentre as estrelas...
Notas, que eu já tinha,
perderam-se, não posso vê-las.
Pobrezinho: um santo amante,
que não me convém um só amor.
Faz-me, num pouco instante,
um sentimento, sem mesma dor.
As vezes só queria ti vê
sorrindo aqui no meu ombro.
As vezes queria ti vê,
bem longe do mal destino
que nos queira vê.
Te vejo aqui
Sem poder do lugar sair
Te vejo lá
Lá em outros poemas
Lá em outras páginas
Não sei se é você
Mas quero que seja minha dádiva.
Perdi o amor que tinha pra amar um amor sem vida,
Então, o amor sem vida que teve vida um dia,
Foi embora e deixou o amor que tinha sem vida,
Hoje só me resta o antigo amor que tinha morto sem vida.
CHUVA DE PRIMAVERA
Hoje é domingo,
Dia lindo!
Queria o sol
Que abre a primavera,
Que me prepara para o verão.
Mas, hoje acordei com chuva,
Chuva forte no meu jardim.
Vejo a alegria do verde,
Do pássaro que voa
A procura de um abrigo,
Do grilo que se cala
Debaixo da velha folha.
Agora aceito a chuva
Que cai no meu jardim.
Aceito o seu chamado
Molhado, urgente...
E danço, e corro,
E grito sentindo
A natureza em mim.
O VOO DA ARTE
Por que poetizo?
Porque vem da alma,
da vontade.
Voam as palavras
soltas pela inquietação,
pela imaginação...
Sem destino,
sem pouso,
sem porto.
Voam as palavras,
porque voam!
Sem asas,
sem certezas.
Saem de mim,
porque procuram liberdades!
Seis Versos
Eu sou um rio mágico
Rápido lúdico lusco-fusco
Crepúsculo
Eu sou um rio físico límpido
Profundo raso vasto
Translúcido
Um rio que sou tanto
Pra nado pra pranto
Sem pausa versátil
O abrigo do medo
Refúgio do trágico
Claro rio sagrado Profano fantástico
Meu curso meu leito
No meio me rasgo
Bifurco duvido Prossigo
E me acho.
Porque sou infinito
humano riacho...
Professor
Professor
É um eterno construtor
Não de prédio, nem de tecnologias...
Mas, de almas que sabem
O valor de um sorriso.
O professor liberta as mentes e corações
Aprisionados pela ignorância.
Professor...
É fonte.
É caminho.
É espelho...
É rio.
Que escava seu caminho pelas pedras...
Que luta pelo saber.
E como barco te conduz ao mar do conhecimento!
Professor...
É seta no horizonte.
É vocação.
Abnegação.
Só sabe o valor
Do professor
Quem passou
Pelo bando de escola...
E encontrou um amigo
Um companheiro...
Viu nele Inspiração.
Diálogo
A escuridão, ainda menina, chama-me às ruas frias
Sou a andarilha proscrita das noites de luas vazias
Não escondo meu rosto destas gentes curiosas...
Que vejam a mulher vil, triste que sou...Lamuriosa.
Mas amiga, nem sempre foste assim, amarga e sombria
Houveram dias de sol e mar à brilhar sobre tua tez macia
Diga-me: Porque te enfadastes das doçuras do amor?
Porque voltaste as costas ao toar das carícias em clamor?
Ah, minha amiga, nada sabes das minhas dores imensas...
Das noites em que doei o mais sublime amor que pensas
Ofertei-me de corpo e alma, desnuda em juras e poesias
Ofereci rosas e mel; em troca ganhei abandono e heresias.
Mas não te entregues às trevas, óh amiga tão triste e bela.
Busca a luz dos sonetos mais puros, alegres em aquarela
Esqueça-te do passado, volta-te para os presentes dias...
Quem sabe, ainda pousam nos teus jardins as andorinhas?
Não perca teu precioso tempo com minh'alma, óh amiga!
Não haverão pássaros à cantar para minha causa perdida.
Sou aquela que vaga em busca da morte que trará paz
Somente o corvo me acompanha, nada e ninguém mais...!
O GRITO
Não, sinto muito, mas não posso mais
O pranto me sufoca a garganta, tusso convulsivamente
Me rouba o sono, me tira a paz, me torna incapaz
Preciso gritar no poema que cala
esbravejar na poesia, essa utopia sem eira nem beira
assim mesmo...
Sem métrica, sem rima, sem metáforas ou alegorias
Qualquer coisa aqui dentro precisa de desvencilhar,
bater asas pelo céu escuro da madrugada,
desencarnar o verbo, livrar o corvo
dessas grades de prata!
Meus olhos estão cansados
Já não comportam mais as torrentes lamaçais
Crispo os dentes em desespero e rancor
Nem sei se vivo ou morro
( E eu tenho escolha?)
O diabo me ronda a alma...
A navalha ao meu alcance,
um lance
Um lance apenas
e jamais...
...Nunca mais debilidade
Basta um pequeno corte na radial
Sangria intermitente
Fim, eminente.
Eternamente...
E na insanidade
Nesta dubiedade colossal vou seguindo
Escrevendo estas linhas dementes
Que talvez ninguém chegue à ler!
Mas não faz diferença
Vou esbravejar aos quatro ventos minha dor
meu lamento cheio de apatia,
" nisso" o que chamo de
poesia.
De que outra forma perdurar a vivência,
já que sou covarde por demais para estanca-la,
e não tenho como, ou para onde fugir...!
Ei-la, Eulália
E quando Eulália sai pelas noites além,ruas frias e vazias
Todo o ar se condensa em torno dela, uma tristeza corpórea
Ela não anda. Plaina leve tal qual um fantasma desgraçado
Uma aparição que surgiu não se sabe de onde, para onde...
Eulália nem mesmo sente mais como uma mulher corpórea
Há muito perdeu a crença em qualquer sentimento alheio à dor
Vaga pela vida, branca como a neve, o seu rosto belo e medonho
Àqueles que a veem, à desejam, mas fogem dela com pavor!
Ela é a expressão de todas as " Eulálias", Marias e Anas da vida
As mulheres que se doam e nada recebem, tornam-se opacas
Não aspiram mais o amor nem carícia alguma que as embale...
Por isso, apartem-se de Eulália_ Deixem-na só com sua agonia!
Que ela perambule pelos bares ébrios e confins desta terra morta
Deixem-na só com seus sonhos mortos, com sua poesia triste...
TEMPO DE CRIANÇA
Se num momento passado
Tudo era esperança...
Em uma criança o que se busca
É um amor eternizado...
Se num mundo imaginado
Tudo é de cor azul,
Aos céus se faz mover
Os trovões emaranhados...
Se em cada voz o cantar
É de felicidade e promessas...
Desde tudo às faz passar
O Deus da vida, o bem amado...
Se das estrelas pingarem
Lágrimas de amor enfeitado,
De inocentes pedintes
O afeto dos céus é brotado...
Mas se por luas dormentes
O branco não for de paz,
Nasce da voz pequenina:
Das noites se tenha cuidados...
E assim se vão ao tempo
De cantos brindando o mundo,
De cada gesto em segundo
Ganhando os céus sem pecados...
Sei que não somos
cenas dos nossos
filmes favoritos,
muito menos perfeitos;
sei que o seu amor
é perfeito para meu
coração avesso;
sei que bastou
meus olhos tocarem
os teus e você
tocar minha alma
para começar a
desenhar versos
sobre como é bonito
o teu sorriso;
sei que o seu amor
foi feito para mim;
sei que você foi
feito para mim
e que amo cada um dos
teus defeitos, cada um
dos teus beijos, cada
um dos teus afagos,
seus olhos, seu sorriso,
você...
As marcas da infância refulgem
No meu eu posterior,
Estes sinais otimizados me guiam
Por caminhos desconhecidos.
Cicatrizes de uma criança
Descansam na minha massa cinzenta,
Os pensamento atrozes julgam-me
Por minha versão anterior.
Sou uma criança atualizada,
Sem máculas do passado,
Com as cicatrizes curadas
Sou criança mesmo que adultizado.
Prisão
Enclausuro da alma
O tempo se arrasta... tic toc, tic toc, tic toc
No tear da sedução das sombras a escapar do agora
Vórtex de memórias repartidas
-perdido em sonhos
O juri lança sua sentença
Nunca ouviram a orquestra que retumba o peito dos visionários
Ruflam chamas !clamam brasas!
Um zangão não profetiza as cores que não enxergam a colmeia
DIZEM ELES
Se deleitar com a fruta do saber
E pedir retirada de algum paraíso
essa exclusão cria mais ânsia de peneirar o sol
Sou prisioneiro de mim quanto impeço a lágrima de tomar seu curso para o mar
Quando nego que a sombra é a irmã gêmea do iluminar
Quando orgulhosamente tomo parte ou me abstenho da guerra
Verdadeira liberdade é semear se o deves
Furtar o fogo dos deuses e completar na vida sua missão
Maior ilusão é a morte
O que chamamos de vida em relação ao universo é uma fração de miragem
Cada sopro seu meu amigo gira toda engrenagem
Ao enfrentar o dragão quixote desnuda a quimera
O deleite de agora é o suspiro das eras
Cada pensamento que emana uma ilha na expedição
Logro é ter asas e não estar longe do chão
Voe desbrave viva e mata!
A cada novo sonho afia o teor da sua visão
O que realmente te mata é ter a liberdade na mão e permanecer enclausurado! Me vejo como sou e despenco no abismo
Navego nas profundidades da minha existência
Extraio a essência do interminável no agora
O universo é o meu legado
Tua face pálida e teu olhos de anjo noturno me mantém acordado!
E emfim A corda!
Que amarrava o meu pescoço no dia em que me encontrei
Foi a que usei para escalar o fundo do poço.
(Um pirata)
DESPREZO (soneto)
Quão dor eu sinto, pelo desprezo
onde espera palavras num abraço
olhar no olhar enleado por um laço
e por vezes se tem o pesar aceso
Procuro então respirar, assim faço
nesta incisão, sair dali sendo ileso
do que cortês nele eu me ver adeso
ferindo o ser dum conforto escasso
Se leve ou reles, nos faz indefeso
é crueldade que só traz embaraço
Será que sabes deste agravo teso?
É complicado todo este compasso
do afeto em luta e ao bem coeso
quando o amor no amor é fracasso
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
