Poemas de Fernando Pessoa -Salazar
Queria acordar todos os dias ao teu lado, e que seu sorriso fosse a primeira coisa que eu visse pela manhã. Queria sentir seu abraço, e bagunçar teu cabelo. Queria poder te chamar de idiota e logo depois dizer que te amo. Por mim passaríamos horas no telefone, somente ouvindo a respiração um do outro e desejando que o tempo nunca passasse. Queria estar contigo nos dias de chuva assistindo filme de terror com pipoca, embaixo do edredom. Queria ficar te observando enquanto você dorme. Queria ser tua confiante, tua melhor amiga. Seríamos aquele tipo de casal que acreditaria no para sempre, que desenharíamos um coração na areia da praia. Queria acordar com suas mensagens, ou te ligar só pra dizer que te amo. Esperaria ansiosa pela próxima vez que te veria novamente e pularia nos seus braços. Nossos beijos seriam eternos, e o mundo inteiro pararia enquanto eu estivesse em seus braços. E eu me sentiria a garota mais feliz do mundo quando te fizesse sorrir, ou a mais bonita só por te ver me observando.
Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha, e tenho.
Uma viagem bem longa, para bem longe daqui, talvez resolvesse, se é que há mesmo algo para ser resolvido. Mas talvez a solução esteja na paisagem interna, não na externa. Talvez eu possa modificar aquela sem modificar esta. O que eu queria era modificar a duas, de uma só vez. Queria ter o que ver, quando olhasse dentro ou fora de mim.
Tenho um amor fresco, com gosto de chuvas, raios, e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa.
O rosto agora tinha uma expressão de prazer. Ou de expectativa de prazer. À beira da alegria, o rosto.
Uma vitória louca, uma vitória doente. Não era amor. Aquilo era solidão e loucura, podridão e morte. Não era um caso de amor.
O erro? Eu dizia, pois é, o erro. Eu penso, se o erro não foi de dentro, mas de fora? Se o erro não foi seu, mas da coisa? Se foi ela quem não soube estar pronta? Que não captou, que não conseguiu captar essa hora exata, perfeita, de estar pronta. Porque assim como o movimento de apanhar deve ser perfeito, deve ser perfeita também a falta de movimento, a aparente falta de movimento do que se deixa apanhar. Você me entende? Eu penso também, e se houve alguma interferência no. No em-volta-dos-dois, no ar. No astral, eu penso também.
Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais.
- Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
Ando viciado em coisas lentas, lentas e essenciais, em música e, sobretudo, estou viciado em silêncio.
Quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona.
Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto.
Você sabe que vai ser sempre assim. Que essa queda não é a última. Que muitas vezes você vai cair e hesitar no levantar-se, até uma próxima queda. Prefere jogar-se numa atitude que seria teatral, não fosse verdadeira, sentir os espinhos rasgando carne, as pedras entrando no corpo, o rosto espatifado contra o fim desconhecido. Precisa ir até o fundo.
Não se esforce. Pelo menos, não tanto. Não fique aí remando contra a maré, dando murro em ponta de faca. Se não for pra ser, não vai ser.
