Poemas de Clarice Lispector

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Mas como me reviver? Se não tenho uma palavra natural a dizer. Terei que
fazer a palavra como se fosse criar o que me aconteceu?
Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é
vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não
é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma
criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo -
traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender
para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse
acordada não seria linguagem.
Até criar a verdade do que me aconteceu. Ah, será mais um grafismo que
uma escrita, pois tento mais uma reprodução do que uma expressão. Cada vez
preciso menos me exprimir. Também isto perdi? Não, mesmo quando eu fazia
esculturas eu já tentava apenas reproduzir, e apenas com as mãos.

in A paixão segundo GH pág 21

Clarice Lispector

O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus
pensamentos eram, depois de erguidos, estátuas no jardim e
ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.
Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre
também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas
a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a
brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava muito rapidamente, sem poder parar de inventar. É porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto — refletia.

Clarice Lispector

O resultado disso tudo é que vou ter que criar um personagem — mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá outro modo de salvar-se? senão o
de criar as próprias realidades? Tenho força para isso como todo o mundo — é ou não é verdade que nós terminamos por criar uma frágil e doida realidade que é a civilização? essa civilização apenas guiada pelo
sonho. Cada invenção minha soa-me como uma prece leiga — tal é a intensidade de sentir, escrevo para aprender.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector

Este ao que suponho será um livro feito aparentemente por
destroços de livro. Mas na verdade trata-se de retratar rápidos vislumbres
meus e rápidos vislumbres de meu personagem Ângela. Eu poderia pegar
cada vislumbre e dissertar durante páginas sobre ele. Mas acontece que no
vislumbre é às vezes que está a essência da coisa. Cada anotação tanto no
meu diário como no diário que eu fiz Ângela escrever, levo um pequeno
susto. Cada anotação é escrita no presente. O instante já é feito de
fragmentos. Não quero dar um falso futuro a cada vislumbre de um
instante. Tudo se passa exatamente na hora em que está sendo escrito ou
lido. Este trecho aqui foi na verdade escrito em relação à sua forma básica
depois de ter relido o livro porque no decorrer dele eu não tinha bem clara
a noção do caminho a tomar. No entanto, sem dar maiores razões lógicas,
eu me aferrava exatamente em manter o aspecto fragmentário tanto em
Ângela quanto em mim.
Minha vida é feita de fragmentos e assim acontece com Ângela. A
minha própria vida tem enredo verdadeiro. Seria a história da casca de
uma árvore e não da árvore. Um amontoado de fatos em que só a
sensação é que explicaria. Vejo que, sem querer, o que escrevo e Ângela
escreve são trechos por assim dizer soltos, embora dentro de um contexto
de...
É assim que desta vez me ocorre o livro. E, como eu respeito o que
vem de mim para mim, assim mesmo é que eu escrevo.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector
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Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei
o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É?
Também , também.
Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida.

Clarice Lispector

“Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido.
Cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
Esta paciência eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange."

Clarice Lispector

"Experimentamos ficar calados - mas tornávamos inquietos logo depois de nos separarmos"

(Felicidade Clandestina)

Clarice Lispector

"E todos os dias ficarei tão alegre que incomodarei os outros,
o que pouco me importa,
já que eu tantas vezes sou incomodada pela alegria superficial e digestiva dos outros."

Clarice Lispector

Tempo não é algo que se compra ou se produz
Está dentro de nós, da nossa vontade
Viver só vale a pena quando provoca saudade

Clarice Lispector

Silêncio.
Se um dia Deus vier à Terra, haverá um silêncio grande.
O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.

Clarice Lispector

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Clarice Lispector
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Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Clarice Lispector
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Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector
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Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Clarice Lispector
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Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector
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Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

Clarice Lispector
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Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.

Clarice Lispector
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É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

Clarice Lispector
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E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.

Clarice Lispector
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Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

Clarice Lispector
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