Poemas de Clarice Lispector

Cerca de 1373 poemas de Clarice Lispector

Talvez eu agora soubesse que eu mesma jamais estaria à altura da vida, mas que minha vida estava à altura da vida. Eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas minha raiz existia.

in A Paixão Segundo GH. pág 178

Clarice Lispector

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espasmos instatâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido.


in A Paixão Segundo GH. pág 178

Clarice Lispector

"Abro o jogo!
Só não conto os fatos de minha vida:
sou secreta por natureza.
Há verdades que nem a Deus eu
contei. E nem a mim mesma. Sou
um segredo fechado a sete chaves.
Por favor me poupem".

Clarice Lispector
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É como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável.
Sei que é somente com duas pernas é que posso andar. Mas, a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?
Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Havia aquela coisa latejante a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa

Clarice Lispector

Tudo tem que ser bem de leve para
eu não me assustar e não assustar os
que amo.
Pedem-me pouco, pedem-me quase nada.
O terrível é que eu tenho muito para dar
e tenho que engolir esse muito e ainda
por cima dizer com delicadeza : obrigada
por receberem de mim um pouquinho de mim.

Clarice Lispector

Quem já não
se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece
senão através de ir vivendo à toa.

Clarice Lispector

"Ela sabia o que era desejo - embora não soubesse que sabia.
Era assim: ficava faminta mas não de fome, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraço.
Tornava-se toda dramática e viver doía."

Clarice Lispector

Ah, então era por isso que eu sempre havia tido uma espécie de amor pelo tédio. E um ódio contínuo dele.
Porque o tédio é insosso e se parece com a coisa mesmo. E eu não fora grande bastante: só os grandes amam a monotonia.



Mas o tédio - o tédio fora a única forma como eu pudera sentir o atonal. E eu só não soubera que gostava do tédio porque sofria dele. Mas em matéria de viver, o sofrimento não é medida de vida: o sofrimento é subproduto fatal e, por mais agudo é negligenciável.

in A Paixão Segundo GH. pág 141

in A Paixão Segundo GH. pág 141

Clarice Lispector
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Para termos, falta-nos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência - bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.
Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver.

in A Paixão Segundo GH. pág 152/153

Clarice Lispector

Vê, meu amor, vê como por medo já estou organizando, vê como ainda
não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer
organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim
mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu
tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar
de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender,
o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.
Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer
coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a
palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque
amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?

Clarice Lispector
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Ou estarei apenas
adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por
medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do
que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale.
Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à
enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que
acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do
ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que
há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?
E porque não tenho uma palavra a dizer.

pág 19/20

Clarice Lispector
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Eu estava tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade silmutânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.




O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro - - - - - -


in A Paixão Segundo GH. pág 179

Clarice Lispector

E coca-cola. Como disse Cláudio Brito, tenho mania de coca-cola e de café.
Meu cachorro está coçando a orelha e com tanto gosto que chega a gemer. Sou mãe dele.
E preciso de dinheiro. Mas que o "Danúbio Azul" é lindo, é mesmo.

Clarice Lispector
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"E "eu te amo" era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.
Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede.
Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. "

Clarice Lispector
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“É por isso que na graça eu me mantive sentada, quieta, silenciosa.
É como numa anunciação. Não sendo porém precedida por anjos.
Mas é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.”
(Agua viva)

Clarice Lispector

A desistência é uma revelação
Desisto, e terei sido a pessoa humana
-E só no pior da minha condição que esta
É assumida como meu destino

Clarice Lispector

Por que ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem do fogão que se destampa?

In: Coração Selvagem

Clarice Lispector

Eu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto é
vivo, para saber que uma barata é a vida. Havia recuado até saber que em mim a
vida mais profunda é antes do humano - e para isso eu tivera a coragem diabólica
de largar os sentimentos. Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder
entender a largueza, muito mais que humana, do Deus. Havia eu pedido a coisa
mais perigosa e proibida? arriscando a minha alma, teria eu ousadamente exigido
ver Deus?
E agora eu estava como diante Dele e não entendia - estava inutilmente de
pé diante Dele, e era de novo diante do nada. A mim, como a todo o mundo, me
fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a
minha alma para saber. Mas agora eu entendia que não a vendera ao demônio,
mas muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que
eu não saberia ver o que visse: a explicação de um enigma é a repetição do
enigma. O que És? e a resposta é: És. O que existes? e a resposta é: o que
existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas não a de ouvir a resposta.

in A Paixão Segundo GH. pág 134

Clarice Lispector
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A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é
maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco
cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la. Minha vida é mais
usada pela terra do que por mim, sou tão maior do que aquilo que eu
chamava de “eu” que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria.

in A Paixão Segundo GH. pág 122/3

Clarice Lispector

Escuta, diante da barata viva, a pior descoberta foi a de que o mundo não é
humano, e de que não somos humanos.
Não, não te assustes! certamente o que me havia salvo até aquele
momento da vida sentimentizada de que eu vivia, é que o inumano é o melhor
nosso, é a coisa, a parte coisa da gente. Só por isso é que, como pessoa falsa, eu
não havia até então soçobrado sob a construção sentimentária e utilitária: meus
sentimentos humanos eram utilitários, mas eu não tinha soçobrado porque a parte
coisa, matéria do Deus, era forte demais e esperava para me reivindicar.

pág 69 GH

Clarice Lispector