Poemas de Clarice Lispector

Cerca de 1373 poemas de Clarice Lispector

Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos. Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo). Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante - como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado.


Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre uma questão de vida-e-morte.

in A Paixão Segundo GH. pág 150/151

in A Paixão Segundo GH. pág 151

Clarice Lispector
18 compartilhamentos

Eu quero a verdade que só me é dada através do seu
oposto, de sua inverdade. E não aguento o cotidiano. Deve ser por isso
que escrevo. Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é
presente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz
insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável.
Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício. O que é que eu
sou? sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é
esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito?
eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu", responde-me o mundo
terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensado jamais senão
Ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age. Pergunto-
me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta
possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós
nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector
13 compartilhamentos

O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.


in A Paixão Segundo GH. 176

Clarice Lispector

Ultrapassar a dor é a pior crueldade. E eu tenho medo disso, eu que sou extremamente moral. Mas agora sei que tenho de ter uma coragem muito maior: a de ter uma outra moral, tão isenta que eu mesma não a entenda e que me assuste.

in A Paixão Segundo GH. pág 155

Clarice Lispector
47 compartilhamentos

Agora me lembrei de uma coisa engraçada. Um amigo nosso em Argel achou a moça do restaurante muito bonitinha e perguntou-lhe se queria ir ao cinema com ele.
Ela respondeu um pouco ofendida e muito digna: Pas moi, je suis vierge! (Não dá, sou virgem)
Não é tão engraçado? Ele disse que teve vontade de responder: C’est pas ma faute...(Não é minha culpa)

In: Minhas Queridas

Clarice Lispector
63 compartilhamentos

Estrelas são os olhos de Deus vigiando para que corra tudo bem.
Para sempre.
E, como se sabe, “sempre” não acaba nunca.

Clarice Lispector
64 compartilhamentos

Certamente hoje é grãos de terra. Olha para cima, para o céu, durante todo o tempo.
Às vezes chove, ela fica cheia e redonda nos seus grãos.
Depois vai secando com o estio e qualquer vento a dispersa.
Ela é eterno agora.

Clarice Lispector
12 compartilhamentos

Mas era como uma pessoa que, tendo nascido cega e não tendo ninguém
a seu lado que tivesse tido visão, essa pessoa não pudesse sequer formular uma
pergunta sobre a visão: ela não saberia que existia ver. Mas, como na verdade
existia a visão, mesmo que essa pessoa em si mesma não a soubesse e nem
tivesse ouvido falar, essa pessoa estaria parada, inquieta, atenta, sem saber
perguntar sobre o que não sabia que existe - ela sentiria falta do que deveria ser
seu.

in A Paixão Segundo GH. pág 135

Clarice Lispector

Ela passaria a noite a rezar,a olhar para o céu escuro, a velar por alguem.

Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector

Cada novo livro é uma viagem. Só que é uma viagem de olhos vendados em mares nunca dantes revelados - a mordaça nos olhos, o terror da escuridão é total. Quando sinto uma inspiração, morro de medo porque sei que de novo vou viajar e sozinho num mundo que me repele.


in Um Sopro de Vida.

Clarice Lispector
10 compartilhamentos

Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Clarice Lispector
13 compartilhamentos

E sou rancorosa. Um dia um casal me convidou para almoçar no domingo. E no sábado de tarde, assim, à última hora, me avisaram que o almoço não podia ser porque tinham
que almoçar com um homem estrangeiro muito importante. Por que não me convidaram também? por que me deixaram sozinha no domingo? Então me vinguei.
Não sou boazinha. Não os procurei mais. E não aceitarei mais convite deles. Pão pão, queijo queijo.

Clarice Lispector
29 compartilhamentos

E doidamente me apodero
dos desvãos de mim,
meus desvarios me sufocam
de tanta beleza.
Eu sou antes,
eu sou quase,
eu sou nunca.

Clarice Lispector

•Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.
•"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."
•"...Respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver."
•E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano.
•O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.
•"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?
•Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
•Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.
•Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
•Às vezes me dá enjôo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.
•“O que me atormenta é q tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'“.
•Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado.

Clarice Lispector
11 compartilhamentos

Mas de mim depende
eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se
eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas
se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei
sendo especificamente humana.

in A Paixão Segundo GH.

Clarice Lispector
16 compartilhamentos

Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é
aquela que toca na minha fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda
a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente
próxima. Sou mais aquilo que em mim não é.
E eis que a mão que eu segurava me abandonou. Não, não. Eu é que
larguei a mão porque agora tenho que ir sozinha.
Se eu conseguir voltar do reino da vida tornarei a pegar a tua mão, e a
beijarei grata porque ela me esperou, e esperou que meu caminho passasse, e
que eu voltasse magra, faminta e humilde: com fome apenas do pouco, com fome
apenas do menos.

In A Paixão Segundo GH. PÁG 123

Clarice Lispector
70 compartilhamentos

Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu
não estou me compreendendo. Estou somente amando a barata. E é um amor
infernal.

GH. 115

Clarice Lispector

Era fina, enviesada — sabe como, não é? —, cheia de poder. Tão rápida e áspera nas conclusões, tão independente e amarga que da primeira vez em que falamos chamei-a de bruta! Imagine... Ela riu, depois ficou séria. Naquele tempo eu me punha a imaginar o que ela faria de noite. Porque parecia impossível que ela dormisse.

In: Coração Selvagem

Clarice Lispector

Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras?
esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos
com as mãos. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som
harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo.
Assim: poluição.
Escrevo ou não escrevo?

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector

Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de ser prisioneira?

in A Paixão segundo GH pág 13

Clarice Lispector