Poemas a um Poeta Olavo Bilac
"[...] o movimento revolucionário diferencia-se pela constância com que, nas organizações e governos que cria, seus próprios membros se perseguem e se aniquilam uns aos outros com uma obstinação sistemática e em quantidades jamais vistas em qualquer outro tipo de comunidade humana ao longo de toda a história. A Revolução Francesa cortou mais cabeças de revolucionários que de padres e aristocratas. A Revolução Russa de 1917 não se fez contra o tzarismo, mas contra os revolucionários de 1905. O nazismo elevou-se ao poder sobre os cadáveres de seus próprios militantes, imolados ao oportunismo de uma aliança política na 'Noite das Longas Facas' em 29 de junho de 1934."
Não sabendo viver sem política, a classe letrada encontrou na ditadura o pretexto para legitimar a sua auto-indulgência. A esterilidade cultural do período foi depois inteiramente lançada à conta dos débitos da ditadura. A alegação pareceu verossímil a um público desprovido de pontos de comparação.
"[…] o Brasil é o único país do mundo onde a filosofia é uma especialização, dispensável para os intelectuais de todos os outros ramos, e onde – numa espécie de perversão complementar – um diploma de bacharel em filosofia dá direito ao título de 'filósofo'. [...] por dentro fico me perguntando quando uma similar identificação funcional começará a ser exigida aos poetas, aos santos, aos heróis, os quais formam, com o filósofo ou aspirante a sábio, a quaternidade das formas superiores de existência, que nós outros, passadistas empedernidos, imaginávamos irredutíveis a qualquer carimbo de identidade profissional."
"[O império da retórica] começa naquele dia em que o primeiro retórico apostou na eficácia persuasiva do primeiro símile: 'Sereis como deuses…'. Não há como deixar de reconhecer um eco distante dessa proposta no momento em que o homem de marketing vem nos oferecer o livre mercado das idéias como uma proteção contra a 'tirania da verdade'. Pois toda idéia que não se submeta de bom grado a essa 'tirania' não vale nada: é pura retórica."
Não li muita coisa do Zygmunt Bauman, mas num ponto ele acertou em cheio, ao dizer que o Holocausto não foi nenhuma regressão a tempos bárbaros, e sim um legítimo filho da modernidade. Ninguém gostou.
Quem gosta de ver as horríveis conseqüências impremeditadas das suas escolhas?
"Em épocas muito mais ricas, espiritualmente, do que a nossa, erguiam-se, ao menor sinal de decréscimo da qualidade literária, debates intensos sobre 'a crise da literatura nacional'. Hoje as discussões sumiram, pela simples razão de que aquilo que cessou de existir não pode mais decrescer. E aquilo que nem existe nem decresce não pode ser problema de maneira alguma."
"'As idéias têm conseqüências': é a lição imortal de Richard Weaver. Toda deterioração social e política começa na esfera intelectual."
O único texto no qual você pode procurar a verdade absoluta é o Evangelho. E essa verdade tem tantos sentidos diferentes que, depois de conhecê-la, você ainda está em dúvida sobre praticamente tudo o mais.
Minha maior mágoa na vida é não ter conseguido dar forma escrita a todas as idéias que fui expondo em aulas e conferências. Publiquei uns vinte volumes, mas ali tenho material para mais uns sessenta, no mínimo. [...] Tenho alunos trabalhando nisso, mas acho que a coisa ainda vai demorar, tão vasto é o material.
O Primeiro Mandamento institui o senso das proporções como obrigação universal incontornável. Deus considerou perfeitos muitos homens que, no julgamento de hoje, seriam condenados como pecadores contumazes.
O pior dos hipócritas é aquele que só denuncia a hipocrisia para poder jogar as virtudes no lixo junto com os vícios. Não tenho a menor dúvida de que o príncipe deles é Friedrich Nietzsche.
Quando o máximo de incapacidade vem junto com o cume da presunção, o mundo da realidade já foi abolido.
Já recomendei centenas de autores a cujas idéias tenho toda sorte de reservas. Só o pensamento ideológico exige concordância total ou rejeição categórica. O mundo real é feito de imperfeições e incompletudes.
Desde criança conheço a diferença entre as definições nominais do amor e do desejo. Mas, para perceber a diferença entre as realidades respectivas, levei uma vida inteira.
O que se chama de filósofo, nesses meios [isto é, nos meios acadêmicos de filosofia], não é o homem que luta com os enigmas nucleares da existência: é o 'especialista' nas obras de fulano ou beltrano, conhecidas até os últimos detalhes de análise textual. O 'texto' é tudo; os problemas e a realidade, nada. O culto da futilidade chega, aí, às proporções de um pecado contra o espírito. E ainda se esconde por trás do pretexto nobilitante de uma austeridade disciplinar, que se abstém de tratar dos problemas filosóficos diretamente por zelo de escrupulosidade filológica.
Enquanto estiver absorvendo uma ideia antagônica, você estará em conflito consigo mesmo. A vida intelectual é feita desse conflito mesmo: não é possível tê-la com todos os problemas resolvidos de antemão, sem dúvidas, sem angústias e sem sofrimentos.
O grande Georg Jellinek ensina que a primeira precaução em História e ciências sociais é aprender a distinguir entre as ações racionais deliberadas e o acúmulo de causas impessoais e anônimas. Em geral o que os cientistas sociais fazem é ocultar sob estas causas as suas próprias ações racionais deliberadas.
Ficar indignado é abdicar da dignidade antes que os ofensores acabem de liquidá-la. Por isso até o protesto mais justo precisa de prudência e bom-humor. Guarde sua cólera para os casos em que o ofendido seja o próprio Deus.
Se o Caetano Veloso é intelectual, a Márcia Tiburi é filósofa, o Marcelo Rubens Paiva é escritor e o Tomole é jornalista, TUDO É PERMITIDO.
Pode-se opor o discurso 'ideológico' ao 'científico', mas ambos são igualmente racionais. Em princípio, qualquer opinião política é ideológica. Quem não sabe disso não deveria ser consultado nem sobre jogo de futebol-de-botão.
Os professores universitários de filosofia, neste país, são incapazes de avaliar por si mesmos a importância de uma obra filosófica. Sem a aprovação das autoridades estrangeiras, ficam perdidinhos e desamparados numa rede de dúvidas sem fim.
