Poemas a um Poeta Olavo Bilac
Iluminismo e liberalismo estão certos nos valores que afirmam e errados naqueles que negam. Leibniz já havia observado que isso acontece com muitas filosofias.
Quem se arrepende perante Deus é o topo do seu ser, a sua parte mais elevada e altiva, o núcleo mais luminoso da sua autoconsciência. Se não é daí que vem o arrependimento, não é arrependimento, é só vergonha de estar nu. O arrependimento verdadeiro não se refere a nenhum dos seus miseráveis pecadinhos cotidianos, grandes ou pequenos, mas à suprema e única tentação, da qual nascem todas as outras por reflexo longínquo: a tentação de sentir-se uma entidade espiritual autônoma, sem raiz no eterno.
Só aquele que se conhece, que domina o panorama da sua alma desde o topo da sua autoconsciência pode saber o que é o arrependimento verdadeiro, e esse arrependimento é total e instantâneo, é uma graça indescritível, que muitos só alcançam na hora da morte mas que às vezes, por uma espécie de graça em segunda potência, se torna acessível em vida.
O castigo deve ter algo a ver com o delito. Cadeia para estuprador só funciona porque ali ele é estuprado.
'Admirar com restrições' é nonsense, é uma confusão de gêneros, típica do pensamento pueril. Tenho mil restrições à filosofia de John Duns Scot, mas isso não diminui em nada a admiração que tenho por ele. Não tenho grandes restrições ao pensamento do Ben Shapiro ou do Milo Yiannopoulos, mas nem por isso chego a admirá-los, só gosto deles. Admirar é, POR DEFINIÇÃO, colocar alguém acima da nossa estatura.
No Brasil, o que se chama de 'filosofia', e que se pratica nas universidades, consiste, na melhor das hipóteses, em duas coisas que não são filosofia: (a) explicações de textos filosóficos, ou filologia; (b) estudos técnicos de lógica matemática.
Os chamados 'mestres da suspeita' (Nietzsche, Marx, Freud) habituaram seus discípulos a só enxergar o bem como inversão do mal, a saúde como inversão da doença, o amor como inversão do ódio, como se o negativo fosse a realidade positiva e o positivo nada mais que a sua sombra. Como figura de linguagem, funciona às vezes, mas, transposto à realidade do mundo tridimensional, resulta em eliminar o positivo e celebrar o negativo.
Outro chavão sem sentido é o tal 'respeitar as opiniões discordantes'. Pode-se respeitar a pessoa de um discordante, pode-se respeitar o seu direito de discordar, mas respeitar a opinião discordante em si mesma seria nada dizer contra ela, e aí não haveria discordância alguma.
Em todas as almas, os sentimentos, emoções, temores e desejos são os mesmos. Só o que difere é a sua proporção e distribuição no quadro total da personalidade. Só aquele que tem uma visão muito clara da forma integral da sua personalidade -- o que não se alcança senão na idade madura e com muito esforço -- pode enxergar a alma alheia com algum realismo. Fora disso, todas as opiniões que alguém emita sobre a personalidade de quem quer que seja -- especialmente as opiniões negativas -- não passam de 'wishful thinking' ou de compensação de algum complexo de inferioridade infanto-juvenil.
Fins e meios não são substâncias distintas e separadas como o pretendem os defensores do indefensável: numa sequência ordenada de ações, cada uma é o fim da anterior e o meio da subsequente.
A classe dominante, no Brasil, constitui-se exclusivamente de políticos, burocratas, juízes, narcotraficantes, mídia e 'movimentos sociais'. Empresários e banqueiros são apenas serviços terceirizados.
Atenção, políticos estreantes (e alguns veteranos): Nunca, nunca, nunca se ponham sob o julgamento de platéia, nunca tentem 'dar boa impressão'. Política não é concurso de simpatia, é duelo de vontades. Quem vence não é o mais bonitinho, é o mais forte, o mais seguro de si, o mais ativo intelectualmente, o mais rico em golpes inesperados.
A filosofia, sendo educação em sua mais íntima essência, é por isto mesmo metadidática, não havendo nela a possibilidade de uma seriação graduada do mais fácil para o mais difícil. Em filosofia a melhor maneira de dizer é aquela que encarne da maneira mais direta e fiel o próprio método filosófico, e o método filosófico melhor é o que mais eficazmente apreenda a coisa da qual se fala, sem nada acrescentar à sua simplicidade ou subtrair da sua complexidade. Não se pode falar legitimamente de filosofia senão desde um ponto de vista filosófico. Não há quadro de referência externo desde o qual se possa 'compreender' uma filosofia, pela simples razão de que a filosofia é a arte de montar os quadros de referência de toda compreensão.
A primeira condição a que uma filosofia deve atender é a de possuir em si mesma o princípio da sua inteligibilidade.
Uma filosofia que não contém sua própria explicação não é filosofia senão em sentido metonímico.
Toda figura de linguagem expressa compactamente uma impressão sem indicar com clareza o fenômeno objetivo que a suscitou. Decomposta analiticamente, revela-se portadora de muitos significados possíveis, alguns contraditórios entre si, que podem corresponder à experiência em graus variados. No Brasil de hoje, todos os 'formadores de opinião' mais salientes, sem exceção visível — comentaristas de mídia, acadêmicos, políticos, figuras do show business — pensam por figuras de linguagem, sem a mínima preocupação — ou capacidade — de distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem entre emissor e receptor da mensagem. A discussão racional fica assim inviabilizada na base, sendo substituída pelo mero confronto entre modos de sentir, uma demonstração mútua de força psíquica bruta que dá a vitória, quase que necessariamente, ao lado mais barulhento, histriônico, fanático e intolerante.
Por que os meus pretensos críticos não discutem jamais uma só tese da minha filosofia, e sim apenas opiniões de ocasião às quais eu mesmo não dou grande importância? É porque a política miúda é o limite superior da sua esfera de interesses, e imaginam que também o seja da minha.
Todo discurso ideológico busca, por definição, identificar os valores que defende com aqueles que já são aceitos majoritariamente pela platéia, isto é, assumir sempre ares de bom-mocismo.
Lendo na Bíblia a vida de Moisés, de Abrahão, de Isaac, de Jacó, de Davi e de tantos outros, uma conclusão se impõe inexoravelmente: para considerar alguém PERFEITO, Deus exige muito menos do que qualquer imbecil palpiteiro. Os imbecis são sempre juízes mais severos do que Deus. Se até n'Ele encontram facilmente algum defeito, como não o encontrariam também naqueles que Ele considerou perfeitos?
Se estou tentando preparar INTELECTUAIS, deveria ser óbvio à primeira vista que escritos de ordem puramente jornalística ou polêmica, sem especial relevância científica, literária ou filosófica, não bastam para habilitar ninguém ao estatuto de aluno modelar do Olavo de Carvalho.
Quando o grande Petre Tsutsea disse 'Só o cristianismo é absoluto, tudo o mais é relativo', ele quis dizer precisamente que o cristianismo não é uma teoria, não é uma doutrina, é a própria estrutura da realidade, que as teorias tentam interpretar cada uma a seu modo.
Tomar a doutrina cristã como base para conclusões filosóficas é nivelar a realidade com a nossa interpretação dela. A Palavra de Deus não é uma teoria -- nem mesmo uma teoria certa --, é uma AÇÃO divina, portanto algo que faz parte da própria estrutura da realidade. Tem uma presença, por assim dizer, física. Isso significa que JAMAIS a entendemos completamente, o que de imediato já a distingue de toda teoria, cuja única e essencial virtude é a inteligibilidade máxima. Noventa por cento da apologética cristã circulante consistem em reduzir Deus a um filósofo melhor que os outros.
