Poemas a um Poeta Olavo Bilac
Antigamente — ainda ontem, quando eu tinha vinte anos —-, exigia-se muito de um escritor. Ele tinha de dominar os recursos da sua arte ao ponto de que toda a história dela, de algum modo, transparecesse no seu estilo. Tinha de possuir uma visão espiritualmente madura do universo e da vida e haver absorvido nela a cultura dos milênios. E essa visão devia estar tão bem integrada na personalidade dele que sua expressão escrita não comportasse o mínimo hiato entre idéia e palavra.
Hoje não é preciso nada disso. Basta uma afetação de sentimentos politicamente corretos na linguagem dos estereótipos mais sufocantes — e pronto: o pimpolho garantiu seu lugar nos suplementos de cultura e nas antologias escolares. Se escreve no estilo padronizado dos manuais de redação, é um primor de nitidez cartesiana. Se embrulha idéias sonsas em jargão lacaniano indigerível, é um assombro de profundidade. Se não articula sujeito e predicado, é um grande comunicador, sensível à linguagem do povo.
A noção de 'corrupção' implica, por definição, a existência de um quadro jurídico e moral estabelecido, de um consenso claro entre povo, autoridades e mídia quanto ao que é certo e errado, lícito e ilícito, decente e indecente. Esse consenso não existe mais. Quando uma elite de intelectuais iluminados sobe ao poder imbuída de crenças nefastas que aprenderam de mestres tarados e sadomasoquistas como Michel Foucault, Alfred Kinsey e Louis Althusser, é claro que essa elite, fingindo cortejar os valores morais da população, tratará, ao mesmo tempo, de subvertê-los pouco a pouco de modo que, em breve tempo, haverá dois sistemas jurídico-morais superpostos: aquele que a população ingênua acredita ainda estar em vigor, e o novo, revolucionário e perverso que vai sendo imposto desde cima com astúcia maquiavélica e sob pretextos enganosos.
Isso não aconteceria se, junto com a inversão geral dos critérios, não viesse também um sistemático embotamento moral da população, manipulada por uma geração inteira de jornalistas que aprenderam na faculdade a 'transformar o mundo' em vez de ater-se ao seu modesto dever de noticiar os fatos. Quando um país se confia às mãos de uma elite revolucionária, sem saber que é revolucionária e imaginando que ela vai simplesmente governá-lo em vez de subvertê-lo de alto a baixo, a subversão torna-se o novo nome da ordem, e a linguagem dupla torna-se institucionalizada. Já não se pode combater a corrupção, porque ela se tornou a alma do sistema, consagrando a inversão de tudo como norma fundamental do edifício jurídico, ocultando e protegendo os maiores crimes enquanto se empenha, para camuflá-los, na busca obsessiva de bodes expiatórios.
Quanto mais de longe se olha o Brasil, mais se vê que não é um país: é um hospício. Um hospício sem médicos, administrado pelos próprios loucos que se imaginam médicos.
A destruição da cultura superior evidencia-se não somente na desaparição dos espíritos criadores, mas na inversão da escala de julgamentos: na ausência de qualquer grandeza à vista, a pequenez torna-se a medida da máxima grandeza concebível.
O típico imbecil do nosso tempo não é assim chamado por ser simplesmente um imbecil que por coincidência nasceu em determinada época e não em outra; não o é nem mesmo por haver uma ligação íntima entre a nossa época e a sua imbecilidade – embora essa ligação sem dúvida exista --, mas porque o sentimento de pertencer a essa época, ao famoso 'nosso tempo', constitui de certo modo o núcleo e o ponto forte do seu modo de ser imbecil.
Com efeito, o que o caracteriza e define, distinguindo-o de todos os demais imbecis que já passaram por este mundo em outros séculos, é a sua total incapacidade de desligar-se mentalmente, por uma fração de segundo, das crenças e hábitos vigentes na nossa época, e de tentar ver as coisas como os homens do passado as viram ou como os do futuro poderão vê-las quando chegarem a este planeta. Tudo, de fato, ele enxerga e julga segundo o que aprendeu das duas autoridades supremas cuja fé pública inabalável molda e define o 'nosso tempo': a mídia e a escola – duas entidades que têm, entre outras propriedades maravilhosas, a de jamais discordar entre si.
Tão intensa e profunda é a devoção que o imbecil contemporâneo tem ao 'nosso tempo', que chega a ver nele virtudes e poderes que antigamente se atribuíam a Deus. 'Nele vivemos, nos movemos e somos', murmura ele em seu coração, orgulhoso de nada ser além de produto, criatura e filho de tão excelsa entidade, à qual deve não somente a existência, mas também a essência.
"As épocas luminosas da História são aquelas em que um mesmo corpo de crenças é compartilhado pelo povo e pelos sábios, diferindo apenas no grau de compreensão refletida com que apreendem substancialmente as mesmas verdades.
Nas épocas de obscuridade, ao contrário, aquilo que os estudiosos sabem se torna dificilmente comunicável à população em geral, não por um mero descompasso de vocabulário técnico, mas por um abismo de diferença entre duas concepções do mundo mutuamente incompatíveis e intraduzíveis. É numa dessas épocas que vivemos.
Os 'meios de difusão' tornaram-se 'meios de ocultação' numa escala tal que já não há nenhum exagero em dizer que a mídia popular tem hoje por missão principal ou única tornar a verdade inverossímil ou inalcançável.
Qualquer pessoa que tenha os jornais e a TV como sua fonte principal de informações está excluída, in limine, da possibilidade de julgar razoavelmente a veracidade e a importância relativa das notícias.
A política tornou-se um assunto esotérico, em que somente um reduzido círculo de estudiosos pode atinar com o que está acontecendo."
(Diário do Comércio, 6 de dez. de 2012)
Um filósofo tem de ser julgado pelas afirmações básicas que constituem o fundamento da sua filosofia, não sobre opiniões de passagem (em geral orais e improvisadas) sobre assuntos laterais.
Os meus atacantes invertem isso porque NÃO SÃO CAPAZES DE LER A MINHA OBRA FILOSÓFICA, muito menos de tentar apreender a figura do conjunto.
Qualquer crítica a opiniões laterais emitidas por um filósofo ou escritor tem de ser ao menos respeitosa ao ponto de reconhecer que detalhes menores e de ocasião não desmerecem o conjunto de uma obra.
Estudando a obra do Otto Maria Carpeaux, descobri dezenas de opiniões erradas aqui e ali. Vocês conseguem me imaginar falando dele, por essa razão, com ares de desprezo superior?
Os que se metem a meus críticos são bárbaros, selvagens iletrados que ignoram até as regras mais óbvias da ética intelectual.
O caminho normal da formação de opiniões passa por três fases: partimos de um SÍNTESE CONFUSA de várias impressões, em seguida procedemos à sua ANÁLISE e por fim chegamos a uma SÍNTESE DISTINTA.
Esse trajeto, no Brasil, tornou-se proibitivo. Incapaz de análise, cada um se apega à sua síntese confusa inicial e a defende com unhas e dentes, batendo no peito com o orgulho sublime de ser um paladino da verdade e da justiça.
Isso acontece EM TODO E QUALQUER DEBATE PÚBLICO DE QUALQUER ASSUNTO QUE SEJA.
Tudo palhaçada, teatro, pose e, no fim das contas, loucura.
Que futuro pode ter um povo que não quer ser governado por homens cultos e inteligentes, mas por imbecis semi-analfabetos diante dos quais ele não se sinta inferiorizado?
Se você tem complexo de inferioridade, pense nisto: talvez você seja inferior mesmo.
Se você é inferior, não adianta diminuir o padrão de medida para se sentir melhor. Quando você se mede por um imbecil de sucesso, sempre resta o sucesso para marcar uma diferença humilhante.
Só há um jeito de se livrar de todas essas veadagens: tente ser grande por dentro e aceitar uma posição social modesta. Seja generoso como um rei e humilde como um lavrador. Nunca mais terá complexo de nada.
Nos meus estudos de astrologia, cheguei a um impasse. Criei uma vasta estratégia metodológica para transformar o assunto em matéria de estudo científico, mas, uma vez erguido o arcabouço teórico, era impossível passar à fase da pesquisa empírica, que requeria muita gente, muito tempo e muito dinheiro. Então decidi abandonar o assunto até segunda ordem.
Não me preocupo com o preconceito contra a astrologia, porque a astrologia que se pratica hoje, inspirada pela ideologia da New Age, é ela própria um conjunto de preconceitos.
Não há debate sério entre os que dizem ser a astrologia uma ciência e os que respondem que é uma pseudociência. Ela não é nem uma coisa nem outra: é um problema científico, que aguarda um tratamento à altura. Não será com proclamações de fidelidade ou com anátemas acadêmicos que vamos resolver esse caso.
Jeremy Bentham dividiu as ciências em 'cenoscópicas' e 'ideoscópicas'. Ajustando um pouco as definições, digo que as primeiras estudam a realidade tal como ela se apresenta à experiência comum da espécie humana, as segundas a realidade tal como aparece segundo os recortes especializados que a tornam acessível aos métodos das várias ciências.
Os que estudam a ciência política ou, em geral, as ciências sociais só pelo ângulo ideoscópico cometem erro após erro, e nunca se emendam.
Mas a preparação do intelecto para as ciências cenoscópicas nada tem a ver com a educação científica habitual e especializada. Ela passa pela impregnação imaginativa do estudioso no 'senso comum', no modo como as pessoas de carne e osso vêem as coisas na sua experiência concreta.
É toda uma disciplina da percepção, do sentimento, da imaginação, em suma: da alma.
Essa é uma das normas básicas que orientam o COF. Tê-la aprendido faz com que os meus alunos acertem em suas análises políticas cem vezes mais que os opinadores jornalísticos e acadêmicos usuais.
O brilho superficial e o prestígio midiático de um Michel Foucault, de um Pierre Bourdieu, de um Habermas, de um Noam Chomsky, não devem afastar 'a priori' a hipótese de que sejam realmente inteligências inferiores, deficientes, facilmente iludidas pelo seu próprio discurso.
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A marca mais característica do pseudofilósofo e do pseudo cientista social é explicar as condutas humanas fazendo abstração das intenções conscientes e atribuindo tudo à ação de fatores extrapessoais, mais ou menos automáticos, que passam ao largo da consciência, e em seguida CULPAR os sujeitos humanos por essas ações como se as tivessem praticado deliberadamente.
É claro que nenhum desses gurus do absurdo consegue ou tenta explicar pelas mesmas forças extraconscientes o fato de que ele próprio tenha resolvido apelar a elas como causas explicativas universais. Donde concluímos que não só ele se imagina uma exceção à sua própria teoria e nem pensa em justificar isso, porque toma essa atitude meio às tontas, mas que, no cômputo final, só ele é consciente enquanto o resto da espécie humana é um bando de bonecos de ventríloquo por cujas bocas de papelão as forças impessoais falam sem que eles nem percebam -- o que não os impede, é claro de ser culpados pelo que elas fazem à sua revelia.
Quando, por exemplo, Michel Foucault explica todas as ações humanas como 'relações de dominação' -- dando a essa assertiva o valor de um juízo condenatório universal --, ele é incapaz de dizer que raio de relação de dominação ele pretende impor aos leitores com os seus livros, e mais incapaz ainda de explicar por que essa relação deveria ser mais aceitável que qualquer outra.
A obra desses indivíduos demonstra uma inconsciência que raia a estupidez pura e simples.
Lição número um dos estudos políticos:
PREMISSA: A base de toda ação bélica é fazer o que o inimigo não imagina que você vai fazer.
CONSEQUÊNCIA: Na luta militar ou política, a verdade é quase sempre INVEROSSÍMIL.
COROLÁRIO : Qualquer bom estrategista militar ou político levará em conta os padrões de verossimilhança em que o adversário se baseia, para usá-los como arma contra ele.
ADENDO: Para as elites, o inimigo a ser ludibriado é sempre o povo inteiro.
A acumulação de fatos concordantes é um meio de PERSUASÃO, não de PROVA.
Para provar uma hipótese você não precisa de muitos fatos: precisa de apenas um que não admita outra explicação.
NENHUM acúmulo de fatos prova jamais uma hipótese. Só o que a prova é a sua confrontação vitoriosa com as hipóteses alternativas. A acumulação espetacular de fatos concordantes é, muitas vezes, apenas um meio engenhoso de fugir a essa confrontação.
Uma teoria ambígua não é NUNCA uma hipótese legitima, capaz de submeter-se a um teste científico. O marxismo e a teoria da evolução são exemplos: mudam de interpretação cada vez que são refutados.
[...] uma segunda hipótese NÃO É uma segunda 'interpretação' dos fatos mas uma segunda EXPLICAÇÃO deles. Enquanto subsistem interpretações divergentes, é impossível formular uma hipótese.
Mil vezes já expliquei que, se a conduta de um filósofo pode ser explicada pela hipocrisia, pelo fingimento proposital ou por algum distúrbio mental, não faz sentido apelar ao conceito de 'paralaxe cognitiva'. É óbvio: se algo tem uma explicação psicológica banal, para quê recorrer a um conceito histórico-cultural ao descrevê-lo? [...]
Falei em paralaxe cognitiva mais especialmente a propósito de Kant e Marx. Nenhum dos dois era louco, nenhum dos dois era burro, nenhum dos dois era um farsante proposital. Nos casos de Maquiavel e Rousseau preferi explicações mais propriamente psicológicas: a inépcia, no primeiro caso, a autopersuasão histérica, no segundo. [...]
Paralaxe cognitiva é o deslocamento (estrutural, entenda-se) entre o eixo de uma construção intelectual e o eixo da experiência real à qual nominalmente ela se refere. É um fenômeno cultural que aparece na história da filosofia, endemicamente, a partir do século XVII, e que, por definição, nada tem a ver com hipocrisia, mentira ou loucura pessoal.
Em resumidas contas, a paralaxe cognitiva aparece quando o filósofo, no seu juízo perfeito e sem nenhum intuito de mentir, descreve como realidade aquilo que ele está pensando em vez do que está vendo.
Pessoas que julgam situações reais mediante um raciocínio dedutivo que parta de princípios gerais erram SEMPRE. Entre o mundo dos princípios e o mundo dos fatos a relação é analógica e problemática, porque os princípios não dizem respeito aos fatos e sim apenas à estrutura da possibilidade. Princípios podem ajudar você a afastar as hipóteses impossíveis, mas não a saber o que aconteceu.
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Por exemplo, partindo do princípio de que toda violência feita a qualquer ser humano é errada, o sujeito acaba não enxergando a diferença entre homicídio e genocídio.
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No mundo dos princípios não há gradações nem nuances. O mundo dos fatos é feito delas.
Quando é lícito atribuir uma ação a um povo, genericamente, sem distinguir nela os agentes individuais e concretos? Creio que só nas seguintes circunstâncias:
a) Uma crença geral subscrita por maioria significativa (por exemplo, "os poloneses são católicos").
b) Um costume generalizado ("os franceses consomem vinhos e queijos").
c) Uma eleição vencida por ampla margem por um dos partidos.
d) Um plebiscito, formal ou informal (por exemplo, "os brasileiros apoiaram o governo na Guerra do Paraguai").
Fora disso, toda generalização é pura metonímia e, se pretende ter valor de julgamento objetivo, é falsa.
Não vejo por que a pergunta pela identidade nacional deva se concentrar na busca de 'constantes'. Uma identidade nacional, como uma consciência pessoal, é sobretudo uma história, uma narrativa cujo sujeito não vem pronto, mas se forma e se deforma, se acha e se perde, se salva e se dana no curso dela mesma.
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Nenhuma conclusão frutífera se obterá sobre a questão da 'identidade nacional' sem fazer primeiro uma 'história da consciência nacional', mapeando, na vasta bibliografia disponível, o horizonte de consciência dos nossos intelectuais e suas mutações ao longo das várias gerações. Tenho a visão clara do que pode ser essa história, mas jamais terei o tempo de escrevê-la, embora alguns artigos meus sejam capítulos inteiros dela. Uma coisa eu garanto: esse horizonte de consciência jamais foi tão estreito quanto é hoje.
PETITIO PRINCIPII é um erro lógico tão elementar que prova a sua TOTAL falta de cultura científica e filosófica e joga você, imediatamente, fora da discussão.
Além da petição de princípio, TODOS os objetores que entraram na discussão sobre a água plana padeciam de outra deficiência lógica, a mais grave de todas, a 'ignoratio elenchi', total incapacidade de perceber qual é exatamente o ponto em discussão.
Nada do que escreveram tem valor, exceto como amostra da imbecilização crescente dos estudantes e professores universitários no Brasil.
A lavagem cerebral, como o sabe qualquer estudioso da matéria, é um conjunto de procedimentos cruéis, assustadores e traumáticos destinados a destruir, na vítima, o respeito por si mesma e o senso da identidade pessoal, substituindo a personalidade existente por uma construção artificial duradoura, imposta de fora por um instrutor.
A técnica empregada para isso é de tipo integralmente behaviorista, fundada na visão redutiva do ser humano como um mero sistema de reflexos condicionados, não diferente, em substância, de um coelho ou de um cachorro.
Originada nos estudos do psicólogo russo Ivan Pavlov, a lavagem cerebral foi abundantemente usada por psicólogos chineses e norte-vietnamitas em soldados americanos, e posteriormente aperfeiçoada, com o nome de 'mind control', pelo programa da CIA que se celebrizou com o nome de MK-Ultra e acabou sendo proibido pelo Congresso americano.
