Poemas a um Poeta Olavo Bilac
Para que surja um amor verdadeiro, é preciso que a imagem integral e concreta de um ser humano, tomado na totalidade do seu destino biológico, histórico e espiritual, se imprima na alma de outro ser humano. Não basta que a carne de um impressione a carne do outro. O impacto da imagem carnal provém exatamente de que ela é abstrata.
"'Meritocracia' é um slogan publicitário e um mito. Não corresponde a nenhum fenômeno identificável na economia de mercado, sistema infinitamente complexo onde fatores incontroláveis como o acaso e as simpatias pessoais podem contar muito mais que o mérito objetivo. Meritocracia, a rigor, só pode existir em organizações hierárquicas fortemente regulamentadas onde até os chefes estão atados por um compromisso de obediência, como por exemplo um exército. Há mais meritocracia na KGB do que no capitalismo.
A superioridade prática do capitalismo é um fato inegável, mas dela os teóricos liberais e libertarians tiram, com freqüência, conclusões absurdas, que, é claro, seus discípulos tupiniquins repetem como mantras sagrados."
Todo fenômeno de ascensão interior, sem exceção, começa sempre com um indivíduo isolado — e que, no curso da sua caminhada, é levado a isolar-se ainda mais da comunidade em busca da necessária condição de concentração espiritual —, e se completa com a irradiação de parte dos conhecimentos obtidos, de início numa discreta roda de companheiros ou discípulos investidos da mesma disposição para o isolamento e a concentração, em seguida em círculos cada vez maiores, até abranger comunidades, sociedades e civilizações inteiras.
Uma história ter um sentido profundíssimo, valioso, revelador, não significa que ela tenha acontecido realmente. A verdade da Poesia não é a verdade da História. Nunca conheci um aficionado de história esotérica que entendesse claramente essa distinção, ou que pelo menos não se esquecesse dela com frequência.
Antes de colocar-se sob a orientação de um intelectual ou grupo, verifiquem se ele tem alguma ligação, formal ou informal, direta ou indireta com qualquer entidade internacional, e se esta, por sua vez, está ligada de algum modo a organismos como a ONU, a Unesco, ou a URI - United Religions Initiative. Se tiver, só há uma coisa a fazer: Fujam.
A incapacidade para as tarefas intelectuais mais elevadas coloca um sujeito a uma tal distância dos estudiosos sérios que ele só consegue vê-los através de uma rede de fantasias atemorizantes, que então ele tenta exorcizar mediante afetações de desprezo. No Brasil, ser inteligente espalha na vizinhança uns sofrimentos indescritíveis.
Desde o início da minha aventura de estudioso, estou persuadido de que a sabedoria – ideal a um tempo móvel e derradeiro da filosofia – não consiste em verdades gerais cristalizadas em formulas doutrinais repetíveis, mas na apreensão do sentido universal das situações particulares, únicas e concretas vividas pelos seres humanos reais.
Um professor tem de concentrar-se de tal modo no OBJETO da sua exposição, que não precise nem possa pensar na impressão que está dando à platéia. Um professor não é um pregador em busca de conversões, nem um ator empenhado em produzir emoções, nem um advogado ansioso para obter uma sentença favorável.
O estudante que acompanha regularmente as minhas aulas e faz um esforço sério para apreender as estruturas profundas do meu pensamento, ainda que sem aderir a todas as minhas opiniões sobre pontos particulares, especialmente da política atual, torna-se um continuador e um intérprete qualificado da minha obra. Se, em vez disso, o cidadão apenas adere a algumas opiniões minhas que chegaram ao seu conhecimento, fazendo ou não delas a inspiração principal e o polo orientador da sua militância cultural ou política, isso não faz dele, evidentemente, um 'discípulo' nem representante do meu pensamento, por mais simpático que ele seja à minha pessoa e aos meus esforços.
Opor-se a um discurso ideológico, sem fazer nada contra o esquema político concreto que se utiliza dele, é o mesmo que discursar contra o roubo para não ter de prender os ladrões.
Os filósofos existem por um só motivo: a hipótese de um discurso coletivo e uniformemente repetível alcançar a verdade das situações humanas reais e concretas é praticamente nula. Só a consciência individual tem mobilidade e autocontrole crítico para isso. Mesmo a Palavra de Deus, se repetida com automatismo e não reavivada em cada consciência -- com todo o risco que isto envolve --, perde significado ou se perverte no seu oposto. As almas covardes têm medo da solidão cognitiva e buscam apoio num consenso grupal ou coletivo. Essa segurança NÃO EXISTE. Ela é "o mundo", no sentido bíblico: um dos inimigos da alma. O dever de conhecer é individual e intransferível. Toda a nossa civilização começa no alto da Cruz, onde a Verdade, encarnada num só, era achincalhada por todos e negada até pelo chefe dos seus apóstolos. Não há Imitação de Cristo onde não se aceita a carga da verdade solitária.
Nossa consciência tem um centro vital, localizado no miolo do coração, inalcançável pelo mero 'pensamento'. Ele domina os opostos como o jovem Mercúrio segurando as duas cobras e, entre as contradições e perplexidades da vida, orienta o pensamento que, em vez de se afirmar como soberano, consente em obedecê-lo docilmente.
O Bem não é um universal abstrato. O Bem é uma Pessoa, é Deus. Só se assimila o Bem por contato pessoal e impregnação no amor divino. O resto é filosofice uspiana. Só a prece infunde nas almas o amor ao Bem, na medida em que O vão conhecendo aos poucos, muito acima do que podem pensar ou expressar. Estudar Ética só é bom para ludibriar os trouxas.
"Quanto menos prática da religião um sujeito tem, mais se crê habilitado a diagnosticar a hipocrisia na prática religiosa dos outros."
"'influência dos astros' é um fenômeno objetivo que existe ou não existe. 'Astrologia' é um conjunto inabarcável de idéias, práticas, mitos, especulações, fantasias, tradições culturais, intuições, tudo misturado numa mixórdia indeslindável que NINGUÉM poderá jamais reduzir a uma teoria unificada passível de ser discutida. Por que sei isso? Porque estudei os dois assuntos e sei que são dois — coisa que os palpiteiros 'científicos' não percebem nem mesmo em sonhos.
Quando todos os argumentos de um lado e do outro me parecem igualmente persuasivos, há duas conclusões possíveis: (a) a solução do problema escapa à minha compreensão; (b) ela não existe, ao menos por enquanto. Isto basta para acalmar ao menos provisoriamente a minha inquietação, por dois motivos: (a) Por que raios deveria eu saber a solução de todos os problemas? (b) Por que raios todos os problemas deveriam ter alguma solução?
A verdade JAMAIS coincide com o discurso pronto de um partido, facção ou moda. Mesmo quando este tem alguma razão, é só em partes cuidadosamente selecionadas da realidade. Coerência ideológica é um compromisso de não acertar nunca.
Cada um que adere a uma política acredita piamente que ela representa o bem, a verdade e a justiça. Mas é só por uma coincidência momentânea e por uma conjunção de fatores instáveis que os ideais políticos podem, em certas circunstâncias, encarnar fielmente algum valor moral genuíno. Há políticas melhores e piores, mas não há política santa.
A coisa mais difícil e arriscada, na vida intelectual, é apreender um sistema, uma ordem, uma rede de conexões por trás de dados fragmentários e inconexos. No mínimo é preciso experimentar muitas hipóteses contraditórias até encontrar a que seja menos inviável, e essas hipóteses só acabam se revelando bastante tempo depois dos fatos transcorridos, quando várias tentativas já falharam (as famosas 'opiniões dos sábios', que segundo Aristóteles são o começo de toda investigação). Mas, no Brasil, as coisas mal acabam de acontecer e já aparecem mil espertinhos desvendando as conexões mais espetaculares por trás de tudo, sem nem mesmo cogitar de outras hipóteses possíveis.
Se aparece um cidadão que dá ordens à tempestade e ela obedece, manda os peixes caírem na rede e eles caem, manda as doenças sumirem e elas somem, manda um morto voltar à vida e ele volta, é mais sensato acreditar nesse cidadão ou numa comunidade de profissionais que estão a todo momento cavando verbas colossais, disputando prestígio e se desmentindo uns aos outros? Só um cretino acha que a comunidade científica é mais confiável do que Nosso Senhor Jesus Cristo.
