Poemas a um Poeta Olavo Bilac
O que é exatamente uma investigação científica? Para inaugurar um novo setor de investigação científica, o cientista separa, isola um certo campo de fenômenos, baseado na hipótese de que esses fenômenos são regidos por uma uniformidade interna. Ele observa alguma uniformidade externa, supõe que por trás dela há uma uniformidade interna logicamente expressável sob a forma de uma hipótese científica explicativa ou descritiva, e em seguida se esforça para encontrar essa unidade interna dos fenômenos, de modo que em grande parte a atividade cientifica é tautológica: o que determina o recorte dos fenômenos é a hipótese de que eles obedecem a uma certa uniformidade interna, e o que determina a investigação científica é a busca dessa mesma hipótese unificadora. Isso equivale a dizer que nenhuma ciência investiga propriamente a realidade concreta, mas apenas um recorte hipotético, que em seguida deve ser confirmado mediante a investigação da mesma hipótese. De certo modo, nós podemos dizer que a ciência é um jogo de cartas marcadas. Às vezes o jogo não funciona, mas o ideal é que ele funcione.
Sócrates procurava um conhecimento que não apenas fosse racionalmente fundamentado — e, portanto, intrinsecamente mais crível do que os outros conhecimentos —, mas que tivesse uma importância existencial efetiva para ele próprio. E esta síntese inseparável da consciência pessoal com o conteúdo do conhecimento é exatamente o que define a filosofia.
Uma experiência expressada inadequadamente produzirá um milhão de opiniões erradas, porque se você vive uma experiência, mas a nomeia erroneamente, acontece um pequeno problema: nós não podemos pensar sobre coisas, mas apenas sobre idéias. Não podemos pensar a experiência diretamente: primeiro nós temos de convertê-la em uma expressão verbal — um conceito —, e então nós pensamos sobre o conceito. Na memória, por outro lado, é a experiência verdadeira
que você conserva, de modo que você tem, de um lado, a experiência tal como você a teve e, do outro, o conceito inadequado tal como você o formulou. Ao raciocinar sobre esse conceito, em pouco tempo você acaba apagando a experiência, e aí as suas conclusões já não valem absolutamente nada.
“Quando sabemos o que devemos fazer, e como devemos fazer, basta que, para estabelecer isso como um conselho, se mude a forma de expressão e se dê a volta à frase, dizendo, por exemplo, que importa não nos orgulharmos do que devemos à fortuna, à sorte, mas do que devemos a nós mesmos. Dito assim, tem a força de um conselho. Mas, expresso como um elogio, será: ele não se sente orgulhoso do que se deve à fortuna, mas apenas do que deve a si próprio. De sorte que, quando quiseres elogiar, olha para o conselho que se poderá dar, e, quando quiseres dar um conselho, olha para o que se pode elogiar.”
O traço mais saliente da miséria cultural de um país é a proliferação endêmica de idéias esquisitas, surgidas de idiossincrasias pessoais ou preconceitos grupais e locais sem nenhuma raiz na História do pensamento, no 'grande diálogo', como o chamava Mortimer Adler.
"A idéia de um Deus que perdoa ou condena quando bem lhe dá na telha é islâmica, não cristã. Deus comprometeu-se a respeitar o perdão sacramental até o fim dos tempos, e nada O fará mudar de idéia. Ele pode estender o perdão a pessoas que não receberam a absolvição sacramental, mas não tirá-lo dos que a receberam."
Nossos pecados vão deixando pelo caminho um rastro de lixo cósmico que nenhum esforço humano poderá jamais limpar. A ânsia de 'salvar o planeta' não passa da fantasia projetiva de uma culpa coletiva que se camufla em sujeira material — exatamente como a de Lady Macbeth, que reprime a consciência do seu crime lavando obsessivamente as mãos.
Ver um filme -- qualquer filme, mesmo ruim -- é como sonhar. Se alguém fala com você, o sonho acaba e não emenda mais. Talvez no dia seguinte, ou na outra semana, quando a conversa desapareceu da sua memória.
A idéia de 'engenharia do consenso' é a mais imoral que já passou pela cabeça de um falso amante da democracia. Ou você respeita o consenso já existente, formado pelo tempo sem engenharia nenhuma, ou só aceita um povo que você mesmo adestrou para pensar como você.
Só existe um controle social eficiente: um povo que não quer fazer o mal. O resto é tudo engenharia do absurdo.
Os computadores e a internet, em si, são um imenso benefício para todas as atividades intelectuais. O problema é que pessoas incapazes de absorver mesmo doses moderadas de informação se vêem de repente submetidas a um bombardeio informático. No mínimo, isso infunde nelas a ilusão de que estão por dentro de todos os assuntos. Na verdade, para tirar proveito da internet o sujeito precisa ter as habilidades conjuntas de um pesquisador acadêmico, de um jornalista e de um oficial de informações. O número de pessoas que tira real proveito da internet é ínfimo. Que fazer pelas outras? Bem, da minha parte já faço o que está ao meu alcance: procuro desenvolver nos meus alunos aquelas habilidades conjuntas.
"O socialismo consiste na promessa de obter um resultado pelos meios que produzem necessariamente o resultado inverso."
O casamento monogâmico durável ou é um milagre sustentado nos sacramentos, ou é uma ficção jurídica inventada pelo Estado moderno. Essas duas coisas não têm as mesmas propriedades. A base fundamental do Estado moderno é a mentira.
Se um homem tem quatro ou cinco mulheres, que ele sustenta, protege, auxilia por todos os meios e de vez em quando come, o que ele está fazendo é um MAL? Do ponto de vista meramente terrestre e humano, ninguém tem o direito de acusá-lo disso, embora seja desse ponto de vista que ele será mais frequentemente criticado. A conduta dele torna-se um mal na medida em que, não podendo santificar pelos sacramentos todos esses amores, mas somente um deles, ele está se impedindo a si mesmo, e às mulheres, de integrar-se no Corpo de Cristo e alcançar a salvação eterna. É perante Deus que ele está errado, um Deus que tudo fará para perdoar e salvar a ele e às mulheres, e não perante a sociedade humana, a qual, inversamente, fará tudo para arruinar a vida dele e delas. Muitas vezes, o que as pessoas chamam de 'moral' é simplesmente a inversão da hierarquia e a usurpação do lugar de Deus. E muitas pessoas deixam de salvar-se porque, atormentadas pelo falatório humano, fogem de Deus pensando que esse falatório vem d’Ele.
O mistério da existência não é dado a qualquer um, mas para aquele que dá tudo e mais alguma coisa em troca de obtê-lo.
“A idéia de que a educação é um direito é uma das mais esquisitas que já passaram pela mente humana. É só a repetição obsessiva que lhe dá alguma credibilidade. Que é um direito, afinal? É uma obrigação que alguém tem para com você. Amputado da obrigação que impõe a um terceiro, o direito não tem substância nenhuma. É como dizer que as crianças têm direito à alimentação sem que ninguém tenha a obrigação de alimentá-las. A palavra 'direito' é apenas um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.”
"Todo livro que você lê foi um dia uma vaga idéia na cabeça do autor, depois um longo trabalho de construção, destruição e reconstrução até consolidar-se em obra pronta, depois uma carreira editorial seguida de longos debates entre leitores, críticos e escritores em geral, até formar uma certa imagem relativamente estável na constelação dos fenômenos culturais e multiplicar-se em reedições e traduções."
"Que é remorso? Um sentimento de culpa desesperador.
O arrependimento é um sentimento de culpa acompanhado de alívio, de esperança de poder resgatar de algum modo o que foi perdido."
