Poema o Amor segundo Carlos Drummund de Andrade
CERRADO (soneto 2)
O cerrado é como um soneto
arbustivo, tortuoso, melódico
chora a sua aridez, é talódico
diversos como verso irrequieto
Fala do diferente, do exótico
contrastante e muito concreto
vai além de apenas indiscreto
exuberante e também retórico
É prosa narrada é céu sem teto
o cerrado é um insano imódico
e a sua melancolia vira adjeto
É tão sequioso no teu periódico
ádvenas flores, frutos, de ti objeto
d'amor que te quero, és rapsódico
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
09 de julho, 2016 – Cerrado goiano
Confesso que estou triste;
Ficar triste me deixa com raiva;
Ficar com raiva me dá ódio;
Sentir ódio me faz mal;
O que me faz mal me deixa triste...
não perca a cabeça
tentando desesperadamente
achar um jeito de se salvar
quando você para de debater
é que começa a flutuar
QUADRAGÉSIMO QUINTO HEXÁSTICO
Toda imanência recrudesce
ao sentir a vida em potência
caos sagrado e profano nasce
no Sujeito-poema acontece
faz-se desejo de existência
no eterno retorno da mente
QUADRAGÉSIMO SÉTIMO HEXÁSTICO
Deixa-te voejar sobre o caos
há nele visível beleza
toda representação há
seja sagrada ou profana
não o olhes com tua indiferença:
caos requer visibilidade
Enquanto a politica nos mata
Enquanto pessoas lutam
Enquanto negros morrem
Enquanto pessoas sofrem
Enquanto a ditadura ressurgir?
Mais pessoas irão morrer
Menos pessoas irão viver
E mais gente irá sofrer
Com a perca de amigos que lutaram
Que se esforçaram e pecaram
Se apaixonando por quem não podia
Pois Deus não queria
Enquanto pessoas perdem suas casa
Enquanto pensamos em mais um poema
Enquanto criticamos um ao outro
Enquanto nos matamos por dentro
Palavras & Letras (2009)
Após o repetido encarar do branco das folhas se mostrar contumaz, confesso:
São dolorosas as letras, principalmente quando se juntam, em cambulhada, à soberba das palavras.
E pior ainda se chegam ao papel, seja na exposta frente ou no escondido verso.
Submerjo, naufrago... afogo em pensamentos dispersos...
Existirá mundo sem letras - consoantes, vogais,
Com ou sem aspas ou pontos, infames sinais,
Personagens discretos de palavras patéticas em frases conexas,
Fortuitas, complexas, infindas?
Disfarço, empalideço...
São medonhos os medos que ocorrem em assuntos transversos...
Em vão, tento crer só na existência dos dias em mundos letrados,
De grafadas palavras, garfadas por
Pensamentos famintos de uma mente inquieta,
Regados em instinto animal que vegeta
Embutido em nosso ego ancestral...
Revolvo pergaminhos sangrados,
Recolhidos de despojos em batalhas intermináveis,
Arrestados de indesejadas corjas de ideias alienadas,
Por vezes ensandecidas...
Malogradas, incompletas e
Ludibriadamente expostas,
As Letras nas Palavras remanescem !
E nas horas últimas, são
Expulsas pelo fórceps da vã impaciência...
Nelas, me agarro, sôfrego...desesperado..
Ai de mim !!!
Sinto a gosma da imperfeição minar e fluir...
Esvaio-me.
Suo bicas, me rendo. Delas é (chegada) a vez.
...e é nelas, e com elas que minha mente tenta por si, refazer-se...
Ressurge, convoca, agrega, aloca o que resta em mim...
Inclemente, um pensamento as recolhe, e traz de volta...
...voltando ao início do fim...
QUADRAGÉSIMO OITAVO HEXÁSTICO
Olhar-se profano no caos
saber-se da vida princípio
sugere ao poeta o universal:
ser agora transvalorado
senhor do totem sagrado
livre do veneno moral
QUINQUAGÉSIMO HEXÁSTICO
Há um rio que me navega sempre
na profundeza há águas claras
lâmina cortante na face
lá onde não existe luz
translúcido me gero calmo
aqui onde tudo reluz: guerra
Os cabelos duros são meus
Tentei e tentei o meu cabelo pentear,
mas o duro, duro me doeu o couro
e neste ímpeto veio - me o duro ouro,
então o forte é mais duro de achar!
Pus o brilho no fio de cada cabelo
e pus a agradecer cada um deles,
pois se havia duro em meu anelo...
esses cachos teriam os meus zelos!
Zelar do que é meu e me amar,
se eu gosto, todos podem gostar,
tudo é questão de eu me zelar!
E tudo isso veio no pensamento,
e pra quem tem caráter e talento
deixa a zoeira morrer no vento!
II
Porque se não ligo e resisto,
meu coração não sente,
deixe que fale esse resto,
pois é preciso ser resiliente!
Não, quero mais essa carência
de se preocupar com aparência,
o que vale é meu coração
e não minha feição!
Porque se eu me amar,
já é o bastante pra qualquer um calar,
pois, se me aceito deixem zoar...
Nem ligo se não gostam,
pois os meus me bastam,
e se respeito todos respeitam!
Meu Dia da Consciência Negra
Neste dia senti- me negra a pele,
toquei o meu cabelo crespo e amei.
No meu sorriso não havia o que repele,
então soltei o sorriso e me perguntei:
Qual é a cor do sorriso?
Qual é a cor da alegria?
Qual é a cor do caráter,
do amor e do respeito?
Tudo isso tem a cor que a gente quiser:
- Azul, amarelo, preto, branco ou verde...
O que não pode é machucar e ofender!
Isso sim é o preconceito de verdade...
Então, toquei o meu rosto ...
e num instante uma lágrima me rolou,
desceu os meus olhos
e a minha cor foi ficando branca...
Corri para o sol e vento
e a minha cara tomou a cor de um pimentão!
Ardia e não havia protetor solar para a cura,
neste momento quis ser a negra pele...
porque nela havia resistência e força
na minha doce Consciência Negra!
Olhei para o sol e pedi:
- Me queima sem tornar- me vermelho sangue!
E logo me desfiz do branco,
tornando- me amarela
e o sol o amarelo manchou,
então a negra cor se consagrou forte!
Assim, cheguei a seguinte conclusão:
- A minha Consciência Negra é valorização,
porque ao valor cabe o orgulho
de quem se valoriza.
Então que este dia da Consciência Negra,
seja a cor da consciência de todas as raças,
que cada um busque o seu valor
e todos saibam viver com respeito e amor!
Sinto-me preocupado,
Sinto-me abandonado,
Sinto-me conquistado.
Já não sei
O que é dormir
Pois a minha mente
Não pára de sentir
A obrigatoriedade de pensar
Como se fosse tão importante
Como é para um humano respirar.
Isto já me começa a sufocar
Pois perdi a capacidade de relaxar
A minha mente tornou-se num lugar
Onde preferia não estar.
Imagina que és um cão
Que não consegue ladrar.
Que és um peixe
Que esqueceu como nadar.
Que a tua mente
Perdeu a capacidade
De sentir felicidade
De sentir amabilidade
Um recomeço
Estou tão cansada,
Tão sem forças e esgotada.
Estou tão frágil e fraca,
Que uma mosca, é capaz de acabar com a minha raça.
À...
Estou realmente acabada
Com a vida inacabada aqui,
Mas sinto como se fosse o fim
Mas algo diz pra mim;
"Siga com a sua fé aí".
Mas não sei se ela ainda está aqui.
Eu estou tentando.
Eu juro,
Estou me esforçando,
Me doando, enfrentado.
Eu estou planejando e arquitetando.
Mas nada que acontece
Veio dos meus planos,
Nada com o plano se parece.
Então volto a estaca 0
Onde nada minha mente fornece,
Eu cresço e apareço
De novo no começo.
E positivamente ? Pode ser um recomeço!
A garota do trem:
A garota do trem
Sentada, de fones de ouvidos
E do seu livro uma refém.
Qual será a música que em seu ouvido o fone canta ?
Qual será o livro que seus olhos encanta ?
Parada 1, parada 2 , 3, parada 4 e nada.
Nada, nada dela se mexer,
Se quer olhar
E eu a entender,
A querer a me aproximar,
A querer conhece - la
E ainda mais me apaixonar.
A garota do trem
É sem dúvidas, o motivo
Que me fez rimar.
Becos do Cerrado
Becos do meu cerrado
Amo a tua melancolia, seca e tortuosa
Teus ipês breves. Teu devaneio encantado
De recantos de chão árido, e flora andrajosa
Teu cascalho roliço, céu cinza e enfumaçado
Deixando a alma da gente, comovida e chorosa
Do pôr do sol nos tordos galhos, luzidio, encarnado
Amo o silencioso horizonte, cheios de tal quimera
Que em polmes dourados e os olhos cheios d’água
Suspiram em poemas de rogo, tal a rudeza, quisera
O vento, em açoites nos buritis, aturando a frágua
Nas frinchas de suas folhas, e que ali então esmera
Que se defende, peleja, viceja e na imensidão vivace
Desenhando o sertão do planalto de intrigante biosfera
Como se a todos nós um canto de resistência declamasse.
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
02 de março de 2020 – Cerrado goiano
paráfrase Cora Coralina
Ontem peguei minha caneta
Tomei uma pinga com mel
Olhei pra cima pra ver
A super lua no céu
E quanto mais eu olhava
Mais criativo ficava
Mais rabiscava o papel
Porém eu não terminei
Pois faltou inspiração
É que uma nuvem preta
Tapou a minha visão
E eu olhando atento
Chamando na mente um vento
Só via a escuridão
Depois que a nuvem passou
A lua voltou a brilhar
E eu já na quarta dose
Bebendo igual um gambá
Guardei a caneta e o caderno
Já estava meio aéreo
A rima não quis mais rimar
Fiquei mais um tempo olhando
Pensando se o céu fosse meu
A lua seria minha
Estrelas que Deus me deu
Deitei, acordei e li
Tomei muita água e escrevi
Os versos que você leu.
- Farley Dos Santos -
O contraventor
Amanhã não existe mas para lá eu desejo ir,
E ontem já deixou de existir...
Eu queria fazer isso ou ter deixado de fazer;
Lembrar só vai fazer eu me arrepender.
Sempre ansioso com o que vai acontecer,
Mas nunca com certeza do que vai haver.
Feliz ou apenas decepcionado...
Tristeza apenas quando fico remoendo o passado.
Um sorriso tão bonito com o rosto cansado,
Posso terminar o dia triste... mas nunca derrotado.
Por acordar amanhã eu já sei que venci!
Mas as vezes não é a dificuldade em si,
O que torna um dia longo é o desânimo e a vontadede desistir...
