Poema o Amor segundo Carlos Drummund de Andrade
Filho da casualidade,
Nasceu soneto,
Sobre os mares,
Sonhando, desbravando,
- e cantando
E a sua rota traçando,
Flutua a caravela,
Procurando aportar
Em terra firme;
O amor não tem limite.
Prosseguindo a embarcação,
Desenhando espumas,
E tatuando o coração,
- a saudade
Nem o vento a tomba,
As brumas não a amedronta.
Herdeiro da verdade,
Eu te escuto,
No tilintar das estrelas,
No beijar dos cometas,
No dobrar das forças,
Eu te pertenço,
E para sempre irei ser tua
Por toda a eternidade...
Batendo
as minhas asas
Tenho direção
E tenho uma
vida toda
Para seguir rumo
E sem temer nada
A rota do sol
para ser alcançada
Tenho coração
Bússola e uma poesia
Para transformar
a vida em canção
Em música solar
Bem no meio das montanhas
E proteger o nosso
amor do mundo
E de todas
mil artimanhas.
Batendo as minhas asas
Tenho direção
Tenho leveza
E tenho ternura
suficiente
Para ganhar
o seu coração
E sem temer a vida
A rota do sol
é a saída
Mais do que
o meu coração
Bússola e poesia
Para transformá-la
em emoção
E numa loucura
de paixão
E toda a oração
em poesia solar
No topo das montanhas
E enlevar o nosso
amor para o mundo
Para que ninguém
desista de carregar
E se orgulhar
que carrega o amor
mais profundo.
Fiz o voto
de perder-me
imensamente
Somente em você,
exclusivamente;
Estranho destino
é o meu de tê-lo
Abrigado em meu
coração silente.
Como se diz
poeticamente:
Chegaste como
um amanhecer
- lindamente -
Dominaste-me
carinhosamente.
Fiz o voto
mesmo distante
De somente
te pertencer,
E resistir à tudo
Que me empurre
para longe
De você.
A minha confissão
é clara
- fiel -
E plácida como
os bordados
Feitos com os
fios coloridos
Da vida,
Que nos afastou
e nos brinda,
Por ainda crermos
nesse amor,
Abençoado pelos deuses,
Pelas ninfas
Recebendo a coroa
de trigo
Pelas mãos
campesinas.
Eu não respondo por mim
diante de ti,
Diante das [delícias
Dos teus beijos indecentes,
Dos teus beijos molhados,
Dos teus beijos imprudentes,
E daqueles mais rasgados...
Eu não respondo por ti,
Diante das [loucuras
Da perdição da tua pele,
Da fragrância masculina,
Da sedução do teu regaço,
Do aconchego do teu abraço.
Eu não respondo por mim
diante de ti,
Diante do que sei
que és [capaz
De fazer,
De me ter,
De me possuir,
De me mimar,
e me dominar...
Eu não respondo por mim,
Porque me fizeste
a tua primavera
Cultivando em mim um jardim
- imenso -
Eu não respondo por mim,
Porque em ti
Já encontrei todas
as respostas...
Coração é solo
que se pisa,
Coração é solo que
se deixa rastro,
Coração é solo
que se planta,
Coração é solo
que se cresce,
Coração é solo
que se floresce,
Coração é solo
que se colhe,
E nele também
se padece...
O mundo gira,
As areias do tempo
- seguem -
A ampulheta
percorre,
Entenda, o amor
tem um tempo
Que só os doidos
de amor
- compreendem -
Passam frio, fome
e até dor:
Abrindo mão
da própria vida
Em nome do amor.
Ter coração é
possuir o mundo,
É perder-se
e encontrar-se,
A vida toda
num segundo,
Ter coração é
remir o defeito,
É ver no outro
o ser perfeito,
Para quem tem coração
tudo tem jeito,
Desde que o amor não
seja desfeito.
Em nome do amor,
Em nome dos amores,
Tenha fé,
Não importando
Para onde fores,
Semeie flores
no caminho,
Quem ama jamais
estará sozinho,
Está sempre muito
bem acompanhado
Da melhor companhia
do mundo
Que responde por
um único nome: amor.
As nuvens dissipadas no céu,
O sol bondoso fazendo brotar...,
Não só os beijos das sereias
Pelas areias,
Mas também pelo mar;
Das gaivotas eu escuto,
- o cantar
Embalando o festejar.
As delicadas borboletas,
Obras primas da Natureza,
Sobrevoando as gentis dunas,
Enfeitando a poesia praiana,
Descrita na Praia de Salinas,
Eternizada como um doce beijar.
As dunas são como a vida,
Ambas mudam de lugar;
Não deixe nunca de amar...,
E no teu coração o amor bailar,
Siga como o barquinho
Pelas ondas do mar;
Permita-se ser levado pelo flutuar
De tanto me adorar...
Não tenha receio
- do destino
E nem de escrevê-lo,
Observe o caminho,
Este é o meu pedido!
Celebram e revoam,
Sob o céu colorido,
E sobre o mar de chumbo,
Assim são os pássaros,
Livres como o teu amor,
Que é o maior do mundo.
Os teus dedos tocam
A Lua e a estrela;
Paciência de esteta,
Que ama com beleza,
E refinada cadência.
As areias seguem o curso,
Somos como elas,
Temos leveza, e pertença
O receio não nos pertence;
Só exclusivamente o perene.
Os teus lábios macios,
Intensos e atrevidos,
Doces e quentes,
Não meteóricos,
Etéreos e atraentes.
Esbanjando essa fascinação,
Airosa sideração,
Não menos dispersa,
Encantamento de quem guarda
Para dois amantes:
o cálice da paixão.
Eu tenho muito
a te oferecer,
É verdade,
eu sou um oceano
Do amanhecer
até ao entardecer.
Um fenômeno anônimo,
Um impulso discreto,
Um amor doce e secreto.
Inteiramente
deslumbrante,
As minhas tonalidades
ousadas,
E as entonações abusadas...
Para te endoidecer,
Para te embalar,
E fazer a tua pele ferver.
Eu tenho virtudes,
É verdade, eu sou
o desencontro,
O encontro com a cabeça
recostada
Sobre a tua vontade,
o teu ombro.
Suplicante, pedinte,
- insistente
Assumida,
e sempre carente.
Sou a encarnação
da rebeldia,
O amor cheio
de revolução,
A canção repleta
de emoção,
A luz dos teus olhos,
A habitante
do teu coração,
A verdade cantada
em canção,
A tua loucura
cheia de paixão.
Você que saiu em busca da poesia,
Ela surpreendeu te dando uma
rasteira,
E agora? Como encontrá-la?
Ela entrou e passou pelos teus poros,
Sobrevoando as
(dunas),
E agora, está escondida atrás dos cactus,
E bem agasalhada no ninho das
(corujas).
Você que não sabia nada sobre poesia,
Ela descoberta por meus pequenos versos,
Te seduziu com todas as plumas...,
Com o voo
(silencioso),
Macio e
(carinhoso),
A poesia entrou e passou,
Deixando a saudade inteira em você.
Sendo notada ou não,
Voa poesia voa,
Escreve até sobre a garoa,
Mas voa porque a vida é boa,
Não desista de mim não,
Não saia desse meu coração.
É noite no Balneário dos poetas,
aqui cruzam as estrelas nas letras.
Os nossos dias são cheios de poesia,
daqui nascem cantos de revolução.
Balneário onde as poesias pousam
- como tranquilas gaivotas -
A vida deu mais do que mil provas:
o destino segue o curso do coração.
É noite no Balneário dos poetas,
[Balneário de intensos poemas!...
Os dias regam as doces palavras
que hão de ser para sempre lembradas.
É noite no Balneário dos poetas,
noite repleta de claridade...
Noite para dizer o suficiente:
- Deixe-me viver em liberdade!-
É noite no Balneário dos poetas,
para saudar o girar dos astros.
Tenha-me em sua lembrança,
mas não siga os meus passos.
É noite no Balneário dos poetas,
para dizer que: - Eu escrevo por arte.
Leia-me por inteira...,
não me procure, e não me queira.
É noite no Balneário dos poetas,
para dizer que: - Eu te amei por um triz!
O Universo não nos quis,
aceite o traçado do destino, este é o caminho!
A minha poesia arderá para sempre,
porque sou movida à paixão.
A vida já deu mil mostras...,
que Ele escreve certo por linhas tortas;
Deixe-me no Balneário dos poetas,
a perder-me nas ondas do mar,
escrevendo livre nas areias:
poesias feitas de renda - e inteiras!
O teu olhar tem a cor da noite,
a tua boca tem o sabor do mel.
O teu olhar não menos meu,
é tão caro quanto [brilhante...
A tua boca é plena e saborosa
possui lábios tão extasiantes:
Conjunto que me fez flamejante.
A tua existência é concreta,
a urgência que tenho secreta:
a primavera que não passa
(...) Primavera, eterna!
O teu gingar inesquecível,
e a tua pele incrível
Em mim [permaneceram];
a poética que nem os guerreiros
e a noção de pecado não derrotarão,
Estarão nos meus versos plenos
Repletos para fazer eternos
- dois corações -
Que a distância superarão.
Não me roube de mim mesma,
Eu me pertenço!
Sou filha da boa franqueza...
Não me roube a paz
De construir a vida
Que eu sempre quis
Eu deixei tudo para trás.
Não me veja com outros olhos,
Eu sou como sou!
Sou poesia, sangue e sonhos...
Não me tire o tempo
De procurar o amor
Imaculado no peito
De alguém que seja
- inteiro -
E seja cheio de candor.
Não me faça como passatempo,
Eu sou dona da minha vida!
Não se faz ninguém perder tempo...
Não me venha com intenções:
Primeiras, segundas e terceiras...
Eu busco muito mais que o teu querer:
Busco o verdadeiro amor
Talvez na dimensão que você viva,
Jamais irá entender, não queira me prender!
Não é justo fazer-me de objeto,
Sou dama de fogo e ferro,
Deixe-me no meu caminho certo.
Não é legítimo e nem legal,
Arrancar a poesia lirial,
Tirar a honra do meu andor,
De andar orgulhosa
Por cultivar o jardim celeste
Que florescerá com o meu sonho de amor!
Somente entende quem tem peito,
E com ele fielmente escreve.
O destino imperfeito
É governado pela chama Celeste.
Compreenda que tudo tem jeito,
E com Ele tudo entra no trilho.
O Amor é perfeito,
É luz em nosso caminho...
Somente entende quem ama,
E por amor sofre, nunca reclama.
O impedimento não apagou a história,
É com ele que se tempera a chama.
Contando com as horas ao nosso favor,
Escrevendo poesia para esconder
- a minha dor -
De ter deixado para trás o nosso amor.
Suspensa no topo da Galáxia
Escuto o teu saboroso canto,
Embalando o meu corpo
Despertando do bom sonho,
Que estava no teu porto.
Apenas do sono despertada,
Mas não menos apaixonada.
Porque quando se ama:
A alma sonha acordada.
.
Sonetista do farol da ilha
Escrevo com poeira estelar,
Querendo a rota contar
De um particular encanto,
- Que veio para renovar! -
Alegria seminua que se prende
e liberta a macia cintura,
Entusiasmo que se sente
a cada letra indiscreta
De ter um amor na Terra.
Leve, irrepreensível e concreta
a libido que não se divulga,
Entre quatro paredes segreda
a promiscuidade evidente
Entre a Poesia, o Céu e a Terra.
Alegria redentora que se solta
e liberta o que tem na mente,
O canto silente das revoluções
quebrando o silêncio das prisões
Deste amor que chegou de repente...
Não há como esquecer da vez
que eu tirei você para dançar.
Não era impossível prever
que a gente iria se [cruzar.
O amor ainda vive no olhar
como composição essencial.
Nome ainda vivo no peito
como bailarina a [sapatear.
Não há como resistir a você
que chegou de vez para ficar.
Não sei como será adiante,
e o quê fazer para te [agradar.
O amor quando chega de vez
é como o vento a refrescar
que acaricia a face
em plena noite de [luar].
As estações passaram lentamente,
Estou no vazio dos teus abraços,
Na plenitude das tuas mãos,
As horas agem implacavelmente!...
As músicas presenteiam inteiramente,
Virei poesia reverente na canção,
Na altitude solar ardente,
Jurei virar um oásis de sedução.
As aspirações mais sutis subscrevem:
- Estou no ápice de te pertencer
No ponto que a Lua e Vênus convergem
As saborosas doçuras que hão de acontecer!...
As suratas e as femininas obediências,
Bem aprendidas desde cedo,
Tenho alma saharaui;
Carrego lições que não as esqueci,
Porque hei de amar-te e fazer-te ledo,
De um jeito que jamais vi!...
Como o barco que cruzou o [oceano
as asas da pomba bateram voo,
Como o tempo que não volta atrás
as areias se foram pelos dedos,
Como o curso do açude [desviado
as flores do jardim brotaram,
Regadas pela força do destino traçado.
O corpo dele é o meu cais,
Da boca desenhada sairão
Os mais eloquentes ais...
Das poções coralinas carregadas
para à beirinha da Praia de Salinas,
Dos amores que ficaram para trás,
existe apenas um que há tempos
- espero -
De um jeito que só ele sabe que é capaz.
O sorriso dele ao Sol
É o próprio Sol
A enfeitar o arrebol...
A existência dele é celeste
criada para servir à Humanidade,
Desde que eu o conheci
nunca mais fui mulher,
mudei de endereço,
mudei até de nome:
- Hoje respondo apenas por saudade.
Eu sou movida à paixão,
não temo caminhar ao sol.
Eu sou amante da vida,
te querer é a minha religião.
Em ti resiste a fogo brando,
- e a brasa mansa [recolhida
De uma paixão impensável
Por minh'alma [feminina.
Eu sou aquela [criatura],
que se perfuma para te ter.
Eu sou aquela [ternura],
que vira de verso para te ter.
Do melhor de mim para ti
oferto-te o meu inalterável:
o meu amor feito de poesia
Sublime, ardente e honorável.
Não havia me dado conta:
que nasci com um belo
- par de asas -
Nunca desejei fugir de nada,
a não ser em busca da paz
e de um destino que me valha;
Ir embora não significa fugir,
é seguir em frente - infrene,
é saber o caminho a seguir;
em busca do que o covarde
não tem coragem, é não desistir!
Não havia me dado conta:
que nasci alma delicada
- e guerreira
Da mesma forma que eu brincava
por horas com a espada,
Sabia apreciar a minha bailarina
dançando na caixinha de música
feita de ferro, com pérolas e prateada.
Não havia me dado conta:
Ainda há quem agrida a minh'alma
feita de fogo e de fé,
Ainda há quem duvide da minh'alma
feita de rosas e jasmins,
Cheia de surpresas para quem planta,
Surpreende durante a colheita
vou decorá-la com os mais belos jardins.
