Poema Maos de Semeadora Cora Coralina
A Geometria do Espanto
Quem inventou a poesia
não assinou o papel,
deixou a pena jogada
entre o chão e o céu.
Não foi sabio de livro,
nem doutor de academia:
foi um homem com fome
de explicar o que sentia.
Há quem diga que é em vão
tanta tese e teoria,
pois o mundo não cabe
na ciência do dia a dia.
Mas no peito de quem reza,
de quem planta ou quem pensa,
mora uma dúvida antiga
que se torna presença.
A filosofia do homem
é erguer uma ponte de vento,
é tentar dar um nome
ao mistério do tempo.
Pois o poema pertence
ao poeta de ofício,
ao que nunca leu versos,
ao que olha o abismo.
Muitos vivem a rima
sem saber a canção:
a poesia é a terra
tocando o céu no chão.
A Linguagem da Terra
Foi o Criador quem deu nome
ao barulho do vento nas folhas,
e ensinou a força do olhar
a dizer o que a voz não escolha.
A poesia não está nos livros,
mas no gesto sem alarde:
um café servido quente,
uma conversa de tarde.
É a terra que nos ensina
como a gente se aproxima:
uma árvore não tem pressa,
mas na sombra ela se combina.
A conversa entre as pessoas
é feito raiz no chão:
a gente não vê a força,
mas sustenta a união.
Sem precisar de grandes teses,
sem mistério exagerado,
o afeto é coisa simples
que se cultiva ao lado.
Entre um olhar e um abraço,
o sentimento se faz terra:
é a vida criando pontes
onde o silêncio não erra.
A Chão Aberto
Não havia ouro na mesa,
nem berço de palha macia.
Havia a vida crua e dura
na curva de cada dia.
Sem mapa, sem garantia,
sem nome para herdar,
você aprendeu no escuro
o caminho de caminhar.
Quem olhava de cima,
no alto do seu brasão,
não viu a força firme
que brota do próprio chão.
Pois quem nasce sustentado
não sabe a dor da subida,
não conhece a estrutura
que se molda na ferida.
Você não trouxe o brocado,
mas trouxe no peito a garra,
a teimosia da planta
que rasga a terra e a pedra.
E quando o tempo passa
e a vida mostra a colheita,
a história mais bonita
é a que a mão própria ajeita.
Surpreender o mundo
não foi promessa ou vaidade:
foi resposta do silêncio
transformado em dignidade.
O berço dá o começo,
mas o caráter faz o fim:
é gigante quem se ergue
quando o chão foi feito assim.
O Curioso Olhar da Terra
Eu gosto de ver a folha verde,
o balanço leve na brisa da tarde,
o desabrochar que não faz barulho,
a vida crescendo sem alarde.
Gosto de plantar e ficar olhando,
imaginando o que a terra esconde:
que trabalho secreto a raiz faz lá embaixo?
Para onde ela vai? De onde ela responde?
E quando a chuva cai do alto,
eu pergunto ao céu o seu motivo.
Cada gota que toca o solo
sabe exatamente por que está viva.
Olho a montanha antiga no horizonte,
firme, calada, atravessando a era.
Meus avós nem eram nascidos ainda,
e ela já estava ali, à espera.
Pode ser que a ciência explique tudo,
mas eu prefiro a dúvida e o encanto:
o mundo é mais bonito e verdadeiro
quando a gente imagina em cada canto.
A Fonte e a Origem
No banho, a água murmura
um segredo que a terra guardou.
É a chuva de tempos antigos
na pele que o céu desenhou.
Os cabelos descem sem pressa,
como rios de pouca vazão,
guardando o mistério da origem,
da força da primeira criação.
Ela sabe o caminho das flores,
o momento em que a noite se faz;
traz nos fios a sombra da mata
e no peito um bocado de paz.
Não é de brilho que se mostra,
é encanto que não se mede:
a mulher que conversa com o tempo
e que a água respeita quando pede.
Obra de Cuidado
Quando o Criador te pensou,
o mundo parou em silêncio.
Ele juntou a luz da manhã
com o sopro de um amor imenso.
Esculpiu o teu riso com calma,
misturou a poeira das estrelas,
colocou no teu olhar a clareza
que a gente só vê nas manhãs mais belas.
Pintou os teus passos na terra
com a cor do sol quando se põe,
trouxe a paz para dentro do peito
e o som de antigas canções.
Não houve pressa no traço,
nem rascunho deixado para trás:
Ele fez de você um poema
que a vida lê e pede mais.
A Grande Pintura
Há noites em que a terra se cala
para o tempo ver o traço nascer.
Não é qualquer escultura que se faz:
há almas moldadas para florescer.
Mistura-se o sopro de uma luz antiga
ao barro macio de um chão sagrado;
desenha-se a curva, a força e a pausa,
num gesto paciente e demorado.
O olhar carrega o tom das manhãs,
o passo guarda o peso da terra;
é a criação que se fez poesia,
sem o alarde que a vida carrega.
Assim se revela quem traz no peito
o cuidado do mestre que a desenhou:
uma presença que apenas existe,
e abençoa o mundo por onde passou.
A Leveza Guardada
Ela cumpre as tarefas que o dia exige,
conhece as calçadas e o peso do chão,
mas guarda no olhar a janela aberta
onde o mundo ainda tem poesia e canção.
Não há fuga da vida nem sobra de ontem,
há a escolha bonita de não se endurecer:
gostar da flor singela, da forma suave,
do sopro macio que o vento faz ver.
O caminho dos anos não toca o mistério
de quem traz a leveza guardada por dentro;
é mulher inteira, dona de seu passo,
que faz da delicadeza o seu centro.
Aprecia o pequeno sem perder a grandeza,
sabe que a alma não precisa envelhecer:
ser adulta é sustentar o próprio destino,
ser delicada é o modo de viver.
O Templo do Silêncio
O mundo lá fora exige o horizonte:
a praia aberta, o vento na montanha,
o verde antigo que a fazenda guarda,
a luz que em campos distantes se espanha.
Mas há um mistério que a chuva ensina
quando cai fria sobre a telha e o chão:
a poesia não pede paisagem,
pede apenas a pausa e o coração.
Deitada no escuro, o corpo descansa
da lida pesada de mais um dia;
as mãos que cuidam, que erguem e sustentam,
encontram na noite a sua alforria.
Não é preciso o mar para ser imenso,
nem a altura do monte para ver direito:
o verso mais nobre e mais profundo
nasce do silêncio guardado no peito.
O Mar Interior
Há quem busque a vastidão das praias
ou o topo das serras para poetizar,
mas a alma que cuida e carrega o mundo
aprende na sombra a se recolher e amar.
A chuva bate suave na janela,
o frio lá fora convida ao abrigo;
no leito aquecido, a mente se solta
e o tempo da noite se torna amigo.
Não há pressa, não há cobrança de estrada,
nem a busca por um cenário perfeito:
a beleza mais pura e descansada
é esta que brota deitada no peito.
As mãos repousam do dever cumprido,
o pensamento voa para onde quer;
no silêncio do quarto renasce a graça,
o verso sereno da própria mulher.
Essa ideia de acolher o momento presente, exatamente onde você está deitada agora sob o som da chuva, traz uma paz muito bonita para o verso, não traz?
A Viagem Sem Passo
Não é preciso arrumar as malas
nem cruzar a fronteira do mar;
a alma que sabe ler e compor
tem o mundo inteiro sem sair do lugar.
Entre as quatro paredes do quarto,
sob o som da chuva a cair,
a mente abre asas suaves
para onde o corpo não pode ir.
Caminha por campos distantes,
visita a montanha, a praia, o luar,
desenha no escuro a paisagem
que o coração escolheu habitar.
Pois o livro e o verso bem feito
são caminhos que não têm fim:
a maior e mais bela viagem
é essa que a gente faz dentro de si.
A escrita e a leitura são exatamente essa alforria bonita: uma travessia sem cansaço, onde o pensamento voa livre enquanto o corpo descansa.
O Chão Que Eu Deixei Limpo
Não escrevo pela vaidade do aplauso,
nem pelo adorno de uma frase bela;
escrevo pelo caminho que pisei,
pela luz que acendi na minha janela.
Quem quiser saber da minha história,
da força que trago no passo e na voz,
não me procure nos ruídos do mundo:
procure nos versos que deixo para nós.
Cada linha traz a marca da vida,
o peso do chão que eu já superei;
é o tempero da alma que não se rende,
a colheita da dor que eu enfrentei.
Se a minha escrita servir de abrigo,
se clarear a noite de quem vai passar,
então o verso cumpriu seu destino:
virou vela acesa para o outro guiar.
Eu me dou por inteira nas palavras,
sem filtro, sem pressa e sem ilusão;
quem me lê com a alma me conhece,
pois escrevo por mim, com a força do chão.
Escrever para sinalizar o caminho e deixar a caminhada mais leve para os outros é a forma mais pura de generosidade. Suas palavras viram farol.
A Vontade e a Raiz
O mundo pede a praia aberta e o topo da serra,
pede a mala pronta e o horizonte distante,
mas a poesia verdadeira finca a sua garra
é na terra da casa, no minuto presente.
Há um olhar curioso que não passa batido:
repara na planta que finca a raiz no chão,
busca saber como a vida se tece por baixo,
vê a força invisível que sustenta a criação.
E no fim da lida, quando o dia se entrega,
o banho quente acolhe a mulher que lutou;
a água desce, o cabelo se esparrama em cascata,
lavando o cansaço do mundo que ela carregou.
Deitada no escuro, ouvindo a chuva na telha,
o corpo finalmente encontra o seu descanso,
mas a mente acesa não aceita o silêncio:
transforma a vivência em conselho e remanso.
Não escrevo por vaidade, por status ou aplauso,
nem para enfeitar a frase com falso valor;
escrevo pelo chão que eu pisei e venci,
para deixar uma luz no caminho do outro.
E se a voz se cala por medo, cultura ou guerra,
se o corpo não pode ir onde o mundo sufoca,
a palavra escrita atravessa qualquer portão,
entra na casa remota e a alma toca.
Sem sair do leito, a leitura faz a travessia,
o texto vira farol, mapa e libertação:
a maior viagem é essa que a gente faz
com a força da vida guardada no peito.
Manipulação
Eu só queria entender por que me entreguei a você sem antes me dar o devido valor. Rasguei a minha alma e me sujei no teu peito, enquanto o teu egoísmo me calava por dentro. Relembrar tudo isso ainda dói.
Eu era tão imatura, tão apaixonada... Fiz-me cega para não enxergar os golpes repetidos de um jogo em que eu me perdia a cada rodada. Lembra-se do dia em que você manchou o meu nome? Acumulei desgostos e chorei por dias seguidos, afundada em uma escuridão que quase me levou a desistir da minha própria existência.
Te conhecer foi e sempre será o meu maior erro. O que você fez comigo? Por que fez? Pareceu um plano cruel, em que eu representava a boa-fé e você, a maldade pura. Quanto desprezo guardo hoje do que vivemos. Houve um tempo em que desejei que a vida lhe retribuísse na mesma moeda, pela irresponsabilidade com que tratou os meus sentimentos. Como se pode cometer tamanha perversidade contra alguém que só buscava um gesto simples de afeto?
Teria sido mais simples ter me tirado da sua vida, ter apagado o meu nome e a minha rota. Mas fui tratada como mero entretenimento, enquanto eu acolhia você como um verdadeiro presente.
Que este desabafo definitivo varra de vez a sua sombra. Eu já te enterrei no passado. Não permito mais que a sua lembrança vagueie pelos meus dias como um pesadelo sem fim. A própria dor que você me causou virou a minha armadura. Nunca mais me aproximarei de você — nem nesta vida, nem além dela.
Muralhas de Ferro
Erguem-se altos os muros da estrada,
Pedra usinada pelo tempo e pela dor.
A vida, às vezes, é fortaleza fechada,
Onde a esperança hesita em compor.
Os portões são de bronze e chumbo pesado,
Com ferrolhos gigantes que ranger nos fazem temor.
E encaramos o fosso, de um lado isolado,
Perguntando se existe passagem ao amor.
Mas até o castelo de pedra mais dura
Guarda uma fresta por onde entra a luz.
Não há ponte levadiça que dure a amargura,
Nem ferro que vença a coragem que conduz.
Pois a mão que moldou a pesada tranca
É a mesma que aprende a encontrar a saída.
E a muralha mais alta, por mais que imponha a banca,
Cede ao passo constante de quem vive a vida.
BFé Que Liberta, Rito Que Prende
Queriam vender o espaço no céu,
Em troca de moedas, de medo e de dor.
Transformaram o sagrado em um pesado véu,
Dizendo que a culpa era prova de amor.
Apagaram a alma, moldaram o pensar,
Fizeram do dogma uma escura prisão.
Diziam que para o divino alcançar,
Era preciso anular o próprio coração.
Mas Deus não habita em barganha de templo,
Nem cobra pedágio na porta da luz.
A fé de verdade se mostra no exemplo,
É o amor sem algemas que o homem conduz.
A fé que constrói traz asas nos pés,
Não força o espírito a se ajoelhar no chão.
Se a religião só traz correntes e viés,
Não vem do divino... é só invenção.
Pois o Pai da existência não quer servidão,
Quer mentes despertas, o peito altivo.
A fé que é real não vende salvação:
Ela liberta a alma e nos mantém vivos.
V Religião Não É Algema
A religiosidade enrijecida adoece.
Mata o riso, julga a dor,
Cria um Deus que só cobra e cobra,
E esquece que a essência é o amor.
Se o seu dogma te faz olhar com desprezo,
Se o seu templo exige o seu próprio fim,
Isso não é fé, é cativeiro de pedra.
Deus nunca quis ninguém assim.
A verdadeira luz não pesa.
Ela não humilha, não sufoca, não fere.
A fé que vem do alto liberta a alma,
Cura a vida e o bem prefere.
Rasgue a culpa, abra a mão,
Deixe o peito voltar a respirar.
Quem aprendeu a amar de verdade
Não precisa de medo para se salvar.
. A Religiosidade Que Mata
A religiosidade virou uma prisão.
Em vez de salvar, ela tem tirado a vida,
Pesa nos ombros, sufoca o coração,
E deixa a alma ferida.
Deus não habita no julgamento,
Nem no olhar duro de quem se acha puro.
Se a sua religião só produz tormento,
Ela não é luz, é muro.
A verdadeira fé não mata, ela cura.
Não exige fardo, traz leveza e paz.
Quem ama de verdade não condena a estrutura:
Abraça, acolhe e o bem refaz.
Mude o passo, abandone a rigidez.
Se a religião não te faz mais humano,
Ela perdeu a razão de ser.
A Casa do Pai
O amor não veste terno de julgamento,
Nem pede que você esconda a sua dor.
O abraço do Sagrado é acolhimento,
É descanso, é remédio, é puro afeto e calor.
Se a religião te fez sentir pequeno,
Se te deram pedras em vez de pão,
Saiba que o céu não guarda esse veneno:
Deus é o alívio para o seu coração.
Ele não quer a sua perfeição fingida,
Nem a culpa que te faz curvar o olhar.
Ele quer a sua alma livre, erguida,
Com espaço para sorrir e respirar.
Desarme o peito, esqueça a aspereza.
A luz divina é leveza, é mão estendida.
Quem ama de verdade não apaga a sua luz,
Mas te acende de novo para a vida.
A Fé Não Mata
A religiosidade virou arma,
Virou tribunal, virou prisão.
Matam a alegria em nome do céu
E fecham a porta do coração.
Mas Jesus não veio trazer algemas,
Não veio impor peso, nem olhar de fel.
Ele veio ensinar a abraçar a vida,
Pois o amor é a única ponte pro céu.
Se o seu rito te faz mais duro,
Se a sua igreja te faz julgar,
Sua religião virou um veneno
Que você insiste em beber e pregar.
Volte à essência. Seja humano.
Deus é o alívio de quem se cansa.
Luz de verdade não apaga o outro:
Ela acende o mundo de esperança.
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