Peregrino
Haruto, o Peregrino de 93 Anos*
No vigésimo dia da minha caminhada pelo Caminho Francês, no sentido contrário a Santiago de Compostela, em direção a Saint-Jean-Pied-de-Port, avistei ao longe um peregrino caminhando em minha direção.
À medida que nos aproximávamos, percebi, pelos seus passos, que se tratava de um homem bastante idoso. Quando nos encontramos, fiquei impressionado. Com a coluna levemente curvada, apoiando-se em apenas um bastão, usando botas, um chapéu de estilo japonês e uma mochila com um saco de dormir preso a ela, transmitia serenidade e determinação.
Estávamos próximos ao topo dos Pireneus. Eram cerca de onze horas da manhã de um dia muito frio. Eu seguia para Logroño, enquanto ele caminhava em direção a Nájera, em uma etapa de aproximadamente 30 quilômetros.
Com a ajuda de um aplicativo tradutor, perguntei-lhe se era do Japão. Sorrindo, confirmou com a cabeça. Apresentei-me como português, residente no Brasil havia quase cinquenta anos, e perguntei seu nome.
— Haruto.
Perguntei de onde era.
— Osaka.
Em seguida, quis saber sua idade.
— Ontem completei 93 anos.
Fiquei sem palavras.
Então ele explicou:
— Quando meus filhos começaram a me dar pequenas tarefas para ocupar um idoso, eu lhes disse: "Enquanto eu tiver pernas, vou caminhar para não dar trabalho a vocês." Já faz cerca de vinte anos que não paro de caminhar.
Perguntei se os filhos não se preocupavam com ele.
Ele respondeu com sabedoria:
— Eles é que deveriam se preocupar consigo mesmos. A vida nas grandes cidades, longe da natureza, tira das pessoas a alegria de viver.
Também contou que já havia caminhado por todos os continentes, exceto a África, por causa do calor intenso e da pouca infraestrutura.
Conversamos por cerca de quinze minutos. Ao nos despedirmos, desejei-lhe uma boa caminhada e alertei sobre as longas e perigosas descidas que enfrentaria.
Sorrindo, ele respondeu com um antigo provérbio japonês:
"Caia sete vezes. Levante-se oito."
Ele fez uma reverência com a cabeça. Eu ergui a mão e disse:
— Que Santiago nos proteja.
Naquele instante compreendi que a verdadeira juventude não está na idade, mas na vontade de continuar caminhando.
O senhor Haruto, aos 93 anos, tornou-se um dos maiores incentivos da minha vida para jamais desistir dos meus próprios caminhos.
Peregrino Nino Carneiro
O Caminho, o Encontro e Outras Urgências
Era 15 de agosto de 2026, e o peregrino Nino Carneiro fazia sua peregrinação até Nossa Senhora de Aparecida da Babilônia.
Naquele dia, ele estava especialmente feliz. Tanto na ida quanto na volta, muitos pagadores de promessas o reconheceram. Alguns lhe desejavam uma boa caminhada; outros pediam uma fotografia; e havia ainda aqueles que, percebendo o dia abafado, embora não muito quente, ofereciam-lhe água.
Entre tantos peregrinos, porém, um chamou particularmente sua atenção: um pai que caminhava carregando nos ombros uma pequena “casinha”, dentro da qual estava sua filhinha, uma menina que aparentava ter apenas dois ou três anos.
E não é que aquele pai era justamente um grande amigo do peregrino Nino Carneiro, com quem costumava tomar café da manhã duas ou três vezes por semana?
O encontro foi uma daquelas surpresas que tornam uma caminhada ainda mais especial. Os dois ficaram muito felizes ao se encontrar. Conversaram por alguns minutos, trocaram algumas palavras sobre a caminhada e, depois, o amigo seguiu seu caminho, carregando a filha nos ombros e, provavelmente, algumas boas histórias para contar.
Ao chegar à capelinha de Nossa Senhora, o peregrino encontrou o recinto abarrotado de pessoas. Havia tanta gente que ficou praticamente impossível localizar novamente o amigo e sua pequena companheira de caminhada.
Depois de fazer sua oração de agradecimento a Nossa Senhora, o peregrino comeu algumas frutas, bebeu água, passou rapidamente pelo banheiro e retomou sua caminhada com destino a São Carlos, como de costume.
No dia seguinte, durante o tradicional café da manhã na Padaria Pão do Bairro, eis que apareceu novamente o amigo da caminhada do dia anterior — desta vez, sem a filha nos ombros.
Depois dos cumprimentos, os dois começaram a conversar sobre a peregrinação. Perguntaram um ao outro como havia sido a caminhada e se tinham visto alguma coisa que lhes chamara a atenção.
Foi então que o peregrino Nino Carneiro, naturalmente curioso, fez a pergunta que faltava:
— E a menina? Como ela se comportou durante a caminhada?
O amigo, com a maior tranquilidade do mundo, começou a contar.
Por volta da metade do percurso, a menina pediu para fazer xixi. Como ela havia deixado de usar fraldas poucas semanas antes, o pai pensou:
“Oba! Parece que a menina está se acostumando com a nova fase.”
Ao mesmo tempo, ele sabia que a esposa havia sido mais prudente e colocado uma fralda na menina antes da caminhada. Afinal, mãe experiente sabe que, em certas situações, prudência nunca é demais.
Até aí, tudo corria perfeitamente bem.
Quando chegaram ao Santuário de Nossa Senhora, porém, o pai resolveu levar a filha ao fraldário para verificar se estava tudo em ordem.
Foi nesse momento que a fralda resolveu participar ativamente da peregrinação.
Não houve anúncio sonoro nem aviso por escrito. Apenas aquele discreto, porém inconfundível, sinal de que a situação exigia providências imediatas.
A fralda estava cheia.
E, naquele instante, o pai descobriu uma das mais antigas leis da paternidade: uma criança pequena pode carregar muito pouco peso nos ombros, mas é capaz de colocar um peso enorme na responsabilidade dos pais.
O problema maior era que, dentro da mochila, não havia nenhuma fralda reserva.
O pai conseguiu higienizar a menina, mas percebeu que, para continuar a peregrinação, precisaria de uma ajuda que, naquele momento, valia mais do que qualquer água oferecida no caminho.
Pegou o celular e pediu socorro à esposa.
E assim terminou ali mesmo, nas proximidades da capela de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, a peregrinação daquele dia.
O peregrino Nino Carneiro ouviu toda a história com atenção e, como não poderia deixar passar uma oportunidade dessas, encerrou o encontro com uma reflexão digna de quem já aprendeu que a vida também gosta de pregar peças:
“A vida tem dessas coisas. Às vezes, um pequeno alívio pode representar uma grande felicidade. E, em certas peregrinações, o maior desafio não é chegar ao destino — é chegar até lá com fraldas suficientes.”
Naquele momento, o peregrino pensou que talvez essa fosse mais uma das lições das caminhadas: ninguém sabe exatamente o que encontrará pela frente. Pode haver sol, chuva, cansaço, fé, encontros inesperados, água oferecida por desconhecidos e até uma fralda capaz de mudar completamente o rumo de uma peregrinação.
E talvez seja justamente isso que torna o caminho tão interessante.
Porque, para quem caminha com o coração aberto, cada passo pode trazer uma história — e algumas delas, inevitavelmente, acabam precisando de uma fralda.
Peregrino Nino Carneiro
Uma Corrida, Duas Histórias e um Novo Começo
Em mais uma de suas corridas, o motorista peregrino recebeu uma mulher negra acompanhada de dois filhos pequenos, também negros. Desde os primeiros instantes, percebeu que não eram apenas passageiros, mas uma família unida pelo carinho, pelo cuidado e pela cumplicidade. Os três cumprimentaram o motorista separadamente, com um educado “bom dia”, gesto simples que chamou sua atenção. Para o Peregrino, são justamente essas pequenas atitudes que revelam muito sobre as pessoas e podem transformar uma corrida comum em um encontro especial.
O primeiro destino seria a escola das crianças e, depois, o Laboratório Mariconde. Durante o trajeto, o motorista percebeu o sotaque diferente e perguntou de onde Yasmin era. Ela explicou que havia nascido em Nampula, no norte de Moçambique, e que vivia no Brasil desde 2018. Contou que seu marido, Mussa, havia conseguido um visto pela CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — e que, depois de alguns anos, retornara a Moçambique para buscá-la. Antes disso, o casal formalizara o casamento para facilitar sua vinda ao Brasil.
Curioso sobre a terra natal de Yasmin, o motorista quis saber como estava Moçambique depois de tantos anos de independência. A conversa passou pela FRELIMO, que liderou a independência do país em 1975 e permanece no poder desde então, e pelos problemas enfrentados pela população, como pobreza, desigualdade, corrupção e violência. Yasmin explicou que essas dificuldades fazem muitos moçambicanos procurarem oportunidades fora do país, enquanto sua própria família havia encontrado no Brasil uma maneira legal e segura de recomeçar.
Na conversa, surgiu também a história das crianças. Felipe, de seis anos, e Bruna, de quatro, eram brasileiros e são-carlenses. Naquele momento, o motorista percebeu que aquela família já não estava apenas vivendo em um novo país: estava construindo uma nova vida em São Carlos, com escola para os filhos, trabalho, casa e novos sonhos.
Na primeira parada, Yasmin deixou as crianças na escola. Depois, seguiu com o motorista até o laboratório, onde trabalhava como atendente. Ao perceber que ela estava feliz com o emprego, principalmente por ser próximo da escola dos filhos e de sua casa, o Peregrino entendeu que aquela mulher havia encontrado mais do que um lugar para morar. Havia encontrado uma oportunidade para trabalhar, criar os filhos e construir seu próprio caminho.
Ao chegarem ao destino, o motorista fez uma última pergunta: de zero a dez, que nota Yasmin daria ao Brasil? A resposta veio acompanhada de um sorriso: “Se pudesse dar vinte, daria”. Para ela, o Brasil havia proporcionado oportunidades que não encontrara em seu país de origem. O motorista respondeu que compartilhava do mesmo sentimento e que também não trocaria o Brasil por nada deste mundo.
Naquele momento, porém, o motorista revelou uma lembrança que guardava consigo e, quase em um sussurro, disse: “Foi Moçambique que me deu o meu primeiro grande amor.” A frase carregava uma história que Yasmin ainda não conhecia e que, de repente, aproximava ainda mais aquelas duas vidas, aparentemente tão diferentes.
Quando a corrida terminou, o Peregrino percebeu que havia levado uma família de um ponto a outro, mas recebido em troca uma história de coragem, recomeço e esperança. Para ele, a vida é assim: feita de caminhos que se cruzam, encontros que ensinam e pessoas que, muitas vezes, deixam uma marca sem sequer perceber.
Yasmin atravessara um oceano em busca de novas possibilidades. Trouxera consigo sua história, sua cultura, seus sonhos e, principalmente, a esperança de oferecer aos filhos um futuro melhor. E foi justamente isso que o Peregrino enxergou naquele encontro: não importa de onde uma pessoa vem; quando existe coragem para seguir em frente, sempre pode surgir um novo caminho.
Talvez essa seja uma das maiores lições que os caminhos ensinam: algumas viagens terminam quando o passageiro chega ao destino, mas outras continuam dentro de quem teve a oportunidade de ouvir uma história. Aquela corrida havia terminado, mas o encontro entre o Peregrino e Yasmin certamente continuaria caminhando na memória dos dois.
Até a próxima corrida. Até o próximo encontro. Até o próximo caminho.
Peregrino Nino Carneiro
Sou peregrino nesta terra, vim para crescer, evoluir e completar a carreira. No tempo do Pai, voltarei para Casa.
Uma corrida, duas histórias
Eram exatamente 4h50 da manhã quando o motorista-peregrino ligou seu aplicativo de transporte. São Carlos ainda estava mergulhada na escuridão quando surgiu uma corrida para uma delegacia na Zona Norte. O passageiro estava a menos de um quilômetro de distância. Por ser madrugada, o motorista ficou um pouco ressabiado, mas aceitou a viagem.
Ao chegar ao endereço, percebeu que o passageiro era um policial militar. Assim que entrou no carro, o policial cumprimentou-o educadamente, e os dois seguiram viagem. Como sempre fazia, o motorista puxou conversa:
— Estou começando o dia com um passageiro que me dá segurança total!
O policial sorriu:
— E os demais passageiros não dão?
— Desculpe! O que quis dizer é que estou tentando tornar esta corrida agradável. Quem sabe o senhor não me conta alguma história interessante para o meu próximo livro?
Curioso, o policial perguntou se ele era escritor. O motorista explicou que era apenas um apaixonado pela escrita, autor de três livros, e que estava preparando outro, chamado “Entre Caminhos, Histórias e Aprendizados”, no qual pretendia reunir histórias vividas em suas caminhadas e aquelas que escutava dos passageiros.
O policial gostou da ideia e perguntou se poderia ganhar um dos livros. O motorista respondeu que sim, desde que ele lhe contasse algumas histórias marcantes de sua profissão.
— Então me conte duas: uma muito triste e outra engraçada.
O policial pensou por alguns segundos e começou pela mais difícil.
A história que nunca saiu da memória.
— Eu tinha pouco mais de um ano de profissão quando fazia uma ronda em São Paulo, pela Marginal do Tietê. De repente, vimos várias pessoas paradas às margens do rio, apontando para a água. Parecia que alguma coisa se mexia dentro de um saco.
Paramos a viatura, descemos e retiramos o saco da água. Quando o abrimos, descobrimos que havia um bebê recém-nascido lá dentro. Provavelmente tinha nascido poucas horas antes e fora jogado no rio pouco tempo depois.
Infelizmente, não havia mais nada a fazer. O coração daquela pequena criança já havia parado de bater.
O policial ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar:
— Fizemos todos os procedimentos necessários, mas aquela cena nunca mais saiu da minha cabeça. Até hoje não consigo entender como alguém pode cometer uma crueldade dessas contra uma criança indefesa.
O motorista ficou profundamente tocado.
— Existem histórias que a gente ouve e nunca mais consegue esquecer — disse.
Depois de alguns instantes de silêncio, lembrou-se da segunda história.
— Agora quero ouvir aquela que o senhor disse que me faria rir.
O policial sorriu.
O amigo do presidente
— Essa aconteceu em Ribeirão Preto. Eu e minha equipe estávamos em frente ao Fórum Criminal quando um morador de rua, bastante alcoolizado, aproximou-se de nós. Começou a nos ameaçar e disse que iria falar com o presidente Lula se não fôssemos até o viaduto onde ele dormia.
O motorista já começou a sorrir.
— Ele dizia que só queria dormir, mas que uns “homenzinhos verdes” passavam a madrugada fazendo dancinha perto do barraco, puxando seu cobertor e não o deixavam em paz. Depois afirmou:
— “Vocês sabem com quem estão falando? Eu sou amigo íntimo do presidente da República! Um telefonema meu e ele manda o Exército confiscar suas fardas e prender esses marcianos!”
O policial contou que a equipe resolveu entrar na brincadeira.
Abriram a porta traseira da viatura e disseram:
— Entra aí. Vamos levá-lo até o presidente da República. Se estiver falando a verdade, deixamos você lá para tomar umas com ele. Se estiver mentindo, vamos prendê-lo.
Segundo o policial, o homem não pensou duas vezes. Saiu andando em zigue-zague e desapareceu pela rua. Não quis mais saber de presidente, Exército nem de marcianos.
Os dois caíram na risada.
A corrida, que começara às 4h50 da manhã, havia se transformado em algo muito maior do que uma simples viagem. Em poucos quilômetros, o motorista encontrara duas histórias completamente diferentes: uma que provocava tristeza e reflexão; outra que arrancava gargalhadas.
Ao chegarem ao destino, os dois se despediram. O motorista agradeceu pelas histórias, que certamente encontrariam espaço em seu próximo livro, e cada um seguiu sua jornada.
Enquanto dirigia de volta, o peregrino pensou em algo que aprendera em suas caminhadas: às vezes, aceitamos uma corrida pensando apenas no destino, mas descobrimos, no caminho, que a verdadeira viagem está na história que encontramos pelo percurso.
Peregrino Nino Carneiro
Um peregrino passou a vida amaldiçoando as pedras que encontrava no caminho. Somente na velhice percebeu que cada tropeço o havia afastado de precipícios que nunca chegou a enxergar. Há sofrimentos que parecem castigos quando os atravessamos, mas que revelam sua misericórdia apenas quando olhamos para trás.
- Tiago Scheimann
Maria João, Um Anjo que Partiu Cedo Demais
Eu, como peregrino que acredita que a peregrinação não é apenas uma jornada física ou sagrada, aprendi que caminhar também é buscar uma espiritualidade que nos transforma e nos torna viajantes em direção a Deus.
A perda de minha sobrinha Maria João, uma jovem guerreira de apenas 24 anos, fez nascer em mim uma dor que nenhum caminho havia conseguido me mostrar. Ela perdeu a vida lutando, acreditando que os chamados de sua profissão não esperavam apenas pelo dever, mas pelo coração. Maria João era um anjo sem asas, vestindo a farda da coragem, sempre pronta para levar esperança ao cinza de qualquer tempestade. Sua partida levou uma jovem cheia de vida, sonhos e possibilidades, deixando em nossa família um vazio que nenhuma palavra consegue preencher.
Diante dessa perda, voltei cerca de quarenta anos na trajetória da minha vida e reencontrei outras despedidas que o tempo jamais conseguiu apagar. Primeiro, meu irmão João, aos 29 anos, vítima de leucemia. Um batalhador, dono de um coração imenso e sempre disposto a ajudar o próximo. Depois, minha querida mãe, Belmira, que partiu aos 53 anos. Uma mulher que considero uma fortaleza e que, ainda aos 17 anos, teve coragem de deixar o Brasil para viver um grande amor em Portugal. Em seguida, perdi meu pai, que, embora tivesse enfrentado um câncer, acabou sendo profundamente abalado pela depressão após a morte de minha mãe.
Quando meu coração começava a encontrar algum acalento, veio outra tragédia: meu sobrinho António, o Tó, partiu aos 18 anos, vítima de uma overdose de drogas. Gosto de imaginar que, de alguma forma que somente Deus conhece, ele foi ao encontro de seu pai, meu irmão João.
Depois de tantas perdas, pedi a Deus que me livrasse de novas notícias ruins. Os anos passaram, e a vida também me presenteou com momentos maravilhosos, tantos que seria impossível enumerá-los sem correr o risco de esquecer algum. Foram esses momentos que me ensinaram a agradecer, a caminhar e a compreender que a vida, apesar de suas dores, continua sendo um presente de Deus.
Mas hoje percebo que ainda sou extremamente frágil. Posso ter caminhado milhares de quilômetros, enfrentado chuva, frio, calor, cansaço e longas distâncias, mas nada me preparou para a despedida de Maria João. Descobri que existem distâncias que nenhum peregrino consegue medir com os pés. Existem caminhos que não se percorrem com as pernas, mas com a alma.
Por isso, hoje não tenho grandes respostas. Tenho saudade, lágrimas e fé. Resta-me implorar a Deus que conforte toda a minha família e agradecer aos milhares de portugueses que, profundamente comovidos, manifestaram solidariedade, respeito e compaixão diante da nossa dor pela perda de Maria João.
Ela partiu muito cedo, mas deixou uma história, uma coragem e uma lembrança que continuarão caminhando conosco. Talvez seja essa a única maneira de compreender a partida de quem amamos: o corpo vai embora, mas aquilo que a pessoa plantou em nossos corações permanece.
Hoje, o peregrino que tantas vezes escreveu sobre superar limites precisa reconhecer que encontrou um limite que não consegue ultrapassar sozinho. Por isso, não peço a Deus que apague a minha saudade. Peço que me dê forças para transformar a dor em oração, as lágrimas em gratidão e a ausência em memória.
Porque existem caminhos que não foram feitos para serem vencidos. Foram feitos para serem percorridos com fé.
Peregrino Nino Carneiro
O Destino Era Outro
Já se tornou rotina para o motorista peregrino ouvir pedidos de desculpas de seus passageiros. Alguns chegam atrasados, outros batem a porta do carro com força, marcam o destino errado ou fazem várias paradas sem se preocupar com o tempo de quem está trabalhando. Quase sempre, depois do erro, vem a palavra: “Desculpa”.
Naquele dia, uma senhora pediu uma corrida de ida e volta. Ao chegar ao posto de saúde, explicou que tomaria apenas uma vacina e voltaria rapidamente. O motorista avisou que o tempo de espera era de três minutos.
— Pode ficar tranquilo. Não vou demorar.
Mas demorou. Foram doze minutos.
Quando voltou, pediu desculpas. O motorista percebeu, porém, que aquelas palavras não carregavam arrependimento. Então decidiu falar.
— Minha senhora, eu esperei pela senhora porque preferi ter paciência a simplesmente ir embora. Mas preciso lhe dizer uma coisa: todos os trabalhos merecem respeito. E respeito não é apenas uma palavra que pronunciamos depois de cometer um erro.
Fez uma pequena pausa e continuou:
— Eu não acredito em pedidos de desculpas vazios. A palavra “desculpa” pode encerrar uma conversa, mas somente a mudança de comportamento consegue reparar aquilo que fizemos.
A senhora permaneceu em silêncio.
Ao chegarem ao destino, antes de sair do carro, ela olhou para o motorista e disse:
— Obrigada por ter falado tudo isso. Estou passando por momentos difíceis. Algumas pessoas já tentaram me dizer que eu precisava mudar, mas nunca dei importância. Hoje percebi que talvez elas estivessem certas.
Naquele instante, o motorista compreendeu que aquela corrida tinha deixado de ser apenas uma corrida.
Respondeu:
— Eu sou peregrino. E, nas minhas caminhadas, sempre peço a Deus que abra minha mente para que eu possa ajudar alguém pelo caminho. Talvez hoje a senhora tenha entrado no meu carro justamente para que tivéssemos esta conversa.
Antes de partir, ainda lhe disse:
— Quando puder, faça algumas caminhadas na natureza. Caminhe devagar. Observe as árvores, escute os pássaros e converse consigo mesma. Talvez a natureza lhe diga coisas que eu jamais conseguiria dizer.
A senhora agradeceu e fechou a porta.
O peregrino ficou alguns segundos em silêncio antes de seguir viagem.
Pensou que existem encontros que duram apenas alguns minutos, mas podem mudar uma vida. E talvez seja esse um dos maiores sentidos de uma caminhada: não apenas chegar ao destino, mas deixar alguma coisa boa pelo caminho.
Peregrino Nino Carneiro
Peregrino: Muito Além de um Nome
A palavra *peregrino* vem do latim *peregrinus* e significa estrangeiro, viajante ou aquele que percorre terras distantes.
Na Roma Antiga, designava o homem livre que não possuía cidadania romana. Na Idade Média, ganhou um significado religioso: aquele que parte em direção a um santuário, movido pela fé, pela devoção ou pela penitência.
Hoje, porém, nem todo peregrino caminha por motivos religiosos. Muitos buscam autoconhecimento, superação, cultura, contato com a natureza e respostas que talvez só encontrem dentro de si mesmos.
Mas você sabia que existe um santo chamado Peregrino?
São Peregrino Laziosi: da rebeldia à santidade
Nascido em 1265, em Forlì, na Itália, São Peregrino Laziosi teve uma juventude rebelde, muito distante da santidade que alcançaria. Tornou-se um dos santos mais conhecidos pela devoção dos enfermos, especialmente daqueles que enfrentam o câncer e outras doenças graves.
Segundo a tradição católica, ele próprio sofreu com uma grave enfermidade na perna e foi milagrosamente curado após uma experiência espiritual diante de Cristo crucificado.
Faleceu em 1345 e sua festa é celebrada em 4 de maio. Sua história nos ensina que ninguém está condenado a ser para sempre aquilo que foi um dia: também podemos transformar nossos passos, nossas escolhas e nossa história.
A oração a São Peregrino é um pedido de cura, coragem e esperança. Mais do que desejar a recuperação do corpo, seus devotos pedem forças para enfrentar o sofrimento sem perder a fé.
Curiosamente, também existe São Peregrino, bispo de Auxerre e mártir, celebrado em 16 de maio.
E há outra coincidência que chama a atenção: em Portugal, o dia 13 de outubro é associado à celebração do Dia Nacional do Peregrino, embora essa data não corresponda a um dia nacional oficialmente reconhecido em todo o país. É também o dia da última aparição de Nossa Senhora de Fátima, em 1917, tradicionalmente associado ao chamado Milagre do Sol.
Os grandes caminhos da humanidade. Ao longo dos séculos, milhões de pessoas percorreram caminhos sagrados em busca de fé, respostas, promessas ou transformação pessoal.
Entre as grandes peregrinações do mundo, destaco:
- Hajj, em Meca, Arábia Saudita: a peregrinação mais importante do islamismo, um dos cinco pilares dessa religião.
- Kumano Kodo, Japão: antigos caminhos entre montanhas e santuários, reconhecidos como Patrimônio Mundial da UNESCO.
- Shikoku Henro, Japão: circuito de aproximadamente 1.200 quilômetros que percorre 88 templos budistas.
- Via Francigena, Europa: histórica rota medieval que parte de Canterbury, na Inglaterra, e segue até Roma, atravessando diversos países.
- Caminho de Santiago de Compostela, Espanha: uma das mais famosas peregrinações cristãs do mundo, com diversas rotas, entre elas, o Caminho Francês, o Português, o do Norte e o Primitivo.
- Kailash Mansarovar Yatra, Tibete:** peregrinação ao redor do sagrado Monte Kailash, reverenciado por diferentes tradições religiosas. A caminhada circular, conhecida como *Kora*, tem cerca de 52 quilômetros e ocorre em altitudes superiores a 4.600 metros.
- Caminho de Assis, Itália: percurso ligado à vida de São Francisco de Assis, que atravessa paisagens da Úmbria e da Toscana e conduz a importantes santuários franciscanos.
O Brasil também possui caminhos que unem fé, natureza e superação. Entre eles, destacam-se o Caminho da Fé, rumo ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo; o Caminho de Caravaggio, na Serra Gaúcha; e o Caminho de Nhá Chica, em Minas Gerais.
Cada rota tem sua história, suas dificuldades e seus encantos. Algumas exigem resistência física; outras desafiam nossas convicções. Todas, porém, podem oferecer a oportunidade de olhar para a vida de outra maneira.
Será que estava escrito?
E agora chego à pergunta que me acompanha: será por acaso que me tornei peregrino, se nasci justamente no dia 13 de outubro, data associada ao peregrino em Portugal e tão significativa para os devotos de Nossa Senhora de Fátima?
Não sei se foi destino, coincidência ou apenas uma dessas surpresas que a vida nos reserva. Sei que caminhar transformou minha maneira de enxergar o mundo.
Aprendi que os pés nos levam aos lugares, mas são o coração e a alma que nos revelam o verdadeiro sentido da jornada.
Talvez eu não tenha nascido para ser peregrino. Talvez tenha descoberto, ao longo da vida, que já carregava um peregrino dentro de mim.
E você? Será que também existe um caminho esperando para ser percorrido em sua vida?
Peregrino Nino Carneiro
Salmos 120:5
Ai de mim,
que peregrino em Meseque,
e habito nas tendas de Quedar
“O ambiente pode ser hostil, mas a identidade do peregrino permanece santa: ele pertence ao Senhor.”
Peregrino
Eu, peregrino
peregrino pelo caminho
na busca incessante
caminho sozinho.
Cheio de gente,
cheio de Deus.
Ó, cheio de malas,
bagagens.
Nu, peregrino
livre pelo caminho,
irmão universal
do cosmo criação
do Amor, Deus menino.
"Tenha a inocência de uma criança, corra atrás de seus sonhos como o falcão peregrino e viva como uma libélula sem pensar no amanhã".
Parti crente no meu destino,
rumo ao cais da devoção,
como um simples peregrino
que caminha em oração.
O tempo não é um rio que flui, mas uma debulhadora que tritura. Tua função, peregrino, é tão-só dar-lhe frutos. O Deus das Sementes aguarda o retorno por sua semeadura.
O Peregrino Supremo
Peço-lhe como peregrinos e peregrinos, abster-se de luxúrias carnais. - 1 Pedro 2:11
Durante a Guerra Fria, dirigi várias visitas de estudo à Europa. Nosso itinerário nos levou de Amsterdã a Berlim, o que significava que tínhamos que passar pela Alemanha Oriental comunista. Na fronteira, tivemos que mostrar nossos passaportes, examinar nossa bagagem e deixar os guardas verificarem o ônibus. Esperamos cerca de 3 horas pela liberação. "Lembre-se", disse um funcionário, "não há consulado americano na Alemanha Oriental, portanto não perca seus passaportes ou documentos de entrada".
Fale sobre se sentir indesejado! A mensagem era clara: teremos o prazer de receber seu dinheiro, mas não queremos você. Sentimos a animosidade até sairmos.
Como cristão, às vezes me sinto assim em relação a este mundo - simplesmente não pertenço. As Escrituras deixam claro que, como crentes em Cristo, somos “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hebreus 11:13). Somos cidadãos de uma terra muito melhor (v.16). Por mais que possamos amar nosso país natal, nunca nos sentiremos totalmente em casa aqui - e não devemos.
Como lidamos com ser peregrinos que estão de passagem? Ao olhar para Cristo e seguir Seu exemplo. Ele também era indesejável neste mundo. Quando Ele deixou Seu lar no céu para entrar em nossa humanidade, Ele se tornou o peregrino supremo. Um dia Ele nos receberá em casa.
Guia-me, ó Grande Jeová,
Peregrino por esta terra árida;
Eu sou fraco, mas Tu és poderoso,
Segure-me com Tua mão poderosa. - Williams
A vida cristã é uma jornada de peregrinação, não um passeio turístico. David C. Egner
Loucura de viver,
Louco amar-te!
Bandido o coração que por ti se apaixonaste.
Peregrino o amor que quero dar-te.
Um Anjo
Um dia conheci um anjo.
Um anjo peregrino
Que de tanto viajar, estava confuso.
Custei a entender.
Um demônio ou anjo?
Bom, para mim um anjo.
Como estava perdido, não conhecia o valor das asas.
Dei-lhe uma pequena asa.
O anjo começou a aprender a voar
Minha dúvida, será que o anjo sabe o caminho do vento?
O rumo.
Ou mesmo, um Norte?
Hoje, não sei. É não sei se terei tempo para descobrir.
Me aprás vê-lo voar.
Meu anjo, que você tenha uma brisa para plainar, se a força acabar.
Ivan Madeira
