O Destino Era Outro Já se tornou rotina... Peregrino Nino Carneiro
O Destino Era Outro
Já se tornou rotina para o motorista peregrino ouvir pedidos de desculpas de seus passageiros. Alguns chegam atrasados, outros batem a porta do carro com força, marcam o destino errado ou fazem várias paradas sem se preocupar com o tempo de quem está trabalhando. Quase sempre, depois do erro, vem a palavra: “Desculpa”.
Naquele dia, uma senhora pediu uma corrida de ida e volta. Ao chegar ao posto de saúde, explicou que tomaria apenas uma vacina e voltaria rapidamente. O motorista avisou que o tempo de espera era de três minutos.
— Pode ficar tranquilo. Não vou demorar.
Mas demorou. Foram doze minutos.
Quando voltou, pediu desculpas. O motorista percebeu, porém, que aquelas palavras não carregavam arrependimento. Então decidiu falar.
— Minha senhora, eu esperei pela senhora porque preferi ter paciência a simplesmente ir embora. Mas preciso lhe dizer uma coisa: todos os trabalhos merecem respeito. E respeito não é apenas uma palavra que pronunciamos depois de cometer um erro.
Fez uma pequena pausa e continuou:
— Eu não acredito em pedidos de desculpas vazios. A palavra “desculpa” pode encerrar uma conversa, mas somente a mudança de comportamento consegue reparar aquilo que fizemos.
A senhora permaneceu em silêncio.
Ao chegarem ao destino, antes de sair do carro, ela olhou para o motorista e disse:
— Obrigada por ter falado tudo isso. Estou passando por momentos difíceis. Algumas pessoas já tentaram me dizer que eu precisava mudar, mas nunca dei importância. Hoje percebi que talvez elas estivessem certas.
Naquele instante, o motorista compreendeu que aquela corrida tinha deixado de ser apenas uma corrida.
Respondeu:
— Eu sou peregrino. E, nas minhas caminhadas, sempre peço a Deus que abra minha mente para que eu possa ajudar alguém pelo caminho. Talvez hoje a senhora tenha entrado no meu carro justamente para que tivéssemos esta conversa.
Antes de partir, ainda lhe disse:
— Quando puder, faça algumas caminhadas na natureza. Caminhe devagar. Observe as árvores, escute os pássaros e converse consigo mesma. Talvez a natureza lhe diga coisas que eu jamais conseguiria dizer.
A senhora agradeceu e fechou a porta.
O peregrino ficou alguns segundos em silêncio antes de seguir viagem.
Pensou que existem encontros que duram apenas alguns minutos, mas podem mudar uma vida. E talvez seja esse um dos maiores sentidos de uma caminhada: não apenas chegar ao destino, mas deixar alguma coisa boa pelo caminho.
Peregrino Nino Carneiro
